Crítica

Eis o Hobbit: Peter Jackson

O fã dos Monty Python e de "Massacre no Texas", o guru do "trash", o "Roger Corman da Nova Zelândia", como é conhecido, acaba de fazer "o maior filme que alguma vez quis fazer". Os fãs devem recear por ele se ter tomado a sério?

George Lucas filmou na Austrália a sua trilogia da "Guerra das Estrelas", mas foi Peter Jackson que se aventurou a fazer o que até agora nenhum outro realizador tinha feito: dar vida à trilogia de J.R.R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis". Jackson atravessou a Tasmânia, na Nova Zelândia, de lés-a-lés. "Senti-me relativamente seguro e numa espécie de isolamento na Nova Zelândia", diz o afável cineasta de 40 anos, que se assemelha mais a um "hobbit" do que a outra coisa qualquer. "Sinto-me livre daquele sistema hollywoodesco, que não aprecio. Este foi um lugar bom para se estar." Nascido no dia fatídico de Halloween, em Wellington, Jackson desenvolveu em criança o seu original sentido de humor como ávido fã dos Monty Python. Fanático dos efeitos especiais grotescos e de narrativas que nada devem à subtileza, inventou o seu género de horror, uma versão original de comédia a que ele chama de "slapstick". Praticamente, tornou-se o Roger Corman do Pacífico Sul. O seu filme de estreia, "Bad Taste", que financiou com as suas parcas economias como estagiário de fotografia, foi inspirado em "Massacre no Texas", de Tobe Hooper, e contava uma história hilariante e sangrenta de agentes governamentais que combatem um batalhão de extraterrestres que tinham como objectivo transformar as vítimas humanas em comida de plástico.

Depois, arrasou um lar de mortos-vivos com um cortador de relva em "Braindead", filme de culto que o transformou no herói dos "nerds" em todo o mundo. Conseguiu chegar ao "mainstream" com "Heavenly Creatures", a história verídica, passada em 1950, sobre a amizade obsessiva entre duas adolescentes, que fez com que matassem a mãe de uma delas (Leão de Prata em Veneza). Jackson atribui esta atracção geral de "Heavenly Creatures" à colaboração com o seu "parceiro", que é a mãe dos seus filhos, Fran Walsh. Após o sucesso do filme, Jackson e a sua conterrânea Jane Campion transformaram-se nos mais louváveis realizadores australianos. Fatias de bolo. Se bem que tivesse dado dois ligeiros passos em falso ("Meet the Feebles", com marionetas envolvidas em vários actos sexuais, assassinatos em massa e abuso de drogas; e "The Frighteners", com Michael J. Fox com poderes paranormais), permitiu-se também fazer experiências transgressoras com a sua vívida imaginação e à custa do público. Essas experiências foram necessárias ao seu percurso para chegar onde está hoje: "O Senhor dos Anéis". A criação da empresa de efeitos especiais (WETA) que fundou para "The Frighteners" ajudou a provar que era capaz de utilizar tecnologia com muito menos dinheiro do que Hollywood alguma vez sonhara. Mas, ao contrário de George Lucas, que fez milhões com a sua produtora (Industrial Lights and Magic), para Jackson a WETA era apenas um meio para alcançar um fim.
"Adoro o fantástico, o que não me interessa são filmes que parecem fatias da vida. Hitchcock é o meu favorito nesse aspecto. Há pessoas que gostam de filmes que sejam fatias de vida, mas os meus são fatias de bolo. Não tenho interesse em filmes que representam a vida real. Não me interesso por um filme que mostra o que fiz ontem. Quero fazer filmes como aqueles que gosto de ver, que me levam a sítios onde não posso ir e a fazer coisas que não posso fazer. Fui fortemente marcado pela primeira vez que vi na TV 'King Kong', tinha oito anos. A minha transbordante memória via uma aventura na qual uma ilha fantástica era habitada por dinossauros e um gigantesco gorila e estas coisas incríveis aconteceram. Senti que estava a tomar parte nesta história maravilhosa, e isto é o que realmente me interessa."
Jackson desejava ardentemente fazer um filme maior na Nova Zelândia, e quando a sua tentativa para fazer o remake de "King Kong" falhou (sob o peso de "Godzilla"), "O Senhor dos Anéis" parecia a escolha óbvia. "Estava a pensar sobre o que é possível fazer hoje com computadores e tecnologia, que lugares espantosos e criaturas podemos criar. Cheguei à conclusão de que seria a altura ideal para fazer 'O Senhor dos Anéis', porque ainda não tinha sido feito num filme de imagem real (em 1978 apareceu um filme de animação dos dois primeiros livros de 'O Senhor dos Anéis', realizado por Ralph Bakshi). Conheço alguns realizadores que tentaram fazê-lo, alguns argumentos foram escritos, mas era sempre uma daquelas histórias infilmáveis."
A chave para Jackson era que a trilogia deveria ser filmada simultaneamente, como três filmes separados, como os livros de Tolkien - "A Irmandade do Anel"; "As Duas Torres"; "O Regresso do Rei" - que venderam mais de 100 milhões de cópias e foram traduzidos em 40 idiomas. Em vez de produzir um filme, e depois outro e ainda outro, Jackson filmou os três juntos, por um orçamento estimado em 300 milhões de dólares (334 milhões de euros), com uma equipa de mais de 300 pessoas, um "cast" de várias dúzias de actores e 20 mil figurantes (depois do filme feito, ainda se podem somar 200 mil personagens criadas por computador). "'O Senhor dos Anéis' é uma coisa enorme, é uma tal preciosidade que vale a pena gastar cinco anos da nossa vida a lê-lo. Li-o quando tinha 18 e não voltei a lê-lo outra vez, até ter a ideia de fazer o filme, 17 anos depois", diz.
O argumento tomou forma na sua casa de Christchurch, em colaboração com Walsh, assim como com dois escritores locais, Stephen Sinclair e Philippa Boyens. "Era um projecto tão complicado, que precisámos de ajuda. Fran e eu temos um escritório em casa, mas temos de ter tempo para trabalhar e para sermos pais", explica. (Uma curiosidade: à maneira hitchcockiana, Jackson aparece nos seus filmes; representou um homem com "piercings" em "The Frighteners", um vagabundo em "Heavenly Creatures" e um assistente funerário em "Braindead"; com um sorriso, convida a que o descubram em "O Senhor dos Anéis" como um "hobbit" gorducho e sorridente, de grandes barbas e óculos com aros redondos quase a meio do nariz.)

