Totalmente restaurada

Atenas 2004: Uma acrópole a brilhar para os Jogos Olímpicos

Os trabalhos sistemáticos de restauro no monumento tiveram início em 1983
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Os trabalhos sistemáticos de restauro no monumento tiveram início em 1983 DR

Quando os Jogos Olímpicos regressarem à Grécia, a 13 de Agosto do próximo ano, a acrópole ateniense - para muitos a jóia arquitectónica da antiguidade clássica - vai estar totalmente restaurada. Os que se deslocarem à capital grega terão oportunidade de ver brilhar as pedras dos seus templos e de percorrer as salas do novo museu, situado a norte da acrópole.

O novo Museu da Acrópole foi construído a pensar nos famosos mármores do Pártenon (século V a.C.), em exposição desde o início do século XIX no Museu Britânico e que Londres várias vezes se recusou a devolver, mesmo depois da Grécia ter iniciado na década de 80 uma intensa campanha internacional. Mas o museu poderá vir ser uma fonte de humilhação para a coroa britânica nos jogos de 2004, porque se as esculturas continuarem em Londres os gregos preparam-se para pôr nas galerias vazias as fotografias dos frisos que Lord Elgin levou para a Grã-Bretanha em 1806. Expressões como "as esculturas do Pártenon pertencem à Grécia" poderão vir a legendar as imagens expostas, acusando Londres de negar ao país o direito à sua herança histórico-cultural.

"Os Jogos Olímpicos podem ser um importante catalizador para a devolução dos mármores", disse à Reuters Anthony Snodgrass, um arqueólogo que há 20 anos lidera uma das campanha pela restituição. "Se o museu estiver pronto em 2004, milhões de pessoas verão um espaço vazio com cartazes onde se poderá ler 'os mármores do Pártenon deviam estar aqui'", garantiu, esperando que o executivo de Tony Blair volte atrás.

O líder trabalhista enfrenta a opinião pública que exige a devolução dos "mármores de Elgin" (designação das esculturas no Reino Unido) - 56 por cento dos britânicos são favoráveis à restituição das esculturas, desde que o museu londrino continue a ser o proprietário.

Marco da civilização ocidental

Símbolo da UNESCO e sinónimo do génio criativo da Grécia clássica, o Pártenon, o maior templo da acrópole ateniense, está a ser alvo de um amplo processo de restauro que deverá estar concluído até à inauguração dos Jogos Olímpicos. Os trabalhos de restauro e conservação, que começaram activamente na Primavera de 2002, envolvem ainda os restantes edifícios deste complexo a que os gregos chamam Rocha Sagrada, construído no século V a.C. segundo um cuidadoso projecto de Péricles e a supervisão de um dos maiores escultores da antiguidade - Fídias.

"A acrópole de Atenas é um dos mais importantes conjuntos monumentais da civilização ocidental", diz Maria Helena da Rocha Pereira, especialista em cultura clássica e professora jubilada da Universidade de Coimbra. "A sua conservação é um dever, uma forma de reconhecimento da sua importância vital para a história da humanidade."

Mais de 230 pessoas estão envolvidas nesta fase final do processo. Arquitectos, engenheiros, arqueólogos, historiadores de arte e operários especializados no trabalho do mármore estão apostados em devolver à acrópole o seu esplendor original, seriamente comprometido por guerras (os mais graves bombardeamentos destruíram o Pártenon em 1687) e funções diversas.

"Os monumentos foram muito afectados no passado por reconversões e conflitos vários, mas a sua beleza é ainda evidente", afirma Maria Helena da Rocha Pereira, que recentemente acompanhou o Presidente da República, Jorge Sampaio, numa visita oficial à capital grega.

Actualmente transformada num gigantesco estaleiro, a acrópole terá ainda de ser sujeita a diversas intervenções, algumas das quais realizadas com modernas tecnologias lazer. A instabilidade das fundações dos quatro edifícios principais - Pártenon, Erectéion, Propileus e Templo de Atena Nike (Atena, a Vitoriosa) -, a erosão provocada pelas chuvas e pela poluição atmosférica e o estado de deterioração dos anteriores restauros são alguns dos principais problemas do conjunto.

O programa de conservação, acompanhado por dezenas de técnicos internacionais, está orçado em mais de 17 milhões de euros (financiados pela União Europeia, ao abrigo do III Quadro Comunitário de Apoio) e inclui a consolidação estrutural dos edifícios e da cintura de muralhas, a limpeza das superfícies dos quatro monumentos principais e a inventariação dos elementos arquitectónicos espalhados pelo recinto.

Nos últimos 20 anos, Manolis Korres, o arquitecto que coordenou até há pouco tempo os trabalhos no Pártenon, identificou milhares de fragmentos do grande templo dedicado a Atena entre as 70 mil pedras dispersas pelas estradas que atravessam o complexo. Alguns deles já regressaram ao seu lugar original.

"O Erectéion foi restaurado até onde é possível", diz Rocha Pereira, acrescentando que os Propileus, a entrada para a acrópole, estão muito adiantados. "O Templo de Atena Nike, com um friso maravilhoso e raro porque testemunha as guerras meso-persas - não era habitual a representação de factos históricos tão recentes -, vai ser colocado de pé a tempo", garante, sublinhando que as maiores dificuldades residem no próprio Pártenon e no chão da acrópole.

O Pártenon, "incontestavelmente a peça central do conjunto", é a intervenção que levanta maiores desafios aos técnicos, quer pelas condições de conservação do edifício, quer pela sua importância simbólica. "É o mais belo dos monumentos. As suas proporções são uma realização fora de série e a sua harmonia irrepetível. Ninguém vai tolerar erros no restauro do Pártenon", adverte. "É a grade jóia da antiguidade clássica. Não é a única, mas é certamente a maior, apesar de lhe faltar já a magnífica estátua de Atena, de Fídias."

Os trabalhos sistemáticos de restauro no monumento tiveram início em 1983, um ano depois da cantora Melina Mercouri se tornar ministra da Cultura, desencadeando a campanha internacional pela devolução das esculturas. Os mármores que Lord Elgin, embaixador britânico em Constantinopla, fez transportar para Inglaterra e vendeu ao Museu Britânico por 35 mil libras (cerca de 50 mil euros).

Por enquanto, os visitantes têm de espreitar através de gruas e andaimes, mas o poder simbólico da acrópole continua intocável. "A equipa quer repor estradas e ruas, mas isso é muito difícil porque não há registos. O que se sabe é que o recinto estava fechado à noite, tal como hoje. É um lugar inexplicável. Quando subo a colina imagino as ruas cheias de gente." Maria Helena da Rocha Pereira consegue mesmo ver os deuses: "Olho para o lugar sagrado do Erectéion e vejo a oliveira que Atena plantou, a fonte de água salgada de Posídon."