Concurso “Jornalistas em Rede”

Cantarinha e Lenços dos Namorados seduziram (e premiaram) jovens jornalistas

António Araújo, aluno do AE Santos Simões, em Guimarães, vence na categoria de entrevista; Carolina Rebelo, Cecília Fariñas e Elsa Moreau, do AE de Vila Nova de Cerveira, assinam a melhor reportagem.

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REPORTAGEM

“Ficou mesmo bonito… parece que cada lenço faz parte de um coração maior”

Uma tradição antiga pode ser recontada. Foi o que aconteceu na nossa escola, depois da "invasão" dos Lenços dos Namorados.

Por Carolina Rebelo, Cecília Fariñas e Elsa Moreau, 8.º ano
Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Cerveira​

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Exposição final dos Lenços da Amizade na Semana da AFC Foto: Magna Araújo Amorim / AE Vila Nova de Cerveira

Durante várias semanas, a nossa escola, em Vila Nova de Cerveira, começou a transformar-se. Nas salas de aula apareceram panos brancos, linhas coloridas e muitas perguntas. No início parecia apenas mais um trabalho escolar, mas rapidamente percebemos que estávamos a entrar numa história muito mais antiga do que nós: a dos Lenços dos Namorados, uma tradição minhota que passou de geração em geração.

Começámos por conhecer esta tradição, bordada por jovens mulheres para expressar sentimentos. Alguns tinham frases simples, outros desenhos de flores, corações ou pássaros.

Foi então que descobrimos algo que nos surpreendeu: muitos destes lenços tinham erros ortográficos. Pensávamos que era distração, mas numa aula de Português percebemos que não era bem assim.

Foi nessa aula que aconteceu um dos momentos mais marcantes do projeto. Enquanto falávamos sobre erros, um colega nosso, Tomás Rio, que tem dislexia, disse com naturalidade: “Então eu escrevo normalmente.”

Rimo-nos todos, mas aquele momento fez-nos pensar. De repente, percebemos que os erros dos lenços não eram falhas - faziam parte da história das pessoas que os tinham bordado. Muitas das jovens que bordavam estes lenços tinham pouco acesso à escola. Os erros não eram descuidos, eram reflexo da sua realidade.

Pouco depois fizemos outra descoberta que nos surpreendeu. Sempre tínhamos pensado que as cores dos lenços eram escolhidas apenas por serem bonitas, mas aprendemos que muitas bordadeiras usavam restos de fio que sobravam do trabalho doméstico feito para as suas patroas. As cores não eram planeadas: eram as que existiam.

Cada linha escondia histórias de trabalho, de falta de materiais e de criatividade.

Foi nessa altura que um dos nossos colegas decidiu falar com a sua avó, que sabia bordar e tinha feito Lenços dos Namorados quando era mais nova. Preparámos algumas perguntas e ele levou-as para casa. Quisemos saber como aprendiam a bordar e o que significavam os desenhos.

A avó, Maria José Rebelo, contou que muitas raparigas aprendiam os pontos em casa, observando as mães ou as vizinhas. Disse também que bordar um lenço levava tempo e paciência, porque cada ponto era feito com cuidado.

“Naquele tempo, bordávamos com o que tínhamos, mas cada lenço levava muito sentimento”, explicou a avó. Mais do que um objeto bonito, o lenço era uma forma de mostrar sentimentos. Ao ouvirmos estas histórias, percebemos que aqueles pequenos panos guardavam muito mais do que desenhos: guardavam vidas.

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Em casa da avó, Maria José Rebelo ensina Carolina Rebelo a bordar os pontos tradicionais dos Lenços dos Namorados. Foto: Carolina Rebelo / AE Vila Nova de Cerveira
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Alunos do 8.º ano a trabalhar os Lenços da Amizade durante o projeto Elsa Curado / AE Vila Nova de Cerveira

Em Cidadania e Desenvolvimento, começámos então a pensar no significado desta tradição. Perguntámo-nos se hoje os lenços poderiam ter outro sentido. Foi assim que surgiu a ideia de os transformar em Lenços da Amizade. Em vez de mensagens associadas ao amor romântico, decidimos escrever palavras sobre amizade, empatia e respeito pelo outro.

“Quis falar da amizade, porque é algo que também é muito importante para nós”, explicou uma das alunas, Elsa Moreau. Para nós, estes lenços passaram também a ser uma forma de dar mais valor às tradições das nossas avós, aos saberes antigos e às histórias que chegaram até nós através delas.

Trabalhámos em grupo, discutimos ideias e escolhemos frases e símbolos - nem sempre foi fácil, mas aprendemos a ouvir os outros e a trabalhar em conjunto.

“Cada lenço é diferente, porque cada um pensou numa mensagem especial”, partilhou uma das alunas, Vitória Guerreiro. O projeto foi crescendo e começou a envolver várias disciplinas. Em diferentes momentos, apresentámos os nossos lenços, explicando os símbolos, as cores e as mensagens.

“No início foi difícil falar, mas depois começámos a perceber melhor o que queríamos transmitir”, disse outra aluna, Cecília Fariña.

Também pesquisámos a origem desta tradição, ligada ao Minho e às zonas rurais do norte de Portugal, e organizámos a informação em formato digital. Assim percebemos que uma tradição antiga também pode ser contada de formas novas.

Nem tudo aconteceu dentro da sala de aula. Na Biblioteca Escolar, alguns de nós aprenderam a bordar; outros pediram ajuda em casa.

Houve avós que ensinaram pontos, contaram histórias e ajudaram a escolher cores. Aos poucos, a escola entrou nas nossas casas e as nossas famílias passaram também a fazer parte do projeto.

