O último português morto no império

Governo e Exército homenageiam Maggiolo Gouveia

A família investigou o paradeiro do militar durante 28 anos
Foto
A família investigou o paradeiro do militar durante 28 anos DR

Em 12 de Agosto de 1975, faz hoje 28 anos, o tenente-coronel Rui Alberto Maggiolo Gouveia foi à Rádio de Díli dizer que já não era comandante da Polícia de Segurança Pública e que abandonava o Exército português. Porque aderira, "por verdadeiro amor" à verdade, a Timor e a Portugal, "ao movimento UDT", o partido que no dia anterior desencadeara uma acção militar.

A declaração é recebida com perplexidade pelos militares portugueses e enfurece a Fretilin que a 21 o prende e encarcera no Quartel-General em Taibesse. O governador português Lemos Pires ordena, uma semana depois, a saída dos militares metropolitanos para a ilha do Ataúro, donde partirão em definitivo na manhã de 7 de Dezembro, início da invasão indonésia do território.

Maggiollo Gouveia é dado como desaparecido "em condições de grande perigosidade e de ameaça à ordem pública". Durante 11 anos. Após o que a família requere judicialmente a sua morte presumida. Desde há 11 anos que a viúva recebe pensão de sobrevivência e de preço de sangue.

Na tarde próxima segunda-feira, em Mação, o ministro da Defesa, Paulo Portas, e o novo chefe do estado-maior do Exército, Valença Pinto, prestam-lhe honras oficiais numa cerimónia fúnebre que a família pretende discreta.

Maggiolo Gouveia terá um enterro de acordo com as "honras regulamentares", disse ao PÚBLICO ontem o porta-voz do Estado-Maior do Exército (CEME), que está a organizar a cerimónia. Segundo o tenente-coronel Vasco Pereira, o antigo tenente-coronel terá "naturalmente direito" às honras de Estado a que "qualquer militar no seu posto" também teria - escolta militar e salva de tiros.

A presença do ministro ao lado do CEME mostra, contudo, a importância política dada pela tutela as Forças Armadas ao acto. "O Governo assume que quer fazer uma homenagem a este oficial", declarou ao PÚBLICO um dos assessores de Paulo Portas.

Vivas ao PS, torturas da Fretilin

Para trás, ficam 28 anos de polémica e de incerteza, e um longo processo burocrático empreendido pela família no sentido de determinar as circunstâncias da morte e o local exacto onde ficou enterrado, e para ultrapassar os inúmeros obstáculos de carácter legal que haveriam de atrasar, já depois da retirada indonésia, a exumação e repatriamento para Portugal dos seus restos mortais.

Em 11 de Agosto, apesar das suas relações de simpatia com os ideais da UDT - um partido que advogava a independência de Timor apenas depois de um período longo de transição ligada a Portugal - Maggiolo Gouveia é detido e as instalações da PSP ocupadas pelos revoltosos. Pouco tempo depois, porém (dia 12 ou 14, conforme os testemunhos), a sua voz faz-se ouvir na Rádio de Díli, numa declaração de vários minutos em que informa ter aderido ao "movimento UDT" por "amor verdadeiro" à verdade, a Portugal a Timor.

Na sua proclamação, Maggiolo identifica-se como "ex-comandante da PSP" e como "ex-tenente coronel do Exército português", informa que "aderiu completamente consciente, certo de que a sua atitude é a única digna de um oficial do exército português, que foi". Termina dando vivas ao Partido Socialista, a Portugal e a Timor (ver caixa na página seguinte).

Os seus camaradas atribuem a declaração pública - um verdadeiro acto de deserção, no plano militar - a cansaço físico e psicológico. Várias testemunhas oculares apontam-lhe, a partir daí, comportamentos públicos que indiciam um estado de extrema afectação. Xanana Gusmão, na sua autobiografia ("Timor-Leste, um povo, uma pátria", ed. Colibri, 1994) descreve-o, olhos avermelhados, "fazendo riscos de raiva no ar", a arrastar uma bandeira da Fretilin, que mandara arrear pouco antes, "como troféu de guerra", pelas ruas de Díli.

É nesta atitude contra a bandeira, diz-se do lado da Fretilin, que se pode encontrar a explicação para a extrema ferocidade com que os seus carcereiros o hão-de tratar. Chicoteado durante as primeiras semanas da detenção, segundo ele próprio contará, na segunda semana de Outubro, a uma equipa da RTP que o visita na prisão, o oficial português ver-se-á obrigado a baixar mais tarde ao Hospital, devido a novas sessões de tortura, confirmadas por testemunhos de outros presos.

Apesar do sofrimento, Maggiolo Gouveia continuará a manter o carácter consciente da opção que tomou. Numa declaração de grande nobreza, reafirma frontalmente tudo o que dissera semanas antes na rádio, estribando a sua atitude nas preocupações perante os reflexos em Timor da situação que se vivia em Portugal, naquele Verão quente de 1975. "Só o Partido Socialista e o general Spínola podem salvar Portugal" , dirá no citado encontro com os repórteres da RTP.

Quatro cartas que chegam em Outubro e Novembro, via Vaticano, constituem o último elo de ligação de Maggiolo Gouveia à família.

À invasão indonésia, em 7 de Dezembro daquele ano, seguiram-se longos meses de silêncio sobre o seu destino. Quebrado, em Junho de 1976, pela divulgação de uma carta do bispo de Díli à mulher, Maria Natália Gouveia, informando da morte do marido às mãos de um pelotão de fuzilamento da Fretilin.

O relato, previne o prelado, baseia-se em informações transmitidas por um antigo preso, o administrador do concelho de Maubisse, Lúcio da Encarnação, que as ouvira "por sua vez dos próprios soldados-algozes".

Segundo a carta, Maggiolo Gouveia fora executado juntamente com "50 a 60" outros prisioneiros, "entre 9 e 15 de Dezembro", na estrada Aileu-Maubisse, após rezar o terço "de joelhos em terra" e de dizer "aos soldados-algozes": "Morro por Timor. Morro pela minha pátria e pela minha fé católica. Podeis disparar".

Até à publicação da autobiografia de Xanana Gusmão, em 1994, a Fretilin nunca aceitou responsabilidades no desaparecimento de Maggiolo Gouveia. Porta-vozes do movimento no exterior disseram até essa data que o oficial português fora deixado em Díli, juntamente com outros presos, quando da fuga dos guerrilheiros para a montanha.

Confirmada a morte por fuzilamento, persistia porém a dúvida quanto ao local exacto da execução, pois são vários os monumentos levantados em Aileu às vítimas da guerra civil e díspares as versões do que aconteceu.

Depois de uma primeira deslocação a Timor em Janeiro de 2002, para a qual contou com o apoio do Comissário português Vítor Melicias, a família de Maggiolo Gouveia obteve a colaboração do Estado português que patrocinou a ida a Aileu, em Junho passado, de uma equipa de três médicos (um deles o filho, Rui Maggioli). Com o acordo prévio das autoridades timorenses, a equipa procedeu à escavação e classificação dos despojos encontrados, que enviou para Portugal, onde foram submetidos a peritagens nas últimas semanas por técnicos do Instituto de Medicina Legal de Coimbra.

É daqui que os restos mortais de Maggiolo Gouveia partem segunda-feira, 18, para Mação, localidade próxima do local de residência da viúva, Maria Natália Gouveia, que ali deseja ser sepultada também.