literacia mediática
“Videocast” da Prova dos Factos: uma caixa de ferramentas para a desinformação
A nova aposta do PÚBLICO quer ensinar as audiências a reconhecer, por si próprias, sinais de desinformação. O primeiro episódio, dedicado às “deepfakes”, já está disponível.
Um vídeo de Cristiano Ronaldo com uma bandeira da Palestina aparenta ser, à primeira vista, uma prova de que o jogador tomou uma posição em relação ao conflito israelo-palestiniano. Porém, se observarmos com atenção, conseguimos notar que o vídeo é, na verdade, uma deepfake criada com inteligência artificial. Como podemos perceber que é falso? E, mais importante, como podemos aprender a identificar outros vídeos manipulados no futuro?
É a partir deste exemplo que começa o novo videocast da Prova dos Factos, lançado pelo PÚBLICO a 28 de setembro. O primeiro episódio é dedicado às deepfakes e conta com a participação do jornalista de tecnologia e editor da secção ENTER Sérgio Magno. O rosto do projeto é o jornalista Fernando Costa, que também escreve os guiões, depois editados por Pedro Sales Dias, editor de online e da Prova dos Factos. A gravação e edição de vídeo são asseguradas por Marta Sofia Ribeiro, jornalista de Multimédia.
O videocast, que estará também disponível em versão podcast em todas as plataformas habituais, nasceu no âmbito do Ibercheck, um consórcio ibérico de combate à desinformação co-financiado pela União Europeia, liderado pelo meio online de fact-checking espanhol Newtral e que conta também com a participação do canal televisivo laSexta e da rádio Onda Cero, além do PÚBLICO. A equipa procurou perceber como poderia aproveitar as características de um formato que ainda não tinha sido muito explorado: "Começámos a pensar num videocast antes de sabermos que tinha de ser um videocast", conta Fernando Costa. A resposta acabou por ser uma espécie de "caixa de ferramentas" que ajudasse as pessoas a defenderem-se da desinformação com que se cruzam no seu dia-a-dia.
A lógica é diferente daquela que subjaz à verificação de factos tradicional. Um artigo pode explicar por que razão uma determinada afirmação é falsa, mas o leitor pode, posteriormente, encontrar outra publicação enganadora para a qual ainda não existe uma verificação. "Nós, ao fazermos a verificação de factos, só conseguimos cobrir uma parte do que existe", explica Fernando. O objetivo do videocast é, por isso, fornecer recursos para que cada pessoa consiga verificar a informação que encontra.
A escolha dos temas procura conjugar aquilo que a equipa encontra com mais frequência com o que considera mais urgente e útil para as pessoas. Há episódios centrados em técnicas e ferramentas concretas, mas também outros dedicados a estratégias de desinformação que podem passar despercebidas.
Uma aula prática em dez minutos
O primeiro desafio escolhido foi precisamente um dos mais complicados: as deepfakes. A equipa decidiu começar por um caso que pudesse ser percetível mesmo para quem só ouvisse o episódio, sem o acompanhar em vídeo. "Decidimos que também tinha de funcionar só para áudio", explica Fernando Costa. Mas há outra razão para a seleção. Conteúdos manipulados com inteligência artificial fazem cada vez mais parte do quotidiano e da discussão sobre desinformação.
Em vez de começar por uma explicação teórica sobre o que é uma deepfake, o episódio mostra um vídeo que circulou nas redes sociais e desmonta-o passo a passo. "Achámos que a forma mais fácil para explicar em pouco tempo como se faz uma coisa era fazer a coisa à frente das pessoas", diz o jornalista. É uma estratégia que será repetida nos restantes episódios. Um conteúdo real serve de ponto de partida para mostrar ao espectador que sinais devem levantar suspeitas.
Os 12 episódios previstos, que serão lançados todas as segundas-feiras pelas 15 horas, incluirão uma variedade de temas. O próximo falará de geolocalização e respetiva utilização do Google Maps para esse fim; e haverá outros sobre como, por exemplo, encontrar propostas no site do Parlamento, contas falsas nas redes sociais, capas de jornais falsificadas, burlas online e descontextualização.
Os convidados serão, em grande parte, jornalistas do PÚBLICO especializados nos temas abordados. O primeiro episódio teve Sérgio Magno; Ivo Neto, editor da secção Mundo, será o convidado no episódio sobre capas de jornais falsificadas; e Susete Francisco, editora da Política, participa no episódio dedicado à pesquisa de propostas no site do Parlamento. Mas haverá convidados externos quando for importante acrescentar uma especialização específica. É o caso, por exemplo, do episódio sobre geolocalização, que contará com a investigadora Inês Narciso, e do dedicado às burlas online, que terá a presença de um porta-voz da DECO PROteste.
