Crítica

Sensibilidade e Delírio

BD, cinema de aventuras ou a gesta dos Cavaleiros da Távola Redonda. "O Tigre e o Dragão" é belo como não respirar.

Quando nos debruçamos sobre a carreira cinematográfica de Ang Lee, ou pelo menos sobre o que dela conhecemos, deparamos com uma curiosa diversidade convergente. "Banquete de Casamento", de 1993, lançava um olhar irónico sobre a miscigenação, uma comédia sexual em que um casal gay operava uma união improvável entre Ocidente e Oriente. "Comer Beber Homem Mulher" (1994) concentrava-se numa ritualização das memórias e numa tentativa de regresso às origens taiwanesas. "Sensibilidade e Bom Senso" (95) adaptava Jane Austen e trazia para o filme de época um distanciamento que favorecia as percepção das regras de comportamento, independentemente dos códigos literários e da perspectivação histórica. "Tempestade de Gelo" (96) permitia um retrato impressionante de uma pequena comunidade americana, com uma riqueza de pormenores e uma economia de processos notáveis. A América que Ang Lee representava, neste seu primeiro filme "all american", possuía a complexidade de um mundo que se observa, em simultâneo, de fora e de dentro.

Quando interrogado sobre "O Tigre e o Dragão", o realizador não terá resistido à "boutade" de o descrever como "um 'Sensibilidade e Bom Senso' com artes marciais". Ora, o contrário também pode ser verdadeiro: a visão que Ang Lee tem do mundo conceptual de Austen, por exemplo, aparece informada por uma sensibilidade estrangeira, capaz de abstrair de preconceitos culturais "positivos e negativos" para isolar as figuras ficcionais como peões de uma intriga moral e universalizante. Por isso, "Sensibilidade e Bom Senso" escapa à logica da série televisiva ou ao luxo decorativo "a la James Ivory". Tem as características das histórias familiares taiwanesas de Ang Lee.

Espíritos voadores. Seja como for, "O Tigre e o Dragão" ultrapassa todos os limites da anterior filmografia do realizador, na medida em que corresponde a uma síntese do seu projecto de estabelecer pontes culturais entre os dois mundos, vendo-se, de certo modo, já estrangeiro em ambos.

Por tal razão, bastante mais produtiva do que a irónica comparação com "Sensibilidade e Bom Senso" nos parece outra formulação do cineasta: "O filme é uma espécie de sonho da China, uma China que provavelmente nunca existiu, excepto nas minhas fantasias infantis em Taiwan".

O onirisno comanda, de facto, o percurso da Espada Destino Verde de personagem em personagem, uma espécie de objecto pretextual, como o "macguffin" hitchcockiano, mas também um eco das míticas espadas do ocidente cristão: a Notung (Necessidade) do Siegfried do "Anel dos Niebelungos" ou a Excalibur das lendas arturianas. Aliás, na mitologia wuxia a espada é um elemento central, estabelecendo um paralelo de género com as canções de gesta medievais, poemas épicos fundadores de um imaginário europeu que se estendeu a toda a cultura eurocêntrica.

O enredo toma uma muito simples configuração: Yu Shu Lien (perturbante Michelle Yeoh) deposita a lendária espada do herói Li Mu Bai (Chow Yun-Fat, uma das estrelas máximas de Hong Kong) junto de Sir Te. A filha do governador, Yu (Jen Zhang Ziyi), vê a espada e, mascarada, acaba por roubá-la, pondo à prova a sua iniciação nas artes marciais com a ama Raposa Jade, perigosa inimiga dos "cavaleiros", e acusada de desvio maléfico em relação aos princípios do Jiang Hu, o código cavalheiresco marcial.

Entre um casamento nobre de conveniência e o amor por um bandido do deserto, Lo (Chang Chen, vindo, entre outros, do universo de Wong Kar-wai), a heroína percorre a via sacra das suas contradições, entre a sua condição de classe e os seus dotes guerreiros e rituais.

Mas a história não passa de um pretexto para um belíssimo olhar sobre a coreografia dos gestos e das expressões. As personagens voam literalmente num excesso que não cabe em quaisquer regras lógias. Os "efeitos especiais" são da maior simplicidade e visam atingir a leveza máxima da deslocação dos corpos, num mundo de espíritos voadores.

Mais poético do que ficcional, "O Tigre e o Dragão" procura a dimensão mítica de cada passo na demanda da perfeição, unindo a destreza no manejo das armas e dos voos ao aperfeiçoamento espiritual. O herói mítico instituído, espécie de Siegfried oriental retirado, assiste expectante à luta da heroína em ascensão entre o Bem e o Mal, sendo este representado por mais uma figuração feminina. Aliás, foi a recusa da Raposa Jade por via da sua condição feminina que a levou à queda: três mulheres protagonizam o conflito em que o herói Li Mu Bai julga e a que o bandido Lo assiste, na margem.

Na mais bela sequência do filme, Li Mu Bai morre (como Siegfried) vítima do veneno (e da sua vulnerabilidade) enquanto a secreta apaixonada, Yu Shu Lien, tenta mantê-lo vivo e a jovem Ien Yu prepara o antídoto. Numa caverna, símbolo do mundo e velha como a terra, apresentam-se todos os dados do conflito mítico.

Aparentemente um filme de acção, "O Tigre e o Dragão" rompe com todas as regras pela desmesura: a luta no alto das copas das árvores, o bailado dos corpos que voam entre telhados e que afrontam os abismos, o amor que se defronta com os códigos de honra e a sabedoria das lendas. No final, suspende-se da acção pelo voo definitivo para a libertação, saltando para o vácuo a fim de atingir a plenitude. E esta queda representa a própria atitude do filme, em busca do risco total.

Em tempo de pós-modernismos sentimos a intervenção crítica e reflexiva sobre os materiais lendários. E julgamos voar como os heróis (há ecos do "western" em muitos dos planos). Leves como o sonho. Pesados como o nosso sentido evasivo da História.

A beleza do mundo conceptual referenciado passa por uma abstracção da grande pintura chinesa, mas chega a nós por reminiscências dos nossos próprios fantasmas heróicos, recrutados na BD, no cinema de aventuras ou na gesta dos Cavaleiros da Távola Redonda. Belo como não respirar.

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