Literacia Mediática

Inteligência Artificial é o grande tema da Operação 7 Dias com os Media

Todos estão convidados a fazer parte deste grande momento de reflexão e criação em torno dos media, que acontece em maio. Apresentação da 13.ª edição decorreu no AI Hub – Unicorn Factory, em Lisboa.

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Pixabay

A inteligência artificial (IA) parece estar em todo o lado ao mesmo tempo. Mas como é que nos podemos relacionar com esta tecnologia de forma consciente? A próxima edição da iniciativa 7 Dias com os Media, apresentada no AI Hub – ​Unicorn Factory (Lisboa) na tarde de 29 de Janeiro, cria o pretexto para que se pense com calma sobre o assunto. De 3 a 9 de Maio, todos estão convidados a fazer parte desta operação dinamizada há 13 anos pelo GILM –​ Grupo Informal de Literacia Mediática.

“Alguém sabe o que é inteligência artificial?” As expressões faciais dos alunos presentes no auditório do AI Hub não deixavam esconder: sim, sabem. O tema que os trouxe aqui já lhes era familiar; mas talvez não tivessem dedicado muito tempo a pensar sobre o assunto. Cerca de 35 alunos de dois agrupamentos de escolas da zona de Lisboa (Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor e Agrupamento de Escolas Piscinas-Olivais) dirigiram-se a este espaço de trabalho destinado a startups de IA, acompanhados por professores, para ouvir especialistas no assunto. A assistir à distância, mais alunos distribuídos pelo país.

Coube a Maria João Filipe e Paulo Couraceiro, representantes da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) e da OberCom, respetivamente, dar a conhecer o plano das festas para a Operação 7 Dias com os Media deste ano. Conforme tem vindo a ser habitual, a semana inicia-se no Dia Mundial da Liberdade da Imprensa, que se celebra a 3 de Maio. E todos estão convidados a fazer parte deste grande momento de reflexão e criação em torno dos media: alunos, professores, cidadãos no geral. Como? Através da criação de atividades, eventos, conteúdos jornalísticos; no fundo, tudo o que possa fazer com que se pense mais sobre a nossa relação com os media. E, neste ano em particular, com a inteligência artificial.

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Maria João Filipe (RBE) e Paulo Couraceiro (OberCom) apresentaram a 13.ª edição dos "7 Dias com os Media" sggov- João Bica

“A questão da liberdade está muitíssimo relacionada com este conceito de literacia do saber: saber fazer, saber ser, saber estar nestes novos ambientes onde hoje nos movimentamos”, diz Maria João Filipe. A representante da RBE sublinhou que é preciso “dominar estes ambientes onde estamos para sabermos usufruir” deles. Acredita que é isso que deve acontecer também com a inteligência artificial, apesar do facilitismo que a sua utilização sugere.

Paulo Couraceiro lança alguns temas que, a par da IA (e muitas vezes dentro do universo da IA), merecem atenção nos 7 Dias com os Media: a literacia algorítmica, ética, desinformação, cibersegurança, deepfakes, equidade e acessibilidade, ambiente e sustentabilidade. O que importa é questionar, pensar e pôr outros a pensar. No fundo, ser um cidadão digital.

Foi precisamente sobre cidadania digital que o primeiro convidado da tarde falou. O responsável de Transformação Digital e da Unidade de E-Learning do Conselho da Europa, Ahmet-Murat Kiliç, juntou-se por videochamada a partir de Estrasburgo, França, para apresentar o Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital. Ahmet-Murat Kiliç começou por esclarecer o próprio conceito: “Para o Conselho da Europa, cidadania é mais do que fazer parte de uma nação”, é “uma questão de atitude”. “Eu sou um cidadão e a minha cidadania acompanha-me para onde quer que eu vá” — a viajar entre países e continentes, ou em ambientes digitais.

