Crítica

Summer Phoenix, um Míssil de Gelo

É a história de uma obstinação: Esther quer ser actriz, e para o conseguir está disposta a tudo, até a seguir uma via sacra. Summer Phoenix, rosto baço e vazio, é uma espécie de "míssil" em direcção a um alvo predestinado, que atravessa "Esther Khan" numa trajectória imparável. É feita de gelo, mesmo na dor.

Arnaud Desplechin parece querer tornar-se num especialista em "ficções geladas". Mesmo que não haja muita coisa em comum entre os dois filmes, "Esther Kahn" não deixa de trazer à memória o primeiro filme do realizador francês, "La Sentinelle" (exibido pela Cinemateca em Março passado) - o mesmo olhar gélido, desprovido de qualquer emoção ou afecto visíveis, sobre o mundo e as personagens (olhar que Desplechin terá suspendido em "Comment je Me Suis Disputé", caloroso retrato geracional, entretanto tornado filme de culto); o mesmo enigma "motivacional", quanto às origens da mola do comportamento das personagens; a mesma estrita demarcação "topográfica" de um mundo (a Europa da Guerra Fria em "La Sentinelle", uma comunidade judaica da Inglaterra do século XIX em "Esther Kahn"), que acaba por ser um "trompe l'oeuil", visto que os filmes têm tendência para rapidamente a esquecerem, e conquistarem dentro dela uma espécie de território abstracto.

Enigma. Com "Esther Kahn" estamos perante um objecto bizarro, como já terá ficado implícito - é um daqueles filmes escorregadios, que parecem estar sempre a escapulir-se ao controlo do espectador, e que preservam o seu mistério até ao fim. Começa por ser, surpreendentemente (e durante toda a longa "mise en place" das sequências iniciais), um filme de reconstituição histórica: Inglaterra, século XIX, uma família judaica, uma comunidade aparentemente fechada a influências exteriores. Tudo isto com um rigor inesperado, tanto que o espectador se interroga sobre se Desplechin teria resolvido ser "inglês em Inglaterra" e enveredar por tangentes ao "realismo britânico".

Lentamente esta vertente vai sendo esquecida, à medida que "Esther Kahn" se centra sobre a sua homónima protagonista, desde o princípio (o filme começa com Esther ainda criança) apercebida como um ser relativamente à parte dentro da família, mais observadora do que interveniente, fechada num laconismo à beira da mudez ("a minha filha que não fala", chama-lhe carinhosamente o pai).

De certa forma o filme só arranca mesmo depois de passada esta fase inicial, quando Esther chega à idade adulta e passa a ser interpretada por Summer Phoenix. É então que tudo à volta se dilui, e Esther se assume (para o filme e para as outras personagens) como um "enigma". O "realismo" suspende-se, entra-se num registo de romanesco sufocado à nascença, austero, duro e cerebral - mais do que britânico, muito mais do que francês, o registo é, dir-se-ia, "nórdico", em consonância com a peça de Ibsen ("Hedda Gabler") que se representa na sequência final.

"Esther Kahn" passa a ser, então, a história de uma obstinação: Esther quer ser actriz, uma "boa actriz", e para o conseguir está disposta a tudo, até a seguir uma espécie de "via sacra", provações e sofrimentos atrás de provações e sofrimentos, até o conseguir. Como lhe explica o velho actor (Ian Holm) que lhe dá as primeiras lições de representação, Esther é demasiado "vazia", demasiado "opaca", para ser convincente; falta-lhe peso, e esse peso só a vida (de que ela se mantém ostensivamente à parte, a escolha do teatro é uma provável confirmação disso) lho pode dar. Esther resolve, portanto, começar a "viver", e para a luz nórdica que Desplechin faz incidir sobre o seu filme "viver" só pode ser sinónimo de "sofrer".

De onde vem esta obstinação não se sabe - esse é o mistério da personagem. Tal como Desplechin a filma, Esther Kahn tanto pode ser apenas uma espécie de autista abnegada na superação dos seus limites como uma espécie de "anjo", iluminado por uma graça que lhe indica o caminho da redenção. Há na personagem um misto de disponibilidade e indisponibilidade para o mundo, uma ingenuidade "sábia", uma "cegueira" que filtra o essencial e elimina o acessório - que tanto pode ser produto de uma coisa como outra. Mutatis mutandis, Esther Kahn é aproximável da personagem de Emily Watson, em "Ondas de Paixão" (do nórdico von Trier), como ela disposta a seguir um caminho de dor e sofrimento porque isso lhe é ditado por uma profunda convicção de origens obscuras, sem que nunca fique bem decidido se se está aquém da "razão" ou muito para além dela.

Summer Phoenix (irmã de River), rosto baço e vazio, incorpora estas características na perfeição. É uma espécie de "míssil" em direcção a um alvo predestinado, que atravessa o filme numa trajectória imparável. Parece feita de gelo, mesmo quando tem que lidar com a dor (toda a história com o crítico de teatro, ou o momento em que mastiga o copo de vidro) e o prazer (a perda da virgindade, com o grande plano de olhos inexpressivos apontados para a câmara), como se dor e prazer fossem meras formalidades, apenas etapas que é preciso percorrer.

Nada muda no final, quando Esther se torna enfim numa "boa actriz": o gelo já não é o sinal da sua fragilidade perante os outros, mas da sua força sobre eles. Como ela diz, "tanto pode voltar como não" para o amante, "é-lhe indiferente"; ou seja, o autismo sempre acaba por se cumprir, mesmo que com as relações de poder viradas do avesso.