Crítica

A solidão de um homem

Em "Election" (1999), o anterior filme de Alexander Payne, Matthew Broderick via a sua vida desmoronar-se e acabava a tentar começar tudo de novo no Museu de História Natural, a guiar criancinhas pela história da evolução da espécie.

Em "As Confissões de Schmidt", o novo filme de Payne, Jack Nicholson, um homem em perda, também há-de fazer uma última paragem no regresso da sua viagem pela América interior, o museu da conquista do Oeste. É um motivo reconhecível na obra deste "jovem" realizador americano: homens cujo falhanço e frustação levarão a uma espécie de périplo de aprendizagem que acabará inscrita na memória e tradição. Como se cada um tivesse de fazer a sua própria evolução.

Mas desengane-se quem vai para "As Confissões de Schmidt" em busca da acidez de "Election": o monomaníaco e "cartoonish" Nicholson até podia mover-se à vontade nesse universo, em mais uma variação da sua "persona" transbordante, mas os cabelos brancos estão à mostra. Este é um filme onde se confronta com o envelhecimento, e nunca esses sinais se evidenciaram de forma tão cruel num actor que não há muito tempo dizia odiar o facto de ser uma das pessoas mais velhas nos filmes.

A sua personagem, Warren Schmidt, é alguém a quem tiraram tudo: acaba de se reformar do seu emprego numa firma de seguros e, pouco depois, perde a mulher. Ou seja, é alguém que é atirado para o vazio, dos seus dias e da sua vida, como se vê nas primeiras imagens do filme — Schmidt sentado no seu gabinete despejado, a olhar para o relógio. Resta-lhe uma "roulotte" gigantesca, comprada por insistência da mulher para passar os dias da reforma em felicidade, a bordo da qual irá percorrer a "Middle America" — mas a dimensão do veículo apenas amplia a sua solidão.

Payne explicou a Nicholson que via Schmidt como um "small man", um homem pequeno, como consciente da tendência do actor para "encher" as suas personagens. Tim Burton chegou a dizer que ficara surpreendido com a entusiástica recepção dos fãs de Batman ao papel de Nicholson como Joker, já que, fisicamente, a personagem original de BD não tinha nada a ver com ele. É o método de Nicholson: ele não se torna nas personagens, as personagens é que se tornam nele.

Por isso, é extraordinário ver um actor que nos últimos tempos não tem feito muito para sair de si próprio deixar-se assaltar pela perda e pelo desconforto. Há uma contenção no seu corpo, como se o tivesse deixado descair (ou é só porque abandonou a pose?), e uma ténue melancolia no rosto — tudo passa em surdina, com um apego irónico, mas inevitavelmente trágico, ao que permanece no homem depois de ter perdido todas as suas ilusões e quase tudo o resto.

Assim sendo, "As Confissões de Schmidt" não será tanto um filme sobre a redenção — sem sentimentalismos, ao contrário do que por vezes se tem injustamente apontado —, mas sobre a aceitação, mesmo que, para isso, haja alguns amargos de boca, como o discurso de Schmidt no casamento da filha a que sempre se opôs.

"You sad, sad man", diz uma mulher com quem Schmidt se cruza na sua viagem, tentando confortá-lo, o que ele aproveita para desferir um golpe de rebeldia — beijá-la —, como se quisesse escapar à sua irredutível solidão.

Mas não há fuga possível (lembram-se de Broderick a correr em círculo no início de "Election"?) neste filme sobre o "coming of age", sobre as dores do crescimento. E, no final, o "small man" transformou-se num "big boy". Que até descobre que é pai, de novo: de uma criança algures na Tanzânia, Ndugu.

Sugerir correcção