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O Responsável de Transformação Digital e da Unidade de E-Learning do Conselho da Europa, Ahmet-Murat Kiliç, foi introduzido por Susana Tavares, representante da Direção-Geral da Educação. sggov- João Bica

Para além do ChatGPT

O grande debate da tarde, que duraria mais de uma hora, começou com uma declaração forte: “Eu costumo dizer aos meus alunos que há o antes e depois de Cristo, e há o antes e depois do ChatGPT”, partilhou Luísa Coheur, professora do Instituto Superior Técnico. A investigadora, especialista em Processamento de Linguagem Natural e Aprendizagem Automática, lembra-se de um tempo em que a IA não estava na moda e conta-nos como tudo mudou rapidamente. Se lhe tivessem dito que em 2025 este seria um tema tão popular, não teria acreditado.

A partilhar painel com Luísa Coheur estavam Joana de Sá, investigadora e especialista em IA da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e Hélder Touças, co-coordenador da Rede Lisboa Cidade de Aprendizagem. A moderação coube ao jornalista e pivô da RTP Alexandre Brito.

Se a professora do Instituto Superior Técnico se mostrou optimista com o que a IA tem para oferecer, sem deixar de ressalvar que IA não são só modelos generativos (que geram texto ou imagem) como o ChatGPT ou o Midjorney, Joana de Sá, que trabalha diariamente “no que pode correr mal”, com um foco nos algoritmos de recomendação, deu a conhecer o outro lado e a sua importância. “O que nós fazemos é auditar estes algoritmos porque, como na grande maioria são desenvolvidos fora da União Europeia, EUA ou China, nós não temos acesso ao que está por trás”, explica. E esses algoritmos podem moldar “a nossa visão do mundo”.

Para ser mais fácil compreender, dá um exemplo: “Pensem no conflito de Israel e da Palestina. Vocês podem estar num lado da fronteira e perguntam (no Google) o que é que aconteceu e têm uma resposta; estão do outro lado da fronteira, fazem exatamente a mesma pergunta e têm uma resposta completamente diferente.”

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Luísa Coheur e Joana de Sá são especialistas em IA. Numa das vezes em que pegou no microfone, Luísa Coheur disse que a "tecnologia precisa de mais raparigas". sggov- João Bica

Uma responsabilidade (não só) individual

Enfrentar os desafios da IA não é uma tarefa meramente individual. Hélder Touças defendeu a importância da ação coletiva, e a existência de espaços para pensar em conjunto, uma prática que promove na Câmara Municipal de Lisboa através do projeto Passaporte de Competências Digitais. As ações deste projeto passam por “trabalhar com todos aqueles que vêm até aos nossos laboratórios para desmontar a forma como veem o uso do computador, do telemóvel, do tablet, das redes sociais, do ChatGPT, para que não sejam um bicho-de-sete-cabeças.”

A novidade é constante nos tempos que correm, e é por isso que “é muito importante termos momentos para perceber como é que as coisas funcionam”. E, mais do que isso, para aprender “a pensar muito sobre uma coisa durante imenso tempo” — diz Joana de Sá. “O tipo de conhecimento que nós conseguimos ir buscar às redes sociais, ou ao ChatGPT, é muito superficial. Em que é que as máquinas não são tão boas? A perceber as coisas a um nível muito mais profundo — o que é que ali está, como é que as coisas se relacionam.”

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Quase no final da conversa, Helder Touças disse que "sempre fez parte da juventude a capacidade de resistir”. sggov- João Bica

A investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa alertou para o facto de os algoritmos serem desenhados para terem um efeito viciante nos utilizadores das redes sociais e que “o mercado da atenção faz com que estejamos sempre a ter de mudar de tema, de foco” e “isso muda o cérebro de uma forma muito profunda”. Mas a responsabilidade não está apenas nos utilizadores, muitos deles adolescentes a quem não se pode simplesmente “pedir autocontrolo”. É uma responsabilidade coletiva, que também deve passar por “ensinar a resistir”.