Ano letivo 2025-26

Entre Pontes, Vid’Académica e SBNL vencem Concurso Nacional de Jornais Escolares

Júri destaca dinâmica e identidade das publicações distinguidas entre cerca de 130 candidatos.

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"A minha maior preocupação com o jornal é mesmo não deixar isto morrer." Daniel Reis, coordenador do Se Bem Nos Lembramos (SBNL), está no 12.º ano. Sabe que, dentro de pouco tempo, terá de deixar a escola e o jornal que ajudou a construir. A publicação da Escola Secundária Vitorino Nemésio acaba de conquistar um primeiro prémio no Concurso Nacional de Jornais Escolares, promovido pelo PÚBLICO na Escola, mas a distinção não resolve a questão que mais o inquieta: como garantir que o projeto continua quando a equipa atual se dispersar?

A alguns quilómetros dali, na mesma ilha açoriana da Terceira, Francisco Cabral enfrenta um desafio semelhante. Coordenou a reativação estudantil do Vid'Académica, da Escola Secundária Jerónimo Emiliano de Andrade, em Angra do Heroísmo, e conseguiu devolver o jornal aos alunos. Agora, já na universidade, procura quem possa pegar no trabalho e levá-lo mais longe.

Os dois jornais partilham o primeiro prémio de Melhor Jornal de Escola. E o Entre Pontes, do Agrupamento de Escolas de Ponte de Lima, foi eleito o Melhor Jornal de Agrupamento, depois de ter ficado em segundo lugar na edição anterior do concurso. Também aqui, a professora Clotilde Ferreira, coordenadora da publicação, começa a olhar para a composição da próxima equipa. Os alunos que tiveram o impulso inicial já não estão na escola e ainda não sabe se os mais novos terão a mesma vontade de participar.

"Começaram a perceber que têm uma voz"​

O impulso para o nascimento do Entre Pontes veio de uma turma da área das Humanidades. Os alunos fundadores estão agora na universidade, mas deixaram um projeto que continua a crescer. Para a professora de Português, a conquista deste ano tem um significado especial: "Para mim, [receber a notícia] foi inacreditável. Mas acho que o prémio é para eles."

A publicação, criada na plataforma TRUE, é ainda muito recente. "O jornal é um bebé. Tem dois anos. Este vai ser o terceiro", explica. A equipa mantém alguns dos estudantes que o criaram, agora no 12.º ano, e procura integrar novos alunos. A ideia inicial era dar conta das atividades da escola e do agrupamento; entretanto, o jornal abriu também espaço à escrita dos próprios estudantes.

A organização foi-se adaptando às pessoas e ao trabalho. No início, tentaram repartir tarefas entre reportagem, edição e fotografia. Hoje, todos fazem um pouco de tudo. Para Clotilde Ferreira, uma das mudanças mais importantes aconteceu na maneira como os estudantes passaram a encarar o que tinham para dizer. "Eu acho que eles começaram a perceber que têm uma voz", afirma. "Que os ouvem."

Este envolvimento foi uma das grandes conquistas da primeira equipa, mas não significa que seja fácil repeti-lo. Clotilde reconhece que sente alguma incerteza em relação ao futuro do jornal. "Eu tive uma equipa de alunos muito empenhados e foi muito gratificante. Agora, este ano, não sei", admite.

A professora receia que os alunos de que dispõe atualmente, maioritariamente da área das Ciências, não estejam tão disponíveis para o jornal, sobretudo por estarem concentrados nas notas e nas médias. Mesmo entre as novas turmas de Humanidades, não sabe se encontrará a mesma motivação. "Vou ter de encontrar uma maneira de chegar a eles", diz.

Um jornal feito por alunos e para os alunos

Na Escola Secundária Vitorino Nemésio, na Praia da Vitória, o Se Bem Nos Lembramos já conhece o sabor de um primeiro prémio neste concurso, que nesta edição distinguiu um total de 14 publicações (ver caixa)​. Conquistou-o em 2022/23, ficou em segundo lugar em 2023/24 e regressa agora ao pódio, que partilha com o Vid'Académica.

A distinção chega depois de uma renovação significativa da equipa. "Foi um grupo todo novo. Não estávamos tanto à espera de ter o sucesso que tínhamos tido antes", conta Daniel Reis.

A equipa reúne cerca de 30 estudantes, embora nem todos participem com a mesma regularidade. Uns escrevem textos, outros dedicam-se à edição, à fotografia, ao design, à ilustração ou às redes sociais. Há ainda lugar para poesia, literatura e escrita criativa. A "Galeria das Artes", que a equipa quer desenvolver, pretende dar visibilidade aos trabalhos artísticos dos colegas.

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Alguns dos 14 jornais distinguidos são impressos, outros funcionam no mundo digital Madalena Grilo Teles

É a proximidade aos leitores que Daniel considera essencial. O Se Bem Nos Lembramos quer ser feito por alunos e para alunos, tanto na escolha dos assuntos como na apresentação gráfica. A intenção é que os leitores se reconheçam nos temas e sintam que aquele espaço lhes pertence.

