Ciência Viva
Entre experiências e invenções, Santarém transformou-se num laboratório científico
O Fórum Nacional dos Clubes Ciência Viva na Escola reuniu alunos, professores e cientistas para um dia de diversão e experimentação científica para todas as idades.
Um carro que segue uma linha no chão como se tivesse aprendido a ler, candeeiros onde flores verdadeiras parecem brotar da luz, um robô que faz danças do TikTok, uma pista em que a velocidade depende do esforço de quem pedala e até um cão-robô dotado de truques. No Fórum Nacional dos Clubes Ciência Viva na Escola, a ciência mostrou-se dinâmica, divertida e surpreendente — e aliciou até aqueles que ainda não conseguiam distinguir H2O de CO2.
No CNEMA — Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas, em Santarém, dezenas de escolas e centros científicos transformaram o pavilhão num mapa do país. Bancadas lado a lado, vozes que se sobrepõem, pequenas mãos a mexer em circuitos e sensores. São os alunos que explicam, corrigem e ensinam.
Guilherme Justo, 16 anos, do 10.º E da Escola Secundária de Vendas Novas, mostra o robô que programou para dançar o “Passinho do Jamal”, sucesso do TikTok: “Parecia muito complicado, mas não é. Em três horas consegui sincronizar os movimentos. O professor ajudou a enviar o código para outro robô, e funcionou. A alegria de Guilherme é a prova viva de que aprender ciência pode ser acessível e divertido.
Vinda de Évora, a representação da Escola Básica André de Resende surpreende pelo cruzamento entre arte e ciência. Flores naturais surgem integradas em candeeiros, como abajures. De Almada, o carro autónomo da Escola Secundária Romeu Correia transforma programação em movimento, seguindo o traço que os alunos desenharam no chão. De Loures, a Escola Secundária Dr. António de Carvalho Figueiredo coloca visitantes a pedalar numa bicicleta, utilizando a energia humana para controlar a velocidade de um carro numa pista.
O ponto alto do evento é, sem dúvida, o carro solar do Centro Ciência Viva dos Arcos. Equipado com um painel que capta energia do sol, permite que os alunos conduzam um veículo movido exclusivamente pela luz. Joana Amorim explica: “É o grande sucesso do fórum. Além do carro maior, temos kits em miniatura, para que os visitantes percebam como motores, rodas e painéis solares funcionam. Aprendem, na prática, que as energias renováveis são reais e aplicáveis.” Inspirado no Padre Himalaia, cientista e pioneiro das energias renováveis em Portugal, o projeto mistura história e sustentabilidade e demonstra que aprender também pode ser uma brincadeira.
Pedro Russo, presidente da Ciência Viva, explicou ao PÚBLICO na Escola que o evento não tem carácter competitivo: “Os projetos não foram criados especificamente para esta mostra, muitos já existiam nos clubes espalhados pelo país. O objetivo é mostrar diversidade e criar redes entre alunos, professores, investigadores, universidades, politécnicos, centros de investigação e empresas.” Para o astrofísico, este contacto ajuda os jovens a perceber que a ciência não acontece só na escola, mas também em contexto profissional.
Enquanto o pavilhão fervilha com experimentação científica, corre um debate em paralelo no auditório, com responsáveis a discutir estratégias de literacia científica e políticas de educação. Luís Pereira dos Santos, físico e presidente do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA), sublinha a importância de ligar as escolas aos últimos desenvolvimentos científicos: “O compromisso do EduQA é com todas as áreas do saber — mas a ciência tem um peso muito grande no desenvolvimento económico do país.” Destaca ainda a importância da comunicação na ciência, que considera ser “uma ferramenta para ensinar os alunos a distinguir o que é verdade do que não é verdade”.
Fernando Alfaiate, presidente da Estrutura de Missão “Recuperar Portugal”, acrescentou: “Conseguir despertar a atenção dos mais jovens é um desafio e uma responsabilidade. As escolas são espaços privilegiados na literacia científica, onde experimentar e falhar faz parte do processo de aprendizagem.”
Já João Teixeira Leite, presidente da Câmara Municipal de Santarém, contextualizou a visão da autarquia em relação à ciência e ao desenvolvimento: “O mais difícil não é formar. É garantir que os jovens se fixam em Santarém”, afirmou, destacando iniciativas como a Universidade Politécnica do Ribatejo, o Parque de Inovação de Ciência e Tecnologia e o Campus Tejo, que “transformam conhecimento em desenvolvimento e atraem talento para o concelho”.
À saída, a sensação é de entusiasmo e de inspiração. O Fórum Nacional deixou claro que a ciência não é só para alguns, e, para os jovens participantes, cada bancada, cada descoberta e cada interação foi uma oportunidade de sonhar — e Santarém, por um dia, foi o laboratório que tornou a ciência viva.






