No início de Dezembro um pequeno sindicato, o Sindicato de Todos os Profissionais da Educação — Stop, convocou uma greve por tempo indeterminado. O Sindicato Independente de Professores e Educadores (SIPE) fez o mesmo, mas só ao primeiro tempo. Nas últimas semanas, houve escolas a fechar, por vezes vários dias, e muitos pais preocupados com a sucessão de aulas perdidas. Há mais protestos no horizonte. E uma insatisfação, um mal-estar latente. A que se deve?

O clima de guerra instalou-se com o início da negociação da revisão do processo de recrutamento de docentes. Muitos viram nas ideias apresentadas pelo ministério uma tentativa de passar a escolha para a mão das câmaras municipais — o que o ministro da Educação já desmentiu várias vezes. “O Governo nunca propôs — repito, nunca — qualquer processo de municipalização do recrutamento de professores”, afirmou João Costa no Parlamento, a 4 de Janeiro, lamentando “alguma desinformação”. As negociações vão prosseguir. Mas a verdade é que são muitas as razões que os professores apontam para alimentar este clima de insatisfação.

Falámos com três professores, de diferentes zonas do país. Pedimos que explicassem esta revolta, contando-nos como é a sua vida. E é assim.

“Se me faltassem 15 ou 20 anos para a reforma de certeza que estava em greve ou arranjava outra profissão. É muito difícil quando se gosta disto e se vive com esta frustração que os professores sentem”

Maria do Sameiro Pereira
62 anos
Escola Augusto Lessa, no Porto

A professora que está a dois anos da reforma

A sala de aula nunca está em silêncio. Há sempre um burburinho a percorrer o espaço ocupado pelas 21 crianças do 3.º A, da Escola Augusto Lessa, no Porto. Com 42 anos de aulas às costas, a professora Maria do Sameiro Pereira, de 62 anos, lá lhes vai dizendo para se calarem, mas sem grande sucesso. E não se incomoda muito. A cerca de dois anos da reforma, diz que a experiência lhe trouxe mais paciência e recusa estar cansada da escola. “A gente chega aqui e esquece-se logo dos problemas”, diz. E ela já viu muitos, ao longo da carreira. O que se está a passar agora, contudo, é diferente, explica.

Diz que “a municipalização dos concursos foi a gota de água que fez transbordar o copo” — é uma das muitas docentes em Portugal que temem que a “municipalização”, apesar dos desmentidos do Governo, esteja em cima da mesa.

A verdade é que Maria do Sameiro Pereira não está em greve, mas não põe de lado fazê-la ou ir a uma manifestação, se os sindicatos se unirem.

Na escola da freguesia de Paranhos ainda não se retiraram as decorações de Natal que enchem os corredores. A campainha que assinala o início e o fim das aulas é tocada por uma funcionária, atenta ao relógio de pulso, para não falhar a hora certa. Na sala da professora Maria do Sameiro há meninos que ela acompanha desde o 1.º ano e outros que foram chegando entretanto: duas crianças ucranianas, uma menina brasileira, um rapazinho angolano.

Esta será a sua última turma e é, sobretudo, por estar nesta fase da sua vida — a cerca de dois anos da reforma e no topo da carreira — que a professora nascida em Arcos de Valdevez, e que dividiu os anos de ensino entre Castelo de Vide e o Porto, diz que não está agora envolvida nas lutas que ocupam os colegas, apesar de concordar com todas as reivindicações.

“Neste momento estou mais focada nos alunos. Eu percebo a luta, já fiz montes de greves, mas também não concordei que não houvesse uma união entre sindicatos”, explica. Se, nos próximos tempos, essa união vier a existir ou for convocada uma greve geral, admite marcar presença em ambas.

A acontecer, será mais uma luta — a última, provavelmente, da sua carreira —, nos longos anos que leva de profissão. E uma profissão à qual foi parar “não por vocação”, refere, mas por questões mais prosaicas: a família não era rica, ela até preferia ir para a faculdade e estudar línguas, mas isso implicava um curso de cinco anos e a formação para ser professora, na altura, implicava apenas três. “Fui para o Magistério para começar a ganhar dinheiro mais cedo. E depois, apaixonei-me”, sintetiza.

Ouvi-la é ouvir várias vezes a palavra “orgulho”, pelo trabalho que faz, e também “magia”, que associa ao momento em que sente que está a abrir todo um novo mundo às crianças que lhe vão parar às mãos, sem conhecerem sequer as letras. E é também ouvir falar de uma realidade que, apesar de ter apenas algumas décadas, parece a anos-luz de distância.

