Prova de avaliação é “apatetada”, “ridícula”, “absurda”, “básica” e “desadequada”, classificam os professores

A indicação do tipo de questões que vai sair na prova de avaliação para professores deixou-os perplexos. Uns consideram que a prova é ridícula por ser tão “básica”. Outros dizem também que é ridícula, por ser tão desadequada. Também não se entendem quanto ao que pretende o ministro: desviar as atenções ou afastar docentes da carreira?

Professores têm contestado a prova Miguel Manso

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) conseguiu surpreender os professores com o modelo da prova de avaliação de conhecimentos e capacidades, obrigatória para todos os docentes sem vínculo à função pública que pretendam candidatar-se a dar aulas no próximo ano lectivo. Depois da publicação do modelo do teste – com exemplos das questões que serão colocadas –, as opiniões dividem-se. Alguns acham-na “básica”, “ridícula”, “elementar”, “insultuosa” e “apatetada”, outros acham que até poderá afastar pessoas da carreira docente, por ser “desadequada”, “absurda” e igualmente “ridícula”. Mas há quem alerte: em situação de stress, conseguirá um professor responder bem?

Nos últimos segundos desta quinta-feira – ou seja, mesmo no limite do prazo que o MEC concedeu a si próprio –, surgiu na página do Instituto de Avaliação Educativa (Iave) o guia da prova e, como anexo, o modelo da componente comum do teste, marcada para 18 de Dezembro. Pela primeira vez, mais de 45 mil professores souberam o que é que o MEC pretende que eles saibam para continuar a dar aulas. Isto no que respeita às competências “transversais”, já que as provas específicas (consoante as áreas disciplinares dos docentes) só se realizam entre Março e Abril de 2014.

Nesta primeira fase, 80% da cotação vai para as perguntas de escolha múltipla. Um exemplo: a partir de uma sequência de letras, como A A B A C C D C E E,  os professores terão de escolher, de entre quatro hipóteses, as quatro letras que permitem continuá-la: hipótese A (F E G G), B (F E H H ), C (F F G F) ou D ( F F G H)? Outro exemplo: tendo em conta um diagrama que mostra os nomes dos alunos de uma turma de acordo com os clubes em que estão inscritos (Aventura, Desporto, Leitura e Teatro), os professores são convidados a acertar na resposta correcta, em quatro possíveis, às questões: “qual dos alunos seguintes está inscrito apenas em três clubes?” e “qual dos alunos seguintes está inscrito nos clubes de Leitura e de Teatro, mas não no clube de Desporto?”.

No único item de “resposta extensa orientada” (que valerá 20% da cotação total) os avaliados terão de produzir um texto com um número de palavras compreendido entre 250 e 350, inclusive. Para que se tenha uma ideia do que pode ser pedido, o Iave fez publicar um excerto de Um Fio de Nada, Ensaio sobre a Tolerância, de Diogo Pires Aurélio. Neste caso, pede-se aos professores que escrevam um texto em que exponham a sua opinião sobre as eventuais implicações das duas concepções de tolerância apresentadas, transpondo-as para um contexto escolar.

O PÚBLICO falou com dirigentes de associações de professores, todos contra a prova, a quem pediu que vissem o exemplo e fizessem, a título individual, um primeiro comentário. Alguns já tinham consultado a página do Iave. Foi o caso de Lurdes Figueiral, da Associação de Professores de Matemática, que disse ter dificuldades em expressar a sua indignação “sem ser ofensiva”: “É que a prova é tão elementar, tão básica, que é um bocado… nem sei… gozar com a nossa cara. Insultuosa.” A sua experiência diz-lhe que se apresentasse aquelas questões a alunos do secundário “eles riam-se”. Pensa que a prova resulta “da teoria absurda do ministro da Educação”, Nuno Crato, “de que é preciso arranjar exames para tudo e para todos”. O que, depois de conhecer o modelo, diz, considera “ainda mais grave e pouco ético, por estar a delapidar o erário público, nas actuais circunstâncias, para nada”.

José Alberto Rodrigues, dirigente da Associação de Professores de Educação Visual e Tecnológica, foi outro dos que já tinham espreitado a prova. E diz que, quando o fez, riu-se, “para não chorar”. Na sua perspectiva, as questões são “absolutamente básicas e elementares”. Comenta mesmo que, “naturalmente, as capacidades que estão implícitas nos exemplos de questões já foram imensamente provadas pelos professores, muitos dos quais têm, para além de vários anos de serviço, mestrados e doutoramentos”. Conclui que a prova é “uma afronta” e sublinha que a grande questão que o modelo levanta é: “Afinal, o que é que o ministro pretende?”

“Afastar professores, esse é o objectivo de Nuno Crato”, diz Alberto Gaspar, que preside à Associação de Professores de Inglês. Não porque ache a prova difícil, pelo contrário, diz. “As questões são básicas e acessíveis a qualquer adulto instruído, algumas caricatas, mesmo”, comentou. A questão é que, na sua opinião, para além de “não servir para avaliar seja o que for”, a prova poderá ser “um obstáculo” para quem “tem uma inteligência menos visual e se pode baralhar na leitura de um diagrama, por exemplo”; ou para quem “tenha dificuldades com a pontuação ou com a translineação”. “É por aqui que se vê se um professor é bom ou não, se ensina bem ou mal? Afastar professores da carreira com questões destas é inacreditável”, comentou Alberto Gaspar, depois de frisar que ainda tem esperança de que as acções em tribunal e a manifestação dos professores e da opinião pública façam o ministro recuar na aplicação da prova.

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