O melhor da literatura em 2024

Os melhores livros de 2024. Ficção: escolhas de António Rodrigues, Helena Vasconcelos, Isabel Coutinho, Isabel Lucas e José Riço Direitinho. Não ficção: escolhas de António Araújo, António Guerreiro, Helena Vasconcelos, Hugo Pinto Santos, Isabel Coutinho, Isabel Lucas e Pedro Rios. Poesia: escolhas de António Guerreiro, Hugo Pinto Santos, José Riço Direitinho e Luís Miguel Queirós.

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Ficção

10

A Picada de Abelha

A Picada de Abelha de Paul Murray | Trad. João Reis | Livros do Brasil

Um drama familiar – que tem o interior da Irlanda como cenário – é contado de várias perspectivas. O escritor irlandês indaga sabiamente os fios da teia de relações entre pais e filhos e as rivalidades entre irmãos. Romance épico que sabe explorar com inteligência o luto e a abnegação, e que, apesar da tristeza que o perpassa, não deixa de ser por vezes hilariante. J.R.D.


9

Canção do Profeta

Canção do Profeta de Paul Lynch | Trad.: Marta Mendonça | Relógio d’Água

Que nome dar a qualquer coisa que se instala para transformar vidas de modo dramático? Gente que desaparece, o medo como motor de comportamentos, um estado de permanente vigília e o desaparecimento dos direitos mais fundamentais? Uma criança chama a tudo isso um “verme”. Acontece na Irlanda, numa contemporaneidade que é a nossa e se torna tão violenta quanto despótica. Nesse cenário, o irlandês Paul Lynch (n. 1977) constrói uma narrativa hábil, tensa, inovadora para falar de um dos maiores fantasmas do nosso tempo. Ganhou o Booker em 2023. I.L.


8

Eu Canto e a Montanha Dança

Eu Canto e a Montanha Dança de Irene Solà | Trad.: Rita Custódio e Alex Tarradellas | Cavalo de Ferro

Irene Solà (n. 1990) é um dos nomes mais vibrantes da sua geração em Espanha. Poeta, ficcionista, artista plástica, entra neste romance na ruralidade contemporânea dos Pirenéus da Catalunha e traz um mundo de presságios e de privação, narrado com grandes recursos poéticos, abundante crueza e uma observação notável da linguagem oral enquanto molde daquela microcivilização. A começar por um dos protagonistas destas histórias, Domènec, que fazia versos sem saber ler. “É difícil fazer versos e contemplar a virtude oculta no interior de todas as coisas...” I.L.


7

Caruncho

Caruncho de Layla Martínez | Trad.: Guilherme Pires | Antígona

Inscreve-se numa nova corrente nas letras espanholas: o neo-ruralismo. São histórias dessa Espanha agreste, de aldeias esvaziadas, que recuperam uma linguagem narrativa não-urbana enquanto repensam uma identidade cultural e geográfica que estava quase perdida. Contada a duas vozes, esta é uma história de rancor e vingança, de traumas herdados, de memórias assombradas pela violência e pela opressão. J.R.D.


6

A Cegueira do Rio

A Cegueira do Rio de Mia Couto | Caminho

O escritor moçambicano vira a colonização do avesso a partir daquele que poderá ter sido o primeiro confronto da Grande Guerra em África. Numa narrativa caleidoscópica, onde os negros, ao invés de figuras passivas nas mãos do colonizador, são personagens de luzes e sombras, conhecedores de outro tipo de escritas e de orientações, este livro acerca-nos das cosmologias africanas por meio de um realismo que nos desconcerta. A.R.


5

Um Novo Nome

Um Novo Nome de Jon Fosse | Trad.: Liliete Martins | Cavalo de Ferro

É o terceiro e último volume de Septologia, o magnum opus do escritor norueguês que recebeu o Nobel em 2023. Como numa litania, numa longa oração, o leitor é mergulhado num movimento frásico repetitivo, de trechos que vão e vêm como as ondas escuras do mar do fiorde, num movimento musical cadenciado como o de um metrónomo, obsessivo e elíptico. Uma escrita em busca do indizível.J.R.D.