Quando diz “Eu vi nascer a Internet”, ou relembra como, no início da carreira, “não havia fotocópias” e as fichas que arranjava para os alunos eram feitas em “copiadores de gelatina”; quando recorda que, nessa altura, como lhe aconteceu, bastava ter 180 dias de aulas dadas para entrar para o quadro; ou quando diz que teve alunos que nunca antes tinham visto um lápis de cor, ou segurado num lápis sequer, e se lembra das aulas dadas na aldeia de Moinho do Torrão, em Gavião, onde tinha uma turma única com as quatro classes. “A aldeia não tinha luz eléctrica, as mães levavam um braseiro dentro de um pneu para nos aquecermos.” Foi aí, nessa aldeia sem luz, que se deparou com um problema de que ainda hoje recorda: “Uma vez saiu num texto a palavra 'elevador'. Como é que se explica um elevador a uma criança que nunca tinha saído daquela aldeia pequeníssima? Saí com a sensação que não chegaram a perceber.”

"Eu percebo a luta, já fiz montes de greves, mas também não concordei que não houvesse uma união entre sindicatos”

E de todas as mudanças que viveu, e às muitas críticas que deixa ao Ministério da Educação, há pelo menos uma alteração que lhe merece um elogio espontâneo, depois de recordar a experiência da pequena escola alentejana: “Ainda bem que fecharam estas escolas, porque era terrível, para os miúdos e para nós.”

Mas as boas referências da política nacional acabam quase por aqui. Sobra-lhe ainda tempo para elogiar Marçal Grilo, ministro da Educação entre 1995 e 1999, e, para ela, “o melhor” que conheceu. Foi ele que permitiu que professores como ela, que tinham apenas o equivalente ao bacharelato, juntassem dois anos à sua formação, conseguindo, assim, progredir na carreira. “Quando tirei a licenciatura, subi dois escalões, para o 6.º. Esta medida permitiu que muitos de nós subissem na carreira. Eu atingi o topo, algo que muitos dos meus colegas nunca vão conseguir, por causa das quotas.”

Esse é um problema grave — como os anos de serviço que “roubaram” aos professores no tempo da troika; o flagelo dos professores contratados “que andam há 20 anos com contrato e nunca vão entrar para o quadro”; as avaliações de desempenho “injustas”; as mudanças no acesso à reforma que a afectaram directamente. “Quando o meu marido se reformou, faltavam-me cinco anos para a reforma, e, de um dia para o outro, passaram a faltar 15.”

Tudo isto ela desfia sem precisar de pensar, porque os problemas são antigos, vêm-se acumulando, e conhece-os bem.

Mas, apesar de tantos amargos de boca, continua a defender a escola pública com unhas e dentes. E diz que é também por ela que as lutas dos professores se fazem. “Que outra maneira temos de manifestar o desagrado, quando vemos que a escola pública se está a afundar? Isto é um prémio para o ensino privado. Se isto continua assim, quem quiser que os filhos estudem, faz um esforço e põe-nos no privado”, lamenta.

E, acima de tudo isto, insiste, estão os alunos. “Os professores estão a lutar pela escola pública, mas chegam à sala de aula e esquecem-se e lutam pelos alunos, porque não dá para ser de outra maneira. Não podemos estar aqui alheados dos alunos.”

No andar de baixo, numa sala acanhada onde se reúne com colegas em torno de uma pequena mesa, Sónia Cruzeiro, subdirectora do Agrupamento de Escolas Eugénio de Andrade, onde a Augusto Lessa está integrada, sorri, quando vê Maria do Sameiro abrir a porta e diz que ela é “um exemplo” para os colegas que chegam, por causa desta sua postura.

“O testemunho que ela dá é que é preciso ter paciência, e lutar, mas sem nunca descurar os alunos. E isso é sem dúvida muito importante. E os colegas mais novos dizem: 'Caramba, se temos aqui uma colega que anda há 40 anos a lutar, mas sente-se apaixonada pela profissão e sente-se dedicada à profissão, temos de seguir esse exemplo', conta, longe dos ouvidos da colega com quem convive há 18 anos.

Sobre as greves e manifestações actuais ambas concordam que são “diferentes”, porque se prolongam no tempo. E que são a marca do cansaço extremo a que os professores chegaram. Se pudesse dizer alguma coisa ao ministro da Educação, Maria do Sameiro Pereira pedir-lhe-ia que “ouça os professores e que os respeite”. E que rejeite a postura que tantas vezes os professores acabam por colar aos governantes. “Os ministros deviam ser os principais representantes dos professores e parece que são sempre o carrasco”, lamenta.

