O melhor da música em 2024

Os melhores álbuns de 2024. Escolhas de Daniel Dias, Francisco Noronha, Gonçalo Frota, Luís Filipe Rodrigues, Mariana Duarte, Mário Lopes, Pedro João Santos e Pedro Rios.


10

Critterland

Critterland de Willi Carlisle

No ano em que country e Beyoncé se tornaram (não tão) estranhos companheiros de cama, Willi Carlisle deixou-se estar: fincou os pés na terra pedregosa do Arkansas, sem a mínima pretensão de adocicar a sua música. Poemas farpados e refrães em ponto de catarse, para cantar as almas abandonadas e as cinzas ao vento; os remorsos e os triunfos de quem arrisca amar no fio da navalha. P.J.S.


9

Sentiment

Sentiment de Claire Rousay

Claire Rousay é uma das cronistas fulcrais do eremoceno, a nossa era da solidão. Já o era nos discos de música (emo) ambiental que foi compondo na última meia dúzia de anos, mas nesta estreia pela venerável Thrill Jockey o seu passado indie-emo irrompe pelo presente dentro; deixa de se escutar entre parêntesis. Pelo caminho, revela-se uma notável escritora de canções, herdeira dos melhores. L.F.R.


8

Manning Fireworks

Manning Fireworks de MJ Lenderman

MJ Lenderman é muito bom a escrever sobre homens que não sabem o que estão a fazer, ou que não sabem fazer melhor do que o que estão a fazer agora, ou que se acham a última coca-cola do deserto quando são só mais uma coca-cola, igual a tantas outras. É sobre uma bela country a fugir para o slacker rock que o jovem norte-americano imprime os seus contos, metade humor observacional, metade confissão, total triunfo. D.D.


7

Spectral Evolution

Spectral Evolution de Rafael Toral

Para descrever a música de Spectral Evolution, o músico português recorre a uma analogia: música como um jardim, espaço vivo onde diversos seres, animais e vegetais, convivem em harmonia. É uma descrição feliz e certeira. Disco de regresso à guitarra, que convive com a vida luxuriante dos seus instrumentos electrónicos, não é simplesmente um álbum. É o vislumbre de um outro mundo, novo e fascinante. M.L.


6

Vou Ficar neste Quadrado

Vou Ficar neste Quadrado de Ana Lua Caiano

Depois do Megafone e de Amélia Muge, a música tradicional portuguesa continua a encontrar formas de soar a um presente em que adufes podem ser colegas de quarto de sintetizadores, em que bombos podem rodear-se de electrónica… Após dois excelentes EP, Ana Lua Caiano canta-nos sobre as ansiedades e os medos contemporâneos com a inventividade de quem sabe que a tradição não repousa atrás de uma vitrina. G.F.


5

Diamond Jubilee

Diamond Jubilee de Cindy Lee

O óvni do ano? As canções de Cindy Lee (Patrick Flegel) vêm de parte incerta. Como uma emissão de rádio de uma velha América, onde girl groups e outros artefactos dos anos 50 e 60, melodistas encartados do Brill Building, delícias psicadélicas e rock’n’roll primevo, chegasse virgem, alienígena, lindíssima, aos nossos ouvidos de 2024. Duas horas de sonho. P.R.


4

The Collective

The Collective de Kim Gordon

Negro, industrial, noisy, expandindo a experiência do primeiro disco a solo de Kim Gordon (como se o som da vibração, qual linha de baixo, de Don't play it proviesse do telemóvel que agora se vê na capa deste álbum), confirma aquilo que há muito vimos defendendo: nenhum alinhamento cósmico obriga a que o trap, enquanto tipologia sónica, esteja confinado a tipos exibindo maços de notas e a letras estupidificantes. Que tal evidência tenha a mão de uma jovem de 71 anos, eis a graça. F.N.


3

Night Reign

Night Reign de Arooj Aftab

Com o anterior Vulture Prince, álbum ensopado em tristeza e no luto pela morte do irmão, a cantora paquistanesa Arooj Aftab criava uma estética pessoal na encruzilhada entre música clássica indiana, música sufi, jazz e folk. Night Reign é a continuação dessa embriaguez em que a sua voz soprada, de uma beleza que magoa, nos envolve a cada verso. De uma delicadeza que parece contrariar tudo aquilo que sabemos do mundo. G.F.


2

Brat

Brat de Charli XCX

É impossível despoluir Brat do impacto cultural de 2024, tirar da sua electrónica abrasiva o caruncho verde-lima de mil memes e até uma campanha presidencial. Ainda bem: Charli XCX livrou-se da sina da “pop de culto” e voltou a comunicar com o mainstream, sem cedências. Abrasiva e descompensada, sensível e existencial, em carne viva mas a fingir indiferença: tudo isto é lindo, tudo isto é Brat. P.J.S.


1

Suspiro...

Suspiro... de Maria Reis

É rara e preciosa a forma como Maria Reis nos convoca para dentro das suas canções. O mesmo que dizer, para dentro das suas neuroses e depressões, para dentro das suas relações, tesões e tensões, para dentro das suas inseguranças. Há uma honestidade e uma inteligência emocional desarmantes em como olha lá para dentro para cantar aquilo que quer pôr cá fora, e como nada disto soa a confessionário autocentrado nem autocomiseração. Há partilha e generosidade, porque ela sabe que o mundo “’tá a crashar”, perdido numa “fascinante hipocrisia”, e só com vulnerabilidade, empatia e raiva colectivas é que podemos não cair definitivamente no buraco.

Suspiro… é um portentoso – por vezes doloroso, mas sobretudo luminoso – acto de perscrutação, elucidação e regeneração que acaba por nos tocar a todas/os em alguma fase da vida. É também o disco onde a compositora, cantora e guitarrista lisboeta condensa e matura o cancioneiro que tem vindo a edificar, tanto liricamente como musicalmente. O indie rock, o punk, a pop ancorada em guitarras e na visceralidade interpretativa da voz, abordagens oblíquas a músicas tradicionais portuguesas, o grunge; tudo transportado numa argúcia semântica e poética que já se tornou só dela. Maria Reis é hoje um nome fundamental da música portuguesa da última década, e este disco – que ganha ainda mais rasgo e matizes ao vivo – é um suspiro que se irá prolongar muito para além de 2024. M.D.