literacia mediática
Desinformação e democracia em vez de praia
Pelo oitavo ano consecutivo, a Fundação Francisco Manuel dos Santos escolheu jovens de todo o país para a sua Escola de Verão. Desta vez a “experiência imersiva” foi sobre desinformação e democracia.
Podiam estar na praia, a gozar os últimos dias de férias, mas provavelmente não trocariam aquilo que estão agora a ouvir, sobre jornalismo e desinformação, por nada. “A informação suspeita é uma espécie de Frankenstein, a quem temos de descobrir as costuras”, acabou de dizer João Mestre, jornalista do PÚBLICO, convidado a falar na Escola de Verão da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) sobre as técnicas utilizadas pela desinformação. A ouvi-lo estão 59 jovens, entre os 15 e os 17 anos, vindos de 13 distritos e das duas regiões autónomas, os tais que se candidataram a trocar dias de férias por uma semana a aprender e pensar sobre jornalismo, desinformação e democracia.

A Escola de Verão da FFMS, iniciada a 30 de Agosto, domingo, é uma espécie de festival de Verão – a que não falta sequer a fitinha no pulso a servir de “bilhete” –, mas com palestras, debates, visitas, workshops e outras atividades práticas, num programa totalmente gratuito que este ano se realiza na Pousada de Jovens de Sintra, onde os participantes ficam instalados.
“O objetivo principal da Escola de Verão da fundação é, desde a primeira edição, tentar proporcionar uma experiência imersiva que ajude os jovens a desenvolverem ferramentas para aprenderem a destrinçar a informação fiável da falaciosa. E, a partir daí, pensarem criticamente”, explica João Tiago Gaspar, director de Conteúdos e de Relações Internacionais da FFMS.
Escolhidos através de um vídeo e de uma carta de motivação, os participantes têm de ser alunos do 10.º ou 11.º ano. “Há evidência que nos diz que é mais fácil pôr os jovens a votar quando o começam a fazer aos 16 anos e não aos 18. A experiência de participação política realizada mais cedo fideliza o voto. Extrapolamos essa ideia para a Escola de Verão”, continua João Tiago Gaspar.
O direito a não ver
“Fakes or facts?” é o título da sessão de quarta-feira à tarde, ao cuidado do jornalista do PÚBLICO João Mestre e do psicólogo social Rui Costa Lopes, depois de uma manhã animada a falar com Diogo Batáguas, humorista, Pedro Vieira, guionista, e Margarida Graça Santos, médica e comunicadora de saúde.
Usando um código QR, João Mestre pede aos 59 jovens para responderem a um breve inquérito. Setenta e cinco por cento consideram ter uma capacidade acima da média para avaliar desinformação. “A superioridade ilusória é o primeiro motivo pelo qual nos deixamos enganar pela desinformação”, alerta o jornalista, coordenador de projectos editoriais do PÚBLICO. “Tendemos naturalmente a achar-nos melhores do que os outros em determinadas coisas e esse é um pensamento perigoso, porque ficamos menos alerta.”
“Se fosse uma corrida, a desinformação levaria duas voltas de avanço à informação logo à partida. Isto porque a desinformação, feita propositadamente para enganar, é muito barata de produzir, muito fácil e muito rápida, ao contrário da informação, que exige tempo e dinheiro”, continua Mestre, recorrendo de seguida a outra metáfora para explicar duas formas de lidar com a desinformação: o debunking, que desmonta as notícias falsas que circulam (como faz, por exemplo, o Polígrafo) e o prebunking, que é dar ferramentas às pessoas para conseguirem identificar as técnicas de desinformação e, assim, não se deixarem contaminar nem contaminarem os outros. “O debunking é o extintor, o prebunking é a campanha de prevenção de fogos; o debunking é o comprimido para a dor de cabeça, o prebunking é a vacina.”
Simulação de autoridade (como pôr uma pessoa a falar usando uma bata branca e um estetoscópio ao pescoço, para quem vê pensar que se trata de um médico), apelo às emoções, descontextualização (no tempo e no espaço), manipulação da imagem e correlação ilusória são técnicas comuns usadas por quem fabrica desinformação.
A correlação ilusória é um viés cognitivo que nos faz ver uma relação de causa e efeito quando essa relação não existe. Um exemplo dado pelo jornalista: quando as vendas de gelados sobem, também aumentam os ataques de tubarão, mas isso não significa que haja uma relação de causa-efeito entre os dois – quer apenas dizer que ambos acontecem com mais frequência no Verão.
É à correlação ilusória que João Góis, 17 anos, vindo de Coimbra, se sente mais exposto e por isso pergunta a João Mestre o que pode fazer para lhe fugir. “Bem, a primeira coisa a ter em atenção é a fonte. Se não tiver fonte, é muito complicado”, responde o jornalista, autor de um conjunto de recursos educativos sobre desinformação, compilados este ano em duas edições do boletim do PÚBLICO na Escola, projecto de literacia mediática do jornal PÚBLICO.
Rui Costa Lopes, que na sua intervenção falou sobre as razões sociopsicológicas pelas quais é fácil aceitar a desinformação, indica ainda outra estratégia: perguntarmo-nos sempre “porque é que eu assumi que isto é verdadeiro?”.