Os episódios terão todos cerca de dez minutos. A duração foi escolhida depois de várias experiências. "Tudo isto é um teste", explica Pedro Sales Dias. Para o jornalista, a aposta no vídeo faz parte de uma necessidade maior: encontrar novas formas de chegar às audiências. "O que nos importa é que os vários formatos e as várias linguagens que nós utilizamos vão buscar mais leitores."
O antídoto no sítio onde está o veneno
Uma parte importante dessa estratégia passa pelas redes sociais. Alguns conteúdos do videocast serão adaptados para formatos mais curtos, pensados para circular nessas plataformas. Para Fernando Costa, faz sentido levar a informação verificada para o mesmo espaço onde se encontram conteúdos falsos. "É útil colocar o antídoto no sítio onde está o veneno", defende. O jornalista acredita que esta pode ser também uma forma de chegar a pessoas que nunca abririam o site do PÚBLICO para procurar um artigo da Prova dos Factos. "Alguém que está no metro ou no autocarro, por exemplo, pode encontrar o videocast enquanto faz scroll nas redes sociais."
Pedro Sales Dias acrescenta que o formato pode mais facilmente chegar a pessoas com hábitos de consumo de informação diferentes. "Há quem prefira ouvir um podcast durante uma viagem para o trabalho e não consiga aproveitar esse tempo para ler um artigo", diz.
Ainda assim, há coisas que se explicam melhor quando podem ser observadas. Fernando Costa dá o exemplo de um dos próximos episódios, dedicado a ensinar como encontrar propostas no site do Parlamento. Em vez de dizer simplesmente ao espectador onde deve procurar, o vídeo permite mostrar no ecrã exatamente onde está a informação e onde deve clicar. "É uma forma de nos colocarmos na posição da pessoa que tem aquela necessidade e mostrar-lhe o que tem de fazer", explica.
Um projeto além-fronteiras
O Ibercheck não se limita à produção do videocast. O projeto inclui também uma vertente de literacia para os media, em particular sobre desinformação e verificação de factos, com um calendário de ações educativas e apoiadas pelo PÚBLICO na Escola.
Também aqui se procura alargar o leque de públicos-alvo. Aos professores e alunos, com quem o PÚBLICO na Escola contacta regularmente, juntam-se profissionais de comunicação, incluindo jornalistas de outros meios, estudantes de jornalismo, técnicos de relações públicas e influenciadores digitais.
Outra das mais-valias do projeto é a comunicação regular com parceiros espanhóis. A colaboração permite perceber como são feitos trabalhos semelhantes e aprender com formas diferentes de trabalhar. "É bom saber como é que eles fazem, porque também podemos mudar coisas", afirma Fernando Costa.
Vencer a batalha antes de ganhar a guerra
Ensinar a verificar informação é especialmente difícil, porque a desinformação possui a vantagem de ser extremamente rápida. Uma frase, uma imagem ou um pequeno vídeo podem ser suficientes para provocar uma reação pouco pensada e desencadear uma cadeia de partilhas. "A desinformação consegue sempre ser muito mais curta e direta", observa Pedro Sales Dias. Já a verificação exige tempo para confirmar informações e explicar o contexto. "Às vezes basta um vídeo de três segundos e está feito", diz, "enquanto para desmontarmos a desinformação precisamos de contextualizar, explicar de onde é que aquilo veio, qual é o objetivo e porque é que não é verdade."
É essa diferença que torna difícil competir pela atenção de quem passa rapidamente por dezenas de vídeos nas redes sociais. A equipa tenta responder a esse desafio sem transformar, ainda assim, o fact-checking numa sucessão de conteúdos demasiado rápidos: os episódios são relativamente curtos, mas precisam de tempo suficiente para expor o processo. "Isto não é uma batalha ganha. Isto é uma batalha que nós procuramos ganhar todos os dias", afirma Pedro.
É também por isso que, para Fernando Costa, o sucesso do projeto não se mede apenas pelo número de pessoas que o veem. Se as ferramentas ensinadas continuarem a ser utilizadas depois do lançamento de cada episódio, a lógica da "caixa de ferramentas" terá cumprido o seu propósito. "Se alguém que está em casa vir o videocast e parar de cair em deepfakes, por exemplo, para mim já é uma medida de sucesso."






