Retrato de Casal: no Inverno de Um País

Há quase dez anos que Fernando Lopes não filmava uma longa-metragem de ficção. "O Delfim" sucede a "O Fio do Horizonte" (1993) e é, novamente, uma adaptação de uma matriz literária, o romance de José Cardoso Pires. Adaptação notável, filme notável - é já um dos bons momentos de cinema de 2002.

Seguindo o romance de Cardoso Pires, "lapidado como um diamante" (a expressão é de Fernando Lopes e percebe-se o que ele quer dizer com isso) pelo argumento de Vasco Pulido Valente, o filme leva-nos para o Portugal de há 30 e poucos anos, em pleno Inverno salazarista. O romance de Cardoso Pires, escrito em 1968, era contemporâneo da acção, com uma aguda percepção do fim de um tempo. O filme, preservando isso, confirmando-o, está no entanto em posição de filmar também o que não mudou, o que não passou com o tempo.

Nesse sentido, servindo-se de pequenas pinceladas subtis acaba também por construir um retrato do Portugal rural, da sua burguesia, dos seus sistemas sociais e das relações de poder que nele se engendram - "mutatis mutandis", o microcosmos da Gafeira, lugar que vale por muitos outros lugares, terra onde para além do "engenheiro" Palma Bravo as figuras de maior destaque são o padre e o cacique local, continua a existir um pouco por todo o país. Quando muito, e é por isso que "O Delfim" alberga uma aura viscontiana, o "fim de um tempo" talvez seja sobretudo o tempo de uma transferência de poderes, que podemos pressentir na "corte" que o regedor (Alexandre de Sousa) faz ao "delfim" Palma Bravo. O cauteleiro (José Pinto), verdadeira "vox populi" do filme, abana a cabeça, como se percebesse tudo, ou que nem tudo muda necessariamente para melhor.

a consciência do fim. Mas tudo isso, que aparece extraordinariamente sintetizado numa série de notas (quase) à margem, é a moldura do filme, o espaço livre por onde pode passar todo o tempo que passou desde a altura em que o romance de Cardoso Pires foi escrito. O coração do filme não é esse, mas o fortíssimo, e melodramático, retrato do casal composto por Tomás da Palma Bravo (Rogério Samora) e Maria das Mercês (Alexandra Lencastre) - extraordinária dupla de personagens, magnífica dupla de actores. É por aí que apetece dizer que "O Delfim" é um filme de retratista, apostado em pintar as suas personagens em todas as suas cambiantes e contradições, deixando em suspenso um julgamento moral. Quem julga são os "outros", o cauteleiro ou a criada da pensão (Márcia Breia) onde se alberga a "observadora" (mais do que "narradora") personagem de Rui Morrison, ou quando muito a História.

O filme, em vez de julgar, quer compreender, retratar - e uma boa medida do sucesso dessa empresa está no facto de a personagem de Tomás, que tinha tudo para ser detestável, nunca nos aparecer (apenas) na sua relativa monstruosidade mas ser sempre envolta numa bruma tocante, feita de vulnerabilidade e fragilidade. É certo que ele tem a plena consciência do seu fim, quer porque não tem nem pode ter filhos (para ele, o problema é obviamente da mulher) e portanto está condenado a ser o último dos Palmas Bravos, quer por que não encontra à sua volta ninguém com quem possa relacionar-se de igual para igual nem em quem possa reconhecer-se (fará uma tentativa de "projectar" o filho que não tem na personagem de Domingos, o seu "valete", mas as coisas irão precipitar o desenlace). Tudo o que o afasta do mundo "real" pode ser pressentido na sua relação com o regedor, mas fundamentalmente na fortíssima cena da consoada, onde o casal Palma Bravo aceita à sua mesa a criadagem. E como não há nada no mundo exterior onde ele se reconheça, vive remetido ao seu "castelo" da Lagoa, de onde só sai para caçar patos e para vir aos bares de Lisboa no seu Jaguar.

desejo e ressentimento. Tudo o afasta, também, da mulher. Como ele explica, a mulher é para ter filhos - ora não os havendo, nem ele próprio sabe muito bem o que fazer com ela. Assim, guarda-a no seu palácio, verdadeiro cativeiro dourado, como se fosse uma espécie de coleccionador de uma peça única. E Maria das Mercês vive, no fundo, sozinha, guardada pela governanta (Isabel Ruth numa sinistra personagem) que desde cedo percebemos ser uma aliada de Tomás. Mercês, como o marido, embora por razões diferentes, é uma personagem fraca/forte, que arde de desejo, sofre com a indiferença de Tomás, mas no fundo está presa a ele por razões mais do que "contratuais" (é ela quem diz que não pode viver sem ele, na cena da conversa telefónica da amiga).

É essa mescla de desejo e ressentimento que marca a personagem, numa permanente vontade de entrega sempre rechaçada - mas a sua fragilidade decisiva é que Mercês não acredita ser capaz de viver fora desse jogo, entrou nele e interiorizou-lhe as regras, vive de acordo com o que se espera dela. Numa cena, numa única cena, consegue impor o seu desejo ao do marido: o passeio de barco na lagoa, filmado segundo a mais clássica arte da elipse, cena que termina com o véu vermelho de Mercês a boiar sobre as águas.

Mas tudo está condenado a encontrar um fim, e ele acaba por chegar. O último plano em que vemos Tomás, afastando-se do corpo morto de Mercês, é uma verdadeira saída de cena, com uma "allure" resultante de um derradeiro esforço de impor um sentido de dignidade ao patético, que doravante passa a ser o seu estatuto. Tomás tornou-se obsoleto, não voltará a aparecer, e como diz a personagem de Morrison, sabe que não pode voltar a aparecer. "Que caia a noite" - as últimas palavras do filme.

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