Certamente que o mais excitante é trazer as criaturas pequeninas de Tolkien à vida. "Quando se lê 'O Senhor dos Anéis', ficamos, obviamente, conscientes de que os 'hobbits' são pequenos, mas envolvemo-nos de tal forma na história que nos esquecemos disso. Mas quando vemos Ian Holm e Elijah Wood (Bilbo e Frodo Baggins) pequeníssimos, aí é que se destaca o facto de a história ser sobre pessoas pequenas, de 90 centímetros de altura, que se aventuram num mundo grande e mau." Algumas cenas necessitaram de complexa tecnologia de computador, mas frequentemente um actor tinha de ser pôr em cima de uma caixa ou de se ajoelhar para reduzir a sua altura. "Tínhamos também duplos, um grupo de pessoas pequenas para as cenas de conjunto." Jackson deu especial atenção às várias línguas místicas que são faladas pelas personagens. "Uma das primeiras coisas que adoptámos foram as línguas do livro. Tivemos imenso gozo com o 'dwarvish'. Não era questão de modernizar uma língua, mas de encontrar uma maneira de usar o idioma de forma mais intensa. Nos livros ouvimos o idioma na nossa mente, mas nunca ouvimos os sons em voz alta. Isto era o que achávamos piada."
Não é um filme fantástico. Durante toda a rodagem, Jackson tentou ser fiel a Tolkien, professor de Inglês na Universidade de Oxford, que em 1938 criou as séries a partir do interesse que teve durante toda a sua vida por línguas, mitos e lendas. O mundo de Tolkien é como uma Europa utópica, amante da paz, repleta de feiticeiros, anões, duendes, dragões, gnomos e mais figuras, como os "hobbits", "balrogs" e "ents". É um mundo que enfrenta a destruição pelas forças - fascistas - do Mal, forças que Tolkien podia sentir de forma muito real: no seu tempo, a Europa estava prestes a ser destruída na II Guerra Mundial.
"Tolkien levou uma vida inteira a criar um mito e amava a mitologia e tinha um grande desgosto por a Inglaterra não amar", explica Jackson. "Tratámos do filme como se fosse histórico e muito menos fantástico. Embrenhamo-nos tanto na história que ela se torna real. Este não é um filme fantástico; é como se fosse um pedaço de pré-história, quando os gigantes, os duendes e anões existiam. Esta foi a direcção que decidimos seguir em todo o 'design' e estilo."
Com o reconhecível cenário luxuriante da Nova Zelândia a preencher a Terra do Meio, "O Senhor dos Anéis" é menos accionado por efeitos especiais do que "A Guerra das Estrelas". Saiu para os ecrãs de todo o mundo logo a seguir a um fenómeno, "Harry Potter e a Pedra Filosofal". Mas Jackson tem "fair play". "Penso que se as pessoas gostarem de Harry Potter, será favorável para nós. Se eles entrarem no mundo dos feiticeiros, dos mágicos e da fantasia, podem também entrar no de Tolkien."
No entanto, a questão premente para os fãs do realizador continua: será que Jackson deixou para trás o gosto pelo género "trash" de "Braindead"? Certamente que ele tem pena de que a época de ouro para esse género tenha acabado. "Havia uma excitação real com esses filmes de horror. Agora estão na moda os que têm orçamentos maiores, que são comerciais e que se tomam muito a sério. Há uma porção de coisas que quero fazer, e fico aterrorizado quando penso que o tempo que tenho não me chega para vir a concretizá-las. Mas gostaria de fazer 'Bad Taste 2' e 'Braindead 2'. Aqueles filmes tinham um piadão. É uma coisa atrevida de fazer, quando se põe a audiência a gritar: 'Oh, meu Deus, é horrível!'. É uma coisa que um rapazinho traquinas gosta de fazer, é como esconder atrás dos arbustos e sair de lá com uma máscara para assustar as rapariguinhas que por lá passam. É aquele sentido de humor juvenil e eu adoro isso; nunca perdi esse humor. Gostaria de fazer um dia 'Bad Taste 2' usando efeitos especiais por computador. Seria ultrajante. Aconteça o que acontecer com 'O Senhor dos Anéis', tenha sucesso ou não, vou fazer alguns filmes mais pequenos a seguir. Acabei de fazer o maior filme que alguma vez quis fazer. Não preciso de nada maior do que 'O Senhor dos Anéis'."

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