4

A Palavra que Resta

A Palavra que Resta de Stênio Gardel

Embora a história de amor de Raimundo e Cícero, os dois jovens sertanejos que trabalham numa roça, nos agarre e seja muito bonita, é a maneira como Stênio Gardel narra e articula as palavras dos seus personagens que cativa e marca a originalidade deste romance. Inesquecível também a história de uma carta guardada a vida inteira e de quem, já na velhice, decide aprender a ler e escrever, para a poder ler. Este primeiro romance, do autor que em 1980 nasceu no interior do Ceará, no Brasil, recebeu o National Book Award 2023 para melhor obra traduzida de literatura, pela edição em inglês The Words that Remain, com tradução de Bruna Dantas Lobato. Foi semifinalista do Prémio São Paulo de Literatura em 2022 e esteve entre os nomeados para o Prémio Literário de Dublin neste ano de 2024. I.C.


3

A Parede

A Parede de Marlen Haushofer | Trad.: Gilda Lopes Encarnação | Antígona

Uma parede invisível ergue-se entre uma mulher e o resto do mundo. Para lá dessa barreira tudo parece ter morrido, intacto. A partir daí, a protagonista deste romance, um original de 1963 agora resgatado do esquecimento, toma a sua sobrevivência como principal função. A Parede é um magnífico exercício literário, onde a escritora austríaca Marlen Haushofer (1920-1970) cria um drama intenso, contido, dramático a partir da profunda solidão de uma mulher. É uma espécie de laboratório de vida. I.L.


2

Toda a Gente Tem um Plano

Toda a Gente Tem um Plano de Bruno Vieira Amaral | Quetzal

Um romance no qual o autor exercita a excelência da linguagem e recupera personagens que povoam o seu universo literário, os mais pobres, os abandonados, os marginais, os sem-tecto, num universo suburbano violento. Calita, o herói desta história, apesar da vida sofrida, possui um instinto fatal para a liberdade. Nada o prende e nada o demove. Sim, “toda a gente tem um plano”, mas a ironia implícita no título traz o augúrio de desaires e falsas esperanças. H.V.


1

Visitar Amigos e Outros Contos

Visitar Amigos e Outros Contos de Luísa Costa Gomes | Dom Quixote

Em 13 contos inéditos, reunidos num só volume, a autora faz jus à sua enorme capacidade efabulatória, servindo-se de todos os utensílios que o domínio da língua e uma criatividade infinita lhe conferem. Os acontecimentos, os lugares, as casas têm vida própria, tudo muda, tudo se liga e desprende, mas o essencial permanece: personagens surpreendentes em complicadas situações limite, o banal quotidiano a par do insólito inesperado, o avanço inexorável do tempo e a inevitável finitude.

São temas cruéis que Luísa Costa Gomes trata com um humor anárquico e desafiante, servindo-se livremente de paradoxos, dilemas, impasses e conflitos cada vez mais intrincados. Há amigos que se visitam, que se perdem e se reencontram, mães e pais vocacionados para o amor, incómodos e mal-entendidos, tensões e desafios em universos distantes no tempo, mas com semelhanças no que diz respeito à tentativa de fugir às convenções e ao constrangimento dos costumes.

Avessa a sentimentalismos, a autora cria uma intimidade feliz com quem a lê, apoiando-se na sua vasta erudição aliada a uma ironia terna e propensa à prática de uma liberdade insólita. H.V.



Não ficção

10

A História do Mundo

A História do Mundo de Peter Frankopan | Trad.: Luís Santos | Crítica

Peter Frankopan evidenciou-se com As Rotas da Seda (2018), onde interroga a perspectiva ocidental sobre um dos momentos decisivos da história deste milénio. Desta vez, o professor de Oxford vai mais atrás, ao Big Bang, para analisar como factores ambientais, sobretudo mudanças climáticas, têm moldado o desenvolvimento das civilizações e mostrando como a natureza influenciou a linguagem, as religiões, as migrações. É o gesto de Frankopan à urgência de pensar as alterações climáticas, com o autor, como sempre, a socorrer-se, na sua escrita, de mestres. Aqui, começa por John Milton e a ideia de paraíso. I.L.


9

Viena

Viena de Richard Cockett | Trad.: Telmo Rodrigues | Edições 70

Há uma tese de partida, a defesa de Viena enquanto “rastilho” na Europa para a produção cultural e intelectual do Ocidente no século XX. O historiador britânico traça uma biografia da cidade das ideias, cuja influência se manteve até à americanização do “velho” continente no pós-guerra. A premissa pode ser ousada, a da capital austríaca com um papel primordial enquanto génese do mundo moderno, mas a argumentação de Cockett é rica e convincente. Deixa-nos uma nova perspectiva, através de uma escrita sedutora e detalhada, do mundo em que vivemos. I.L.


