Crítica

Persona grata

"Persona" (1966), de Ingmar Bergman, é um desses filmes a que só se pode aceder aceitando que há zonas que permanecerão obscuras para nós. Obra maior do mestre sueco, que aqui atingia a máxima depuração estética, nela se concentram questões centrais na sua filmografia - a questão da representação, o olhar profundo sobre as relações humanas, a dimensão psicológica -, como se, a partir dela, o antes e o depois (e parece indiscutível que há um Bergman pré-"Persona" e outro Bergman depois de "Persona") se iluminassem.

E, no entanto, "Persona", pode ser um dado adquirido. Na verdade, em 1967, um ano após a sua estreia, Susan Sontag reconhecia, na "Sight & Sound", o impulso de tomar "Persona" "for granted": o cinema já tinha familiarizado os seus espectadores com novas formas narrativas, complexas e elípticas, de ruptura com o modelo clássico, nomeadamente em "O Último Ano em Marienbad", de Resnais. Mas este é um filme em que a fronteira entre fantasia e realidade está claramente delineada, ao passo que "Persona" se mantém inaprisionável no seu carácter enigmático, hoje como sempre - como se permanentemente negasse o nosso desejo de o agarrar. Houve tentativas, e as exegeses têm sido múltiplas, preferindo concentrar-se num ou outro vértice - as transacções identitárias, o erotismo latente entre as duas personagens femininas, a auto-referencialidade do cinema, a sedução e poder do jogo da representação, etc. -, "explicando" a parte mas nunca o todo.

É um filme sobre quê, "Persona"? Reduzi-lo a uma "história" é isso mesmo, reduzi-lo, sugeriu Sontag. Bergman escreveu-o num período de doença prolongada, depois de se internar no hospital. Viu uma fotografia de Bibi Andersson que, a seu lado, tinha "uma actriz nova, a qual simultaneamente se parecia, e não se parecia, com Bibi", relata no seu livro de memórias "Lanterna Mágica". Era Liv Ulmann.

Há um plano - centro de gravidade de "Persona", estarrecedor - em que os dois rostos se fundem, metade Bibi Andersson, metade Liv Ulmann. "Pergunto-me se poderemos ser duas pessoas ao mesmo tempo", interroga Alma (Bibi Andersson), a jovem enfermeira que tenta resgatar a actriz Elisabet Vogler (Liv Ulmann) do silêncio a que se votou. Pode-se falar de "Persona" como um duelo de identidades entre as duas personagens - e de vampirismo explícito, da mais fraca (Alma) pela mais forte (Vogler) - mas também, tão plausível quanto a primeira hipótese, como um duelo entre as duas identidades de uma pessoa, a sua alma e a sua máscara (em latim, "persona"). A película arde no momento em que a tensão se torna insuportável - as imagens tornam-se desfocadas, retomando lentamente a nitidez para voltar à narrativa - e tanto no princípio como no fim, assiste-se a uma sucessão aleatória de planos, alguns vagamente perceptíveis, até a mão de um rapazinho afagar o rosto feminino (Liv Ulmann?) que lhe surge à frente como um ecrã. Tem-se a sensação, em "Persona", de estar perante um filme que inventa as suas próprias leis. A que só se pode aceder aceitando que há zonas que permanecerão obscuras para nós. Por um momento, no final do filme, Elisabet Vogler volta a falar. E diz: "Nada".