Crítica

Fôlego épico e a delicadeza lírica

Dentre as obras-primas de John Ford poucas possuirão o equilíbrio entre o fôlego épico e a delicadeza lírica deste "My Darling Clementine", variação, como o título original indica sobre a capacidade evocativa de uma velha balada tradicional americana. Aliás, a enorme riqueza temática do filme não deverá ocultar a centralidade da dimensão lendária, presente nas figuras de Wyatt Earp e Doc Holliday, motores da acção de rever a mitologia do Oeste, numa perspectiva ao mesmo tempo nostálgica e produtiva. E, se estamos perante todas as marcas essenciais de um género, não deveremos esquecer que em 1946 ainda podíamos falar de apogeu e de inscrição perfeita na ideologia americana saída reforçada com a vitória na guerra. Por isso não nos cansamos de olhar para o olhar azul de Fonda, para a mastodôntica inexpressividade de Mature ou para a perturbante beleza de Darnell. Os bons velhos tempos estavam quase a acabar.