Entrevista com Agustina Bessa-Luis

PÚBLICO - Como surgiu a ideia de fazer esta autobiografia?
Agustina Bessa-Luís - Já é uma ideia muito antiga, o livro estava há dez anos para ser organizado. Pensou-se em fazer pequenos textos adaptados às fotografias, depois mudou-se de ideia e resolvi escrever um texto ao correr da pena, com pequenas notas para algumas fotos.

Lendo o livro, fica-se com a impressão de que ele vai ter continuação. É verdade?
Pensa-se nisso. Em princípio, haverá, embora dependa de vários factores. A ideia era reservar toda a parte das relações com os amigos para um segundo volume. O material é tanto!

Fica-se também com a sensação de que aproveitou este livro para acertar contas com o passado e nota-se mesmo alguma amargura no modo como olha para a sua história...
Há sempre um acerto de contas nestas coisas, embora algumas das histórias de que falo já existissem noutros livros. Mas sou a pessoa menos dada a amarguras que há no mundo. São memórias. Não tenho preconceitos, não tenho má vontade, não há abalos.

A dada altura, diz que prefere o sal e o vinagre. É um traço de personalidade?
Não, não (risos). Sou até muito pacífica. Referia-me apenas ao paladar.

Mas reconhece, no livro, que não é uma pessoa fácil.
Isso é verdade, não sou uma pessoa fácil. Sou fácil no que não é essencial, porque, naquilo que é essencial, sou intransigente.

Para além da biografia, publicou um romance há pouco tempo e sai na próxima semana um outro livro seu. É um sinal de grande vitalidade para alguém que tem 80 anos.
É sinal de trabalho. No ano passado, trabalhei tanto que estive quase à beira de uma depressão. A cabeça é a parte do corpo que fica mais exposta à doença quando se trabalha de mais. Vi que não podia trabalhar tanto. Mas está para sair ainda um outro livro, sobre os azulejos das estações de comboios.

E tem planos para outros?
Os meus planos são o livro que estou a escrever [o terceiro volume da trilogia "O Princípio da Incerteza"] e, depois, por aí fora. Não faço planos. Continuarei a escrever enquanto tiver lucidez e gosto.

Jorge Marmelo (PÚBLICO)




Autobiografia de uma mulher de sal e vinagre

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Agustina Bessa-Luís lança um olhar irónico, frio e algo amargo sobre os seus primeiros anos de vida DR

A obra surge demasiado sintética, como um olhar frio e distanciado relanceado sobre um passado já longínquo. Em alguns momentos, parece um acerto de contas. E, mesmo no domínio da carreira literária, ímpar no universo das letras portuguesas, a autora prima pela parcimónia, interrompendo o curso da memória com a publicação - e consequente sucesso - de "A Sibila", originalmente lançado em 1954.

O que Agustina não escreveu em parte nenhuma é que o volume que hoje será dado a conhecer é apenas a primeira parte da sua autobiografia, que deverá ter continuação, conforme a escritora adiantou ao PÚBLICO (ver entrevista).

Agustina Bessa-Luís dedica uma boa parte do livro - editado pela Três Sinais e engalanado por fotografias e iconografia do arquivo pessoal da autora - às suas memórias de infância e à história das suas origens familiares, seguindo um ritmo próprio das recordações, temporalmente desconexo e com muito poucas marcas cronológicas que auxiliem a leitura. Do avô Teixeira, "com ar todo dostoiewskiano" e que, aos 20 anos, prometeu casar com uma rapariga de 7, Justina, sua avó, à relação aparentemente difícil com os pais (ver citações), Agustina traça um retrato familiar entre a linhagem vagamente aristrocrática ("o snobismo entrou na família com a cultura, o dinheiro e a histeria das recordações") e aflorações de certa pulsão demencial.

"Aos três anos, em Espinho, eu saí do hotel, sozinha, com um vestido de voile azul-claro e um ar de grande aventura. Tenho ainda essa aspiração de caminhar sem rumo, dizem que é um fio de epilepsia. Talvez seja. Talvez a liberdade seja um sintoma epiléptico", recorda a escritora, como que mirando-se ao espelho e descobrindo aquele que podia ser o princípio de uma das suas personagens - do mesmo modo que, diz, a Sibila foi beber inspiração numa tia chamada Amélia.

À sua pré-história foi Agustina buscar outro episódio que se cruza com a obra produzida: o pai - Arthur Teixeira de Bessa, que emigrou para o Brasil com 12 anos e ali esteve 25 anos, fazendo fortuna - abordou a mãe, Laura, oferecendo-lhe um prato de figos, cena revivida no filme "Vale Abraão", de Manoel de Oliveira. Mas esta é, curiosamente, a única referência que o livro faz ao cineasta, que tem adaptado várias obras da escritora para o cinema.

Avançando no tempo, Agustina diz que, com um único irmão, se sentia sozinha, vindo, por isso, a descobrir as suas companhias nos livros, os primeiros dos quais provinham da biblioteca do bisavô materno. Mais tarde dedicou-se à leitura dos folhetins que os jornais publicavam, mudando de rumo quando lhe caiu nas mãos a "Madame Bovary". "O estilo impunha-se, dava-me arrepio uma bela frase", recorda. Seguiram-se os clássicos franceses, depois os russos, os americanos - aos 19, no regresso ao Porto - e, mais tarde, os alemães, após ler a obra de Freud "como se fosse um romance devastador".

Partindo da Amarante natal, a autobiografia segue também as várias andanças da família da escritora, por Gaia, pela Maia, pelo Porto, pela Póvoa de Varzim e pelo Douro ("a província mais capaz de gerar paixões governadas e desgovernadas que há em Portugal"), primeiro, e por Coimbra, por Esposende e novamente pelo Porto, depois de casada. Conta, de resto, que escreveu os seus dois primeiros livros - "Ídolo de Barro" e "Água da Contradição" - no Douro, aos 15 anos, "numa letra tão intrincada que que parecia destinar-se a não ser decifrada por mim nem por ninguém". Padecia, nessa altura, de anorexia: bebia vinagre e mal se sentava à mesa para comer.

Após o casamento, e já em Coimbra, volta à escrita com um novo romance, "Mundo Fechado", que envia a Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Teixeira de Pascoaes e Miguel Torga - o qual, ao contrário dos restantes, o avaliou prudentemente, desencadeando a "cólera" da autora (ver citações). Segue-se "Os Super-Homens", dedicado ao espírito coimbrão, e, depois, "A Sibila", livro escrito para concorrer a um prémio literário e apresentado sob o pseudónimo Stravoguine, fazendo jus à paixão pelas letras russas.

A crueldade e a perversidade que muitos apontam a Agustina Bessa-Luís declara-se em várias passagens da autobiografia, nomeadamente quando a autora conta que mantinha várias amizades por correspondência, não porque necessitasse de amigos, mas apenas por precisar de quem a lesse. "A minha avó morreu tinha eu dez anos. Foi muito censurado eu não vestir luto carregado. Era nas férias grandes e não há luto que chegue ao Setembro delicioso dos nossos dez anos", narra noutra parte. Porquê? Talvez a justificação esteja no sangue: "Meu pai, levado por um tio que tinha comércio de frutas na Baía, foi colocado no Rio (de Janeiro), não sei se numa pastelaria onde o deixaram comer doces até os ter por inimigos para o resto da vida. Creio que me transmitiu o desinteresse pelas coisas doces, que eu prefiro o sal e o vinagre".