8

Caminhar - Uma Filosofia

Caminhar - Uma Filosofia de Frédéric Gros | Trad.: Inês Fraga | Antígona

Caminhar ajuda a pensar, provam os exemplos de Nietzsche, Rousseau, Thoreau e Rimbaud. Este best-seller em França, escrito com uma belíssima leveza deambulante, é um elogio ao caminhar – acto espiritual, filosófico, político. P.R.


6 ex aequo

Diário Incontínuo

Diário Incontínuo de Mário Cláudio | Dom Quixote

Num país em que um certo puritanismo reprime amiúde o gesto audacioso de revelar dados autobiográficos, um dos mais excelsos escritores portugueses lança-se na publicação de um diário no qual se expõe com franca clareza, cruzando com habilidade os factos da sua vida com os do mundo, dos amigos e inimigos, num exercício em que o humor, a perspicácia, a imaginação e um certo lirismo arrebatado quando se trata da descrição da natureza se espraiam num grosso volume que cobre o período entre 1958 e 2019. Dividido em quatro partes, mais um anexo, este diário desfia memórias em forma de apontamentos, meditações, opiniões, descrições de lugares, viagens, pessoas e animais. Um acontecimento literário para todos os que se interessam pelo universo da cultura das últimas décadas. H.V.


6

Inyenzi ou As Baratas

Inyenzi ou As Baratas de Scholastique Mukasonga | Trad.: Maria de Fátima Carmo | Livros do Brasil

Quando começou a escrever, já em França, onde vive, a escritora ruandesa, que nasceu na província de Guicongoro, no sudoeste do Ruanda, e vinha de uma tradição oral, sabia que não se pode contar um genocídio. Mas quis poder construir um túmulo de papel àqueles que não o tiveram. Tinha três anos quando aconteceram os primeiros massacres de tutsis no Ruanda. Em 1960 a sua família foi deportada e fixada, juntamente com muitas outras, em Nyamata. Mukasonga perdeu a sua família, assassinada durante os 100 dias do genocídio. Não se cansa de repetir que escreveu, este que foi o seu primeiro livro, para “salvar a memória”. É um murro no estômago, este relato da vida quotidiana. Há um antes e um depois de Inyenzi ou As Baratas. Devia ser de leitura obrigatória. I.C.


5

Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luís Vaz de Camões

Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luís Vaz de Camões de Isabel Rio Novo | Contraponto

Camões é eterno, insuperável. O poder da sua arte atravessou meio milénio, os seus versos são fundação, inspiração e exaltação de um povo e de uma língua que ele tratou de enobrecer. Apesar desta glória em forma de mito – à semelhança dos seus contemporâneos Shakespeare e Cervantes –, são escassas as informações fidedignas sobre a sua vida aventurosa e acidentada. Com um trabalho exaustivo de pesquisa, de apuramento e cruzamento de dados e de clarificação de detalhes fantasiosos, Isabel Rio Novo levou a cabo a hercúlea tarefa de nos mostrar um Camões que tanto nos é apresentado como personagem de carne e osso, pujante, conflituoso, apaixonado, como envolto numa multitude de mistérios, contradições e segredos. Tendo sempre em mente “a distinção entre um facto, uma forte probabilidade ou uma mera possibilidade”, o rigor de Isabel Rio Novo torna a leitura desta obra indispensável, num ano de celebrações camonianas. H.V.


4

Triste Tigre

Triste Tigre de Neige Sinno | Trad.: Catarina Ferreira de Almeida | Presença

“Se não é pelos outros nem por mim, para que serve, então, este livro?”, questiona a determinada altura a escritora e tradutora francesa, formada em Literatura Americana e doutorada pela Universidade do Michigan, que vive no México, nesta obra de linguagem crua, que não ignora o mal, as vítimas e os seus algozes. Durante anos, Neige Sinno foi violada e abusada pelo padrasto. Quando já era maior de idade contou à mãe, que fez queixa do marido. Admitiu os factos, foi condenado a nove anos de prisão. Esta obra, que mistura narrativa, testemunho e ensaio, é uma busca da resposta a essa pergunta inicial e dialoga com outros livros, a começar pelo título. I.C.