“Gostei muito de aprender a bordar com a minha avó”, contou uma das alunas, Carolina Rebelo.

Quando terminámos os nossos lenços, percebemos que tínhamos aprendido muito mais do que imaginávamos. Aprendemos que as tradições não pertencem apenas ao passado: podem ganhar novos significados quando são conhecidas, partilhadas e adaptadas aos dias de hoje.

O projeto terminou com uma exposição final na Semana da Autonomia e Flexibilidade Curricular, onde os nossos Lenços da Amizade foram apresentados à comunidade escolar. Foi um momento especial: pudemos mostrar o trabalho desenvolvido e partilhar com alunos, professores e famílias as histórias que aprendemos a contar.

“Ficou mesmo bonito… parece que cada lenço faz parte de um coração maior”, comentou uma das alunas, Leonor Costa.

Ficaram lenços. Ficaram sobretudo histórias, memórias e aprendizagens que agora fazem parte de nós. Na nossa escola, os Lenços dos Namorados não ficaram guardados no passado. Voltaram a respirar - desta vez nas nossas mãos.

ENTREVISTA

“As pessoas estão mais interessadas no trabalho manual, para fugir ao digital”

Com os quatro elementos se faz uma cantarinha: a terra, o ar, a água e o fogo que coze a peça. Maria Fernanda Braga, oleira, diz que esta é “uma arte mágica”.

Por António Araújo, 7.º ano
Agrupamento de Escolas Santos Simões, Guimarães

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A oleira Maria Fernanda com António Araújo num ateliê de fim de semana na loja FNAC Foto: Ana Costa

Maria Fernanda Lima do Rosário Inácio Braga é oleira na Casa do Povo de Fermentões, concelho de Guimarães. Tem 60 anos e iniciou a sua carreira como artesã há 26 anos. Sendo das poucas oleiras que ainda sabem a técnica de moldagem da famosa Cantarinha dos Namorados, peça icónica do artesanato vimaranense, visitámo-la no seu ateliê em dezembro de 2025, num “dia aberto” dedicado a exibir a sua arte.

O que a levou a ser oleira?

Eu era desenhadora e vivia no Algarve. Vim para Guimarães exatamente por causa das cantarinhas. Um dia ouvi na rádio que ia abrir um curso de olaria e achei interesse, nunca pensei que acabaria por se tornar a minha profissão.

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A moderna roda de oleiro Foto: António Araújo

Quando e como aprendeu a técnica das cantarinhas?

Foi com o último mestre das cantarinhas, o último oleiro de Guimarães, Joaquim Oliveira. O meu encontro com o barro foi no curso que anunciaram na rádio e que se realizou para dar continuidade a esta arte.

O que sente ao trabalhar o barro?

É uma arte mágica, porque se trabalha com os quatro elementos: a terra, o ar, a água e o fogo que coze a peça. A primeira coisa que senti, quando o meu mestre me pôs uma bolinha de barro na mão, foram as inúmeras possibilidades de dar vida àquela peça, o que é algo que me acompanha ainda hoje.

Ainda há muitas pessoas interessadas em dar continuidade a este legado?

Sim, e digo isso com satisfação e muita alegria. Acabei agora de dar um curso para formar oleiros a nível profissional. Logo que houve a divulgação do curso, tivemos mais de 80 inscrições. Penso que as pessoas, hoje, estão mais interessadas no trabalho manual, criativo, para fugir ao digital… e isso deixa-me feliz!

O que tem a Cantarinha dos Namorados tão especial?

É uma peça que conta uma história que está muito associada ao casamento. Há uma lenda que diz que, quando um rapaz queria casar com uma rapariga, oferecia-lhe uma cantarinha para oficializar o noivado. Antigamente, nas casas, não havia água canalizada e ia-se buscar água à fonte. Se aparecia uma rapariga com um cântaro mais rendilhado, já significava que era noiva. Mas há detalhes que têm outro significado. Repara que a tampa tem uma pomba, o que simboliza a paz e a harmonia do casal. O facto de ser decorada com mica também torna a peça especial. A mica é um mineral brilhante que não se usa em mais nenhuma olaria em Portugal. Esta mica é recolhida por mim no Gerês e transformo-a em pó para pôr na cantarinha em determinados detalhes, por exemplo nas pontas das asas da pomba.

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As tradicionais Cantarinhas dos Namorados de Guimarães, ornamentadas com mica Foto: António Araújo

Onde arranja a matéria-prima para fazer as cantarinhas?

Como já disse, a mica vem do Gerês. Antigamente, as pessoas recolhiam-na na Penha, aqui ao lado da cidade, mas agora já não há. Em relação ao barro, compro-o em Barcelos, porque, felizmente, é uma terra de muitos oleiros, onde a arte é valorizada.

O que torna a cantarinha um símbolo de Guimarães?

No século XIX, em 1884, esta peça foi apresentada na Exposição Industrial de Guimarães. Foi uma mostra muito importante para a região, onde se apresentavam os melhores produtos das indústrias vimaranenses. O facto de a cantarinha ter tido destaque já nessa altura significa que era uma peça muito importante e valorizada pela sociedade. Atualmente é um produto certificado, o que lhe dá mais visibilidade. Cada cantarinha é única; como é feita a mão, é impossível haver duas peças iguais. É aí que reside o encanto do artesanato.

Agradecemos à artesã Maria Fernanda a possibilidade de nos ter aberto o seu ateliê para conhecermos esta arte tão minuciosa e que foi resgatada à extinção. A quem tiver interesse em descobrir mais estas peças de olaria, recomendamos uma visita à Casa do Povo de Fermentões.