Crítica

Love Story

Um par de amantes renitentes, ambos casados, aproximados pelo "affair" vivido pelos respectivos cônjuges, mas sem coragem para consumarem a paixão. A partir daqui, Wong Kar-wai fez "Disponível para Amar", um filme de um discretíssimo pudor, que avança por sussurros.

Quem esteja à espera de "cinema de Hong Kong", ou pelo menos daquela concepção visual tipo montanha russa que nos habituámos a associar ao cinema de Wong Kar-wai, vai ficar decepcionado. "In the Mood for Love"/ "Disponível para Amar" está nos antípodas do cinema recente de Wong Kar-wai, tem um ritmo, uma estabilidade formal e uma gravidade diametralmente opostos aos do trio de filmes que dele estrearam em Portugal - "Chungking Express", "Anjos Caídos" e "Felizes Juntos".

A tentação é de falar de "abrandamento", tese que poderia ser articulada com o facto de em "Felizes Juntos" o "sistema" de Wong Kar-wai apresentar alguns (muitos) sinais de esgotamento iminente. Mas insistir nessa tecla, assim como na palavra "abrandamento", comporta o risco de se poder pensar em "In the Mood for Love" como o filme em que o cineasta teria, finalmente, entrado nos eixos, deitado fora aquilo que para muita gente é apenas "ganga" superficial, e reduzido as coisas a um núcleo dramático uniforme mais facilmente identificável ou reconhecível. Seria, eventualmente, o "filme da maturidade" (e quantos cineastas se perderam nesse momento!...), a recuperação de Wong Kar-wai para dentro de um cinema despido de "efeitos", um cinema finalmente "normal" - tese pouco aceitável para quem ache que o essencial deste cinema sempre passou pelos "efeitos", que o "sistema" de Wong Kar-wai sempre correspondeu tanto a uma forma coerente de olhar o mundo como a uma linguagem pessoal, perfeitamente idónea e, à sua maneira, refinada.

Dizer isto não resolve o problema de lidar com este filme, se calhar até o amplia. Porque, primeiro, "In the Mood for Love" é um filme claramente diferente dos anteriores, e porque, segundo, essa diferença, por grande que seja, não instala um sentimento de ruptura nem representa uma quebra de coerência - é o mesmo cineasta, não necessariamente numa nova encarnação.

Pudor. "In the Mood for Love" está mais próximo de uma linguagem clássica - tanto, que alguns falarão de "academismo" - mas de uma linguagem clássica (re)vista com a consciência da distância que o separa do tempo em que o classicismo podia ser uma coisa natural -, o que quer dizer que estamos perante um objecto reflexivo e sofisticado, integrável numa modernidade "pudica" (e "pudor" é uma das palavras-chave para falar deste filme) que tem que inventar a sua própria maneira de (voltar a) acreditar nas mesmas coisas, nos mesmos valores e nas mesmas emoções dos clássicos.

"In the Mood for Love" é um filme em constante fricção com o seu próprio cinismo e com a sua própria descrença. O assumir dessa fricção talvez seja a principal mudança, e a razão pela qual o melodrama, género sempre tangente ao cinema de Wong Kar-wai (mas normalmente posto a flutuar por entre os estilhaços "multicoloridos" dos filmes anteriores), é aqui puxado para o centro de tudo.

"In the Mood for Love" resolve essa fricção - nenhum género tem mais necessidade de suspender a descrença do que o melodrama - de forma simples: despe-se de efeitos, abdica do acessório, reduz os códigos do género ao que eles têm de essencial. E depois - aqui o filme começa a ser brilhante -, em vez de se limitar ao esquematismo ou a uma mera abordagem pós-moderna do "esqueleto" do género, elabora outra vez sobre os seus códigos, renova-os e preenche-os de acordo com regras pessoais. Isto dá um filme de um discretíssimo pudor, que avança por sussurros e elipses, quase como se tendesse, numa espécie de apoteose desse pudor, para o auto-apagamento - ideia reforçada pelo facto de se saber que Wong Kar-wai filmou muito mais cenas do que as que se podem ver, mas que foram "apagadas" da montagem final.

Num certo sentido, não é disparate dizer que o cineasta tentou menos contar uma história (que seria a de um par de amantes renitentes, ambos casados, aproximados pelo "affair" vivido pelos respectivos cônjuges, mas aparentemente sem coragem para assumirem/consumarem a paixão) do que desbastá-la e deixar apenas pequenos ecos que a permitam recompor. Ficar com pequenos gestos de melodrama, apararentemente isolados de um contexto (em redor das duas personagens principais tudo se esbate, inclusive os seus cônjuges, que nunca são vistos) mas capazes de concentrar uma dimensão emocional que preserve o espírito do género - é uma atitude pudica, não só no plano formal (nenhum exibicionismo), mas sobretudo pela maneira como o filme se recusa a "sentir" (ou a embalar sentimentos) antes do espectador.

Resignação. Isoladas são também as personagens, numa arquitectura de planificação que as encerra dentro de pequenas "cápsulas" invioláveis - vêmo-los a andar daqui para ali, por vezes cruzando-se, quase sempre com canções de Nat King Cole na banda sonora, finalmente aproximando-se. Mas se "In the Mood for Love" é a história de duas solidões, também é a história da sua "resistência": essas solidões (ou seja, as personagens de Tony Leung e Maggie Cheung) tocam-se, mas nada nos diz que realmente se quebrem. Toda a relação entre eles, vivida sobre o fantasma da infidelidade dos cônjuges, assenta numa espécie de representação constante, à medida que ambos encenam, repetem ou revivem aquilo que imaginam ter-se passado entre os respectivos marido e mulher. Vontade, da parte de Wong Kar-wai, de arrefecer o lado emocional e ancorar a história na superação de um trauma? Em vez disso, muito provavelmente, um derradeiro gesto de pudor: criar um pequeno teatro para os sentimentos, instaurar uma "décalage" entre o representado e o vivido - o poder emocional de "In the Mood for Love" passa inteirinho por essa brecha enigmática, como se toda a relação entre as personagens fosse vivida através de "duplos" por elas próprias criados.

"In the Mood for Love" tende para o apagamento, disse-se. O apagamento consuma-se, através da personagem masculina, na fabulosa sequência final. Quando se esperava (ou quando se podia esperar) uma construção em crescendo emocional, todos os vinte minutos finais funcionam em dissipação. Nada se passou (ou pelo menos não vimos nada passar-se, pois num filme com tanta elipse não convém ter certezas narrativas), as personagens separaram-se, perderam-se de vista, nunca mais se encontraram. Ele, a personagem de Leung, carrega o peso dessa dissipação, ou dessa interrupção prematura - e vai-se "apagar", longe do (seu) mundo, em Angkor Wat, no meio de ruínas e estátuas gigantes. Uma legenda, então, diz que ele "podia ver o passado mas não lhe podia tocar". Filme sobre a intocabilidade do tempo perdido, "In the Mood for Love" acaba assim, numa doce e estranhamente acolhedora resignação, já para além da dor.