3

Eros, Amargo e Doce

Eros, Amargo e Doce de Anne Carson | Trad.: Tatiana Faia (Edições 70)

Clássico dos estudos clássicos, não é redundante afirmar a importância da tradução entre nós do livro de Anne Carson. Entregue à mão sábia de Tatiana Faia, poeta e classicista, Eros, Amargo e Doce é não só um marco do ensaísmo, mas uma edição que importa saudar claramente. Um estudo singular sobre o poder e efeitos do amor na literatura e no pensamento gregos – “O desejo é um momento sem saída”. H.P.S.


2

Estranhos na Sua Terra

Estranhos na Sua Terra de Francisco Bethencourt | Temas e Debates

Este livro tem um subtítulo descritivo que permite perceber com alguma precisão do que ele trata: “Ascensão e queda da elite mercantil cristã-nova (séculos XV-XVIII)”. A profundidade da investigação e o teor de conhecimento (da história económica, religiosa, cultural) que este livro nos proporciona são notáveis. É um trabalho exemplar de historiografia, servido por uma qualidade de escrita que se deixa ler com prazer. A.G.


1

Cultura – Uma Nova História do Mundo

Cultura – Uma Nova História do Mundo de Martin Puchner | Trad.: Mário Dias Correia | Temas e Debates

Ao contrário do que o título possa sugerir, não é um vade-mécum, com pretensões enciclopédicas, sobre os principais factos e personalidades da cultura mundial, ou sequer ocidental. Nada existe de comum, portanto, com obras como Cultura – Tudo o que é preciso saber, de Dietrich Schwanitz.

Este livro é antes um manifesto em favor das humanidades, que na essência não difere de esforços congéneres (como O Infinito num Junco, de Irene Vallejo), mas que se distingue, e muito, no método de abordagem: em vez de um longo excurso apologético sobre as virtudes das humanidades, o autor optou por ancorar o seu argumento em casos e exemplos concretos, visíveis através de obras e de objectos tão variados como as pinturas rupestres de Chauvet, o busto de Nefertiti, o pilar de Asoka ou A Grande Onda de Kanagawa de Katsushika Hokusai.

Num balanço global, Cultura consegue um admirável equilíbrio entre erudição e vulgarização; ou, melhor dizendo, transmite a sua mensagem com apoio numa realidade preênsil, objectificada e identificável, o que poderá desagradar aos cultores das grandes abstracções e elevações do espírito, mas constitui uma fórmula perfeita para cativar os leitores para os desígnios do autor, que são mais militantes e empenhados do que a sua escrita distendida e suave deixa transparecer.

Na parte final do livro, Martin Puchner assume o propósito de conquistar um auditório vasto, hoje divorciado das humanidades. Dependerá do favor do público saber se teve êxito nessa sua empresa. Mas, em tempos de pós-verdade – e de pós-vergonha –, só tentá-la é já um feito. A.A.



Poesia

10

Amendoeiras Brancas e Vermelhas

Amendoeiras Brancas e Vermelhas de José António Almeida | (não) edições

Com este quarto título da série “Metamorfoses”, José António Almeida prossegue uma obra poética de grande fôlego, cheia de referências bíblicas e literárias, tão capaz de transfigurar uma cena do quotidiano mais próximo como a referência histórica longínqua. E assim se escreve uma poesia com um certo pendor impessoal e empenhada em reviver, não apenas no plano referencial, um discreto classicismo. A.G.


9

Ballarò e Outros Motetos

Ballarò e Outros Motetos de Hugo Miguel Santos | Cutelo

Na poesia de Hugo Miguel Santos, a ciência do verso interage harmoniosamente com a abertura para o mundo e as formas de o dizer. Assim, preceitos e técnicas praticados com mestria articulam-se imperceptivelmente com a atenção dedicada pelo poema aos objectos com que se confronta e se debate. A música e a gama das outras artes são substância do verso tanto como recorrências amorosas desta poesia. H.P.S.


8

Eu Vi o Tempo Assassinar-me

Eu Vi o Tempo Assassinar-me de Dylan Thomas | Trad.: Frederico Pedreira | Assírio & Alvim

Antologia do galês, organizada e traduzida pelo também poeta Frederico Pedreira, reúne 51 poemas de entre a centena que Dylan Thomas publicou em vida, divididos por cinco livros. Percebe-se, na escolha feita, a tentativa (conseguida) de incluir poemas dos "diferentes movimentos e configurações" da sua obra poética. J.R.D.


