Crítica

Fintar o Destino

Adeus ilusões Em termos de distribuição cinematográfica, 1999 começa da mesma forma que 1998 terminou: com filmes portugueses a chegarem às salas. Mesmo que se saiba que um tal ritmo não pode ser mantido por muito tempo, não deixa de ser salutar esta constatação de que o cinema português parece estar, finalmente, a "fintar o destino" que até há meia-dúzia de anos estava reservado a grande parte da sua produção. "Fintar o Destino" é, portanto, a primeira estreia portuguesa de 1999, e marca também a estreia na longa-metragem de ficção de Fernando Vendrell. É um filme rodado, em grande parte, em Cabo Verde (no Mindelo), no que é igualmente um sinal ? a juntar a vários outros, nos últimos anos ? da crescente aproximação do cinema português aos Palops e, em especial, ao "passado africano" de Portugal. E o filme de Fernando Vendrell começa muito bem: são belíssimas as imagens de abertura, antes e durante o genérico, onde nas cores avermelhadas do crepúsculo vemos alguém a fazer, com cal, as marcações de um campo de futebol ? imagens poderosas, como se exprimissem a ordenação dos elementos (a terra, o fogo) pelo homem e ao mesmo tempo dissessem (quase) tudo sobre a beleza rude e violenta (mas também árida e insalubre) da paisagem cabo-verdiana. Os "raccords" entre essa cena e o que "Fintar o Destino" vem dizer são, de resto, evidentes. Fernando Vendrell passou vários anos a preparar o filme, durante os quais se deslocou por variadas vezes a Cabo Verde; e o ponto de vista do filme (que funciona bem) é certamente o resultado desse trabalho de preparação e da sintonia com os lugares e com as populações que ele permitiu. Quer isto dizer que um dos méritos de "Fintar o Destino" é a forma como se coloca "dentro", e a forma como evita todas as armadilhas que o poderiam transformar num "filme de turismo". Aliás, dir-se-ia que Vendrell está sobretudo interessado em figuras que realcem a ideia de "clausura" e marquem bem o isolamento das ilhas: grande parte das cenas cabo-verdianas desenrolam-se no pequeno café do protagonista, aonde várias outras personagens vêm ouvir os relatos do campeonato português de futebol. De algum modo esse lugar, onde não há imagens mas apenas sons, acaba por se transformar não só num símbolo mas essencialmente na "confirmação" da distância (física e não só) entre Cabo Verde e Portugal. E o resto é a história de Mané, que na sua juventude fora guarda-redes com pontencialidades suficientes para, pelo menos na sua imaginação, jogar no Benfica. Apesar de o futebol ser apontado, por compreensíveis razões publicitárias, como o grande tema de "Fintar o Destino", dir-se-ia que ele é sobretudo o pretexto, ou o veículo, para que Vendrell conte a sua história sobre ilusões perdidas, sobre a amargura da constatação de que essas ilusões se perderam definitivamente ? como se o título do filme fosse irónico e ele viesse apenas dizer que o destino não se finta com tanta facilidade como se pode fintar um defesa adversário. Vendrell conta bem a história que tem para contar, fá-lo com uma sobriedade e uma segurança de tom que resultam eficazes, e só é pena que (preocupado em fazer um filme do "meio") não tenha vontade de arriscar mais vezes o mesmo que arrisca no citado plano inicial.