Mas o final do 12.º ano vai-se aproximando e o coordenador pensa já em quem poderá assumir as tarefas. É preciso que os novos colaboradores estejam prontos para dar continuidade ao projeto. "Conseguir deixar isto às pessoas, de maneira a que já tenha gente preparada para pegar nisto, para seguir com isto" é o que pretende antes de sair.

Devolver o jornal aos estudantes

A história do Vid'Académica começa muito antes da equipa atual. Fundado nos anos 30, é um dos jornais escolares mais antigos ainda em funcionamento. A sua longevidade, interrupta mas persistente, não cumpria, contudo, aquilo que Francisco Cabral e os colegas queriam para a publicação.

Durante um período, o professor Jorge Silva manteve o jornal vivo, convidando alunos a colaborar quando necessário. Francisco, então ligado à associação de estudantes, quis recuperar a publicação e devolver-lhe um papel mais ativo na vida estudantil. O que estava em causa era recuperar "a voz dos alunos, dos estudantes da escola", recorda. Na construção da identidade editorial, a equipa procurou inspiração na poesia e na possibilidade de "constatar o óbvio de uma forma extraordinária".

A tarefa revelou-se mais difícil do que simplesmente voltar a publicar. Era preciso reunir pessoas disponíveis para trabalhar com regularidade e criar uma equipa que não dependesse exclusivamente da associação de estudantes. Francisco assumiu a coordenação e procurou conselhos junto de Ana Beatriz, antiga coordenadora do Se Bem Nos Lembramos e "veterana no Concurso de Jornais Escolares", cuja experiência ajudou a pensar a organização do projeto. A partilha do primeiro prémio com o jornal vizinho foi, por isso, uma grande honra. "Temos mesmo muita alegria em poder partilhar o primeiro lugar com o jornal que nos serviu de referência", afirma.

Agora, já na universidade, Francisco tem pela frente uma nova transição. A equipa dispersou-se e é necessário encontrar quem assuma a responsabilidade. Depois de recuperar um jornal com uma história tão longa, custa imaginar que esta nova fase possa terminar por falta de sucessores. "Esperamos que o projeto não morra", diz. "A escrita é essencial para organizar ideias, formar o pensamento."

Comunicar não é o mesmo que fazer jornalismo

Um jornal escolar pode dar a conhecer o que acontece numa escola. Mas, para fazer jornalismo, é preciso ir mais longe. É essa diferença que a jornalista Cláudia Lobo, membro do júri, procura identificar nas publicações a concurso. "Há muitos projetos que são projetos de comunicação, que não é a mesma coisa de serem projetos jornalísticos", observa.

Luísa Gonçalves, coordenadora do PÚBLICO na Escola e presidente do júri, destaca a dinâmica e a identidade que caraterizam as publicações distinguidas. "Os trabalhos que são apresentados [nos jornais vencedores] tiveram real envolvimento de alunos em todo o processo, intencionalidade na sua realização e evidência de um trabalho sistemático", explica. Não basta reunir textos e fotografias ou dar conta das atividades da escola — é preciso que as escolhas editoriais tenham um propósito.

Para além de Luísa Gonçalves e Cláudia Lobo, integraram o júri Helena Soares, designer e professora; Isabel Leite, EDULOG — Fundação Belmiro de Azevedo; e Teresa Calçada, ex-comissária do Plano Nacional de Leitura. Os prémios do concurso serão entregues em data a anunciar brevemente.

Entre os cerca de 130 candidatos desta edição, os jurados encontraram jornais que dão espaço à perspetiva dos alunos. É o caso do Vid'Académica e do Se bem nos lembramos, duas publicações em que os estudantes assumem um papel central nas decisões editoriais. "Não há ali uma visão de adulto ou de professor sobre o que é um jornal da escola", sublinha Cláudia Lobo. O que se encontra, acrescenta, é "essa ideia de que aquilo é um espaço de liberdade para os alunos que o fazem".

A participação dos alunos é, por isso, mais do que uma questão de autoria. É uma oportunidade para discutirem os mais variados temas e perceberem como se escreve sobre eles. "O jornal é realmente uma ferramenta pedagógica", afirma Cláudia Lobo.

É também nesse contexto que Luísa Gonçalves identifica uma tendência nos jornais escolares: há cada vez mais projetos que implicam diferentes áreas disciplinares; os jornais "já abordam temas que vão da Filosofia à Matemática ou à História". No caso do Entre Pontes, a evolução é visível na variedade dos conteúdos e na relação com o meio envolvente. "Nota-se preocupação em diversificar os géneros no jornal, nota-se uma aproximação à comunidade", observa.

Mas manter essa voz ativa exige tempo, disponibilidade e continuidade. Para a presidente do júri, o valor dos jornais escolares não deve depender da disponibilidade de um professor ou da iniciativa de um grupo de alunos; é preciso que as direções das escolas reconheçam a sua importância e impulsionem as dinâmicas, criando as melhores condições para o seu desenvolvimento. Afinal, os alunos que hoje dão vida a estas publicações também terão de, um dia, passar o testemunho a quem chega. E o futuro dos jornais escolares escreve-se agora.