7

A Boda dos Tempos

A Boda dos Tempos de Paulo Teixeira | Língua Morta

Da poesia de Paulo Teixeira poderíamos dizer que ela lança um olhar reflexivo sobre horizontes distantes – nomes, datas e lugares históricos –, movida por um desejo de inscrever implicitamente algo que é da ordem de uma filosofia (mais do que uma poética) da história. Mas acaba sempre por desaguar, em tom pessimista, num presente de ruínas e de cinzas. Como na pintura de Anselm Kiefer reproduzida na capa. A.G.


6

Paiol

Paiol de Ana Isabel Mouta | Edição Sempre-em-Pé

Ana Isabel Mouta criou um universo singular. Nele convivem em sábio equilíbrio a jornada e a captação do mundo e da História: habitantes provisórios, porque fundamente humanos; melodiosos, porque cientes de um mister poético; encantatórios, por resultarem de uma alquimia em que a interpretação fica aquém do que se frui. Uma poesia da reflexão e da memória, do gesto e da preservação deliberada. H.P.S.


5

8

8 de Gil de Carvalho | Alambique

Dois anos após Dafne ‘Scorcos (Alambique), Gil de Carvalho retoma em 8 a dupla inscrição espanhola e oriental daquele livro, sublimada nos versos de um dos seus poemas: “Certa filha da Ásia é uma folha de hera" e “A fechadura é um desperdício como na Espanha alta”. Poesia desde sempre como viagem e segredo, gesto singular e sortilégio. Renovação constante de gestos oblíquos e surpresas dos sentidos. H.P.S.


4

Poesia Quase Toda

Poesia Quase Toda de Zbigniew Herbert | Trad.: Teresa Fernandes Swiatkiewicz | Cavalo de Ferro

Esta antologia, que reúne grande parte da obra do poeta polaco entre 1956 e 1998 (ano da sua morte), inclui nove livros e três "poemas dispersos". Considerado uma das figuras mais marcantes da literatura europeia do século XX, a sua obra poética inspira-se na história e na filosofia, sem deixar de lado o indivíduo. Foi diversas vezes proibido de publicar no seu país pelo regime estalinista. J.R.D.


3

Enublado Dizes

Enublado Dizes de Marco Foz | Bestiário

Em Marcos Foz, a poesia é diálogo tenso e profícuo entre audácia e desvelo, comunhão e estranhamento. Trata-se de ousar sempre: na forma e na dicção. Existir na intensidade de um lirismo que nunca deixa de ser auscultação de si mesmo, mas também da palavra e da pertença no mundo. Enublado Dizes, desde o título, insinua uma coloquialidade truncada, interrompida, nimbada de enigmas e estímulos. H.P.S.


2

Ainda o Lugar Incerto da Procura

Ainda o Lugar Incerto da Procura de Inês Lourenço | Glaciar

Os poemas reunidos neste livro tomam a poesia – ou, em geral, as coisas da poesia – como a sua matéria temática. Pode parecer uma via esgotada, algo que provoca actualmente um certo enfado, mas a verdade é que Inês Lourenço, com subtileza, sem nunca cair no lado enfático da poesia da poesia e conseguindo integrar o plano da vida e da contingência pessoal, foge com perícia e rigor aos perigos anunciados. A.G.


1

Metal de Fusão

Metal de Fusão de Fernando Guerreiro | Black Sun Editores

Podemos apostar que este livro terá direito ao podium muito para além do curto prazo de um “balanço” anual e projectar-se-á num tempo longo. E que o autor tenha prescindido de inscrever na capa o seu nome, assim como o título, isso só remete o livro para um grau zero da “publicidade” que despudoradamente aqui quebramos, depois de sermos submetidos à sua força interna. Impresso na recta final de 2023, chegou à generalidade das livrarias em 2024. Na abertura, em jeito de subtítulo, está escrito “uma teoria da imagem”. Como Baudelaire, Fernando Guerreiro glorifica o culto das imagens (da pintura, do cinema, da fotografia).

Esta poesia serve-se dessas mediações e entrega-se muitas vezes ao exercício da écfrase, da descrição das imagens. Mas isso, que poderia ser uma queda no esteticismo ou no ornamento cultural, é exactamente o contrário. O resultado é uma poesia que nunca vacila na sua negra intensidade e confronta-nos com um mundo de espectros, monstros, demónios, escombros, corpos em carne viva, vermes. Só uma escrita visceral consegue estar à altura desta violenta matéria temática. A.G.