“Uma ideia que está a fazer uma grande diferença para mim no que aprendi até agora”, comenta no final Leonor Rio, 16 anos, aluna de Ciências e Tecnologias, de Felgueiras, “é que não me tinha apercebido de como estamos tão agarrados às nossas opiniões. Vou começar a ter mais cuidado quando sou exposta a conteúdos nas redes sociais e a perguntar-me: estou a aceitar isto só porque penso da mesma forma que esta pessoa, ou porque de facto penso que é uma informação relevante?”
“O que aparece no meu feed das redes sociais não me é muito estranho, por causa do algoritmo”, diz Inês Pedrosa, 17 anos, vinda de Vizela, “mas isso acaba por me causar estranheza: até que ponto é que eu estou de facto a ser livre, se é o algoritmo que dita o que eu vejo?”
Depois de ouvir Felisbela Lopes, professora da Universidade do Minho, falar na Escola de Verão, uma ideia não sai da cabeça de Inês: o direito a não ver. “Hoje está tudo nas redes sociais, nós vemos tudo, e há coisas que temos o dever de não ver, porque são da esfera privada de uma pessoa. Nunca tinha pensado nisso.”
A outra coisa que Inês “vai levar” é a forma apaixonada como o jornalista Miguel Carvalho, autor do livro Por Dentro do Chega, falou sobre o jornalismo. “Ele começou por dizer que esperava que não houvesse entre nós quem quisesse ser jornalista, por causa do estado difícil em que as coisas estão, mas falou do que faz de uma forma tão apaixonada que quase nos convenceu a querermos ser jornalistas.”
Aprender com o mundo de ontem
Durante a Escola de Verão, os 59 jovens têm também a oportunidade de vestir a pele de jornalista. Computadores abertos e blocos de notas em cima das mesas, os participantes, divididos em grupos, tiveram 20 minutos, na manhã de terça-feira, para pensar num tema relacionado com Educação e apresentá-lo ao grupo de jornalistas que lhes tinha estado a falar sobre os diferentes formatos jornalísticos. Títulos de alguns dos trabalhos propostos? “A escola pública através do raio-x dos olhos dos alunos” (reportagens sobre como a falta de infraestruturas e recursos das escolas condiciona a motivação dos alunos); “Estamos a aprender para o mundo de hoje com o mundo de ontem?” (uma app sobre a desadequação dos programas curriculares, comparados com os de outros países); “Portugal à procura de professores” (com um jogo interactivo); “Não posso morar, não posso estudar” (uma série de podcasts sobre como a crise da habitação atinge os estudantes universitários); “Continua a educação a funcionar como um elevador social ou apenas reflecte as desigualdades que já existem?”
À tarde, já lido o Código Deontológico dos Jornalistas – um dos muitos materiais que os participantes receberam antes de chegarem a Sintra, para se preparem para a Escola de Verão –, os jovens voltam a dividir-se em grupos e saem à rua para, de câmara de telemóvel em punho, com a ajuda da equipa da Divergente (revista online de jornalismo narrativo), encontrarem histórias relacionadas com Sintra.
Talvez por ser sintrense, Margarida oferece-se para abordar o senhor que vende discos de vinil na rua a caminho do Palácio Nacional. Os outros cinco elementos do grupo rodeiam-no e fazem-lhe perguntas. A cena vai-se repetindo noutros cenários e com outros entrevistados, turistas, empregados de lojas, moradores.
No dia seguinte, o vídeo de cinco minutos já está montado, assegura Guilherme Bento, 16 anos, vindo de Rio Maior com os olhos postos no desejo de ser jornalista, ele que já colabora num jornal regional. O trabalho será mostrado e discutido com os outros grupos e a equipa da Divergente.
Grande evento no próximo ano
A Escola de Verão partiu de uma ideia de Jaime Gama, na altura em que presidia à Fundação Francisco Manuel dos Santos. “Não queremos ficar na nossa torre de marfim. Temos de estar onde as pessoas estão, tentar perceber o que preocupa os jovens. E queremos também deixar uma marca: o nosso objectivo é que estes jovens se tornem embaixadores da fundação”, conta João Tiago Gaspar.
O tema da Escola de Verão é escolhido pelos órgãos sociais da FFMS – por lá já se falou de Inteligência Artificial, alterações climáticas, geopolítica e igualdade, entre outros. Porquê a desinformação, este ano? “Porque achamos que os influenciadores digitais estão a ganhar um grande poder, que merece uma análise detalhada. Era um ângulo que nunca tínhamos tocado. E a democracia é um tema que vamos revisitando, sob perspectivas diferentes.”
Terminada a Escola de Verão, os participantes passam a integrar uma rede de antigos alunos, hoje com perto de 400 pessoas, criando uma comunidade com quem a fundação continua a partilhar informação e a quem vai pedindo opinião e participação em alguns eventos. “Acreditamos que a Escola de Verão tem um efeito multiplicador”, continua João Tiago Gaspar. E dá o exemplo do que aconteceu com participantes de há dois anos: entre eles, e sem qualquer relação com a FFMS, organizaram um grupo informal que promove debates em escolas.
Para o primeiro semestre de 2027, ano em que comemora 18 anos, a FFMS está a preparar um grande evento para esta faixa etária, aberto ao público, a realizar em Lisboa.
[O jornal PÚBLICO não é escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1990]