No topo da carreira, leva para casa dois mil euros e a felicidade de não sentir na pele o desprestígio e desrespeito de que muitos colegas se queixam. E a alegria de antigos alunos ainda a convidarem para tomar um café ou lhe pedirem para assinar a faixa do fim de curso. Mas não tem a certeza se, dada a oportunidade, optaria pela mesma profissão, caso pudesse voltar atrás. “Acho que gostaria de experimentar o meu outro plano de vida, estudar línguas”, diz. E, se tivesse menos 20 anos, acredita que o seu dia-a-dia, hoje, seria muito diferente. “Se me faltassem 15 ou 20 anos para a reforma, de certeza que estava em greve ou arranjava outra profissão. É muito difícil, quando se gosta disto e se vive com esta frustração que os professores sentem.”

“Em Sines vivia num anexo, e as baratas passeavam-se pelo quarto. Em Peniche, vivia num bungalow, num parque de campismo”

Ricardo Oliveira
42 anos
Escola Secundária João de Deus, em Faro

O professor contratado que vai percorrendo o país

A namorada reside em Vila Nova de Gaia; ele, natural de Arouca, dá aulas de Geografia em Faro. Os afectos estão separados por uma barreira de 500 quilómetros, mas o casamento está no horizonte. O rés-do-chão da moradia, onde mora actualmente, é partilhado com uma jovem hospedeira de bordo da Ryanair. Ricardo Oliveira, também bombeiro voluntário, sente que há dentro do peito, e na revolta dos docentes, um “fogo que arde sem se ver”, como diria o poeta. “Ser professor é uma angústia”, diz, lembrando as andanças que o têm levado pelo país fora ao longo de duas décadas.

A vida deste docente contratado é comum a muitos outros colegas que carregam com a “casa às costas” no final de cada ano lectivo. Em Quarteira, onde leccionou em 2017 — a substituir uma colega que meteu baixa — só lhe alugaram um apartamento T0 com uma condição: “Dia 31 de Maio tem de sair.” Nada de que não estivesse à espera, porque a situação já é considerada “normal” para quem escolhe o Algarve para trabalhar. “A partir do dia 1 de Junho é impossível alugar alguma coisa, porque é tudo para o turismo”, explica.

Nesse ano, não foi preciso ir para uma tenda no parque de campismo, como já tinha programado. “A colega [que estava a substituir] regressou à escola”, e ele voltou a entrar na bolsa dos nómadas do ensino.

Ao longo da carreira conheceu o país, a partir da sala de aulas, desde Valpaços (Guarda), passando por Peniche, Sintra, Amadora, Monte da Caparica, Castro Verde.

“Deixei de concorrer para a zona de Lisboa, porque a nós, professores contratados, só nos calha os bairros sociais, depois de os colegas meterem baixa, por cansaço, ou por não aguentarem a pressão”, prossegue. No ano passado saiu-lhe uma escola de Mangualde. “A meio do ano, rescindi o contrato. Não aguentava.”

Fez as malas, emigrou para a Suíça, a pensar no que deixava para trás. Através de um amigo arranjou trabalho na agricultura, a plantar e podar vinhas. Ao fim de três meses, o patrão disse-lhe: “Ricardo, tu és muito esforçado mas não nasceste para isto.” Concordou. A enxada que usava passou para as mãos de outro português: “Um alentejano que trabalhava na agricultura desde os 14 anos.”

O trabalho não lhe deixou saudades, mas o ordenado ficou a fazer falta. “Punha em Portugal mais dinheiro do que a minha prima ganhava de ordenado como médica, pneumologista."

Na Escola Secundária João de Deus, em Faro, os alunos acham “fixe” o professor/bombeiro. Em Arouca, no período de férias, desenvolve o projecto A Vila no Meu Pé, levando os visitantes a conhecer as histórias das pessoas e o património da terra, um serviço prestado de forma gratuita. E nos bombeiros da terra serve como voluntário, ajudando a apagar fogos ou dando auxílio em cuidados de saúde. “Ser bombeiro foi o resultado do grande incêndio de 2005”, justifica. O chamamento (ou “bichinho”, como lhe chama) surgiu quando andou, enquanto civil, a ajudar a apagar as chamas. “Caramba, estou a fazer falta lá em cima e estou aqui, em Faro”, diz, como se ouvisse a sirene a tocar, embora tenha diante do olhar o espelho de água da ria Formosa.

“Do ponto de vista financeiro, é difícil gerir um ordenado de 1120 euros”

Apenas recorda um caso de incêndio em que não alinhou, como costuma fazer, quase por impulso natural: “Tinha a namorada comigo.” Os colegas