Cinco pontos para entender o desperdício de cérebros em Portugal
Veja alguns dos números que descrevem os desafios que os imigrantes qualificados enfrentam ao entrarem no mercado de trabalho português.
Foto: Tiago Berardo Lopes
Uma análise do PÚBLICO — em parceria com a Lighthouse Reports, El País, Financial Times e Unbias News — aos dados do European Labour Force Survey (EU-LFS) revela que existe uma diferença clara entre os trabalhadores qualificados nascidos em Portugal e aqueles que vieram trabalhar para o país. Olhemos para alguns dos principais números.
Como Portugal se compara com a Europa
Comecemos pelo quadro geral. Embora Portugal apresente diferenças entre trabalhadores qualificados nacionais e nascidos fora do país, está abaixo da média europeia relativamente à diferença de sobrequalificação entre estes dois grupos. Dos países do sul da Europa, é até o que apresenta a diferença mais baixa entre migrantes e nacionais sobrequalificados: cerca de 40% dos estrangeiros trabalham abaixo das suas qualificações, mais 13% que a proporção de cidadãos nacionais, com 27% neste indicador.
Diploma português é determinante para trabalhar na área de formação
Estudar em Portugal é meio caminho andado para uma boa integração dos imigrantes no mercado de trabalho português. Cerca de 30% dos profissionais estrangeiros que estudaram numa universidade portuguesa são sobrequalificados para a posição que ocupam, um número ligeiramente superior aos cidadãos nacionais. A parcela de sobrequalificados dispara para 65% quando se trata de um imigrante com diploma estrangeiro.
A maior parte dos reconhecimentos estrangeiros é automática
Apesar do ponto anterior, a procura pelo reconhecimento de graus e diplomas de ensino superior estrangeiros em Portugal tem crescido desde que o processo foi padronizado, em 2019. Perto de 27 mil diplomas foram reconhecidos até Outubro de 2023, com o número anual a aumentar consecutivamente desde a implementação das alterações legislativas.
Imigrantes do Sul Global saem-se melhor em Portugal
Portugal também se destaca na diferença de integração no mercado de trabalho de imigrantes do Norte e Sul Global. Os imigrantes do Sul Global – África, Ásia, América Latina e Central e nacionais de países terceiros (NPT) – têm menos 12,6% de probabilidade de estarem em empregos sobrequalificados, menos 0,8% de estarem subempregados e menos 8,4% de terem contratos a termos do que os imigrantes do Norte Global (Europa, América do Norte e Oceânia).
De que falamos quando falamos de desperdício de cérebros de imigrantes?
Havendo diferentes indicadores para medir o desperdício de cérebros, o consórcio de jornalistas de dados olhou para três indicadores:
- sobrequalificação: ocorre quando indivíduos aceitam empregos muito abaixo do nível de competências, como um médico a trabalhar como assistente de enfermagem, determinado por níveis de educação que excedem os requisitos para o trabalho.
- subemprego: refere-se a quem trabalha menos horas do que deseja, como um professor a tempo parcial que procura um emprego a tempo inteiro.
- desemprego: descreve aqueles que procuram activamente trabalho, mas não conseguem encontrar, excluindo aqueles impossibilitados de trabalhar devido a invalidez.
Diferenças também existem entre homens e mulheres
O desperdício de cérebros também atinge de forma diferente imigrantes conforme o género. Os dados mostram que a diferença de sobrequalificação é de cerca de 10% entre imigrantes e cidadãos nacionais homens, com a diferença a fixar-se nos 14% quando olhamos para as mulheres. O mesmo acontece no que diz respeito ao subemprego (diferença de quase 1 ponto percentual entre homens e mulheres) e ao desemprego (1,43 p.p.).
Brain Waste é uma investigação internacional que resulta da colaboração entre os seguintes órgãos de comunicaçao social europeus:
Os dados citados neste trabalho foram obtidos pela Lighthouse Reports, uma redação de jornalismo investigativo, que teve acesso exclusivo aos microdados do European Labor Force Survey, publicado pelo Eurostat. Estes dados estão normalmente apenas disponíveis para investigadores e académicos.
Para além da sua prórpria análise e conclusões, colaboraram ainda com as equipas de jornalismo de dados do PÚBLICO, El País,The Financial Times que trabalharam com os jornalistas desta equipa na análise e interpretação dos dados. Unbias the News encomendou e publicou histórias de jornalistas freelancers na Suécia, Itália e Portugal.
A metodologia completa pode ser lida neste link (em inglês).
Todos os números e visualizações mencionados neste trabalho referem-se aos dados recolhidos entre 2017-2022, excepto para o Reino Unido, que só contribuiu para este inquérito até 2019.
Para todos os indicadores apresentados foi testada a significância estatística da diferença entre imigrantes e nativos. Nos casos em que a diferença não foi estatisticamente significativa, optou-se por não utilizar essa informação.
Uma vez que alguns países tinham amostras pequenas, optou-se por juntar alguns países em grupos de países, como é o caso do grupo Visegrad, dos países bálticos, os balcãs e a Bulgária/Roménia. (Bulgária e Roménia).
Os dados para a Alemanha não estão disponíveis no inquérito original.
Contribuíram para este projecto os seguintes jornalistas:
Beatriz Ramalho da Silva, Eva
Constantaras, Justin Casimir Braun, Maud Jullien, Tessa Pang, Halima Salat Barre, Ella Hollowood,
Alan Smith, John Burn-Murdoch, Daniele Grasso, Borja Andrino, Emilio Sanches Hidalgo, Maria Martin
Delgado, Christina Lee, Justin Yarga, Gabriela Ramirez, Pablo Linde, Rui Barros, José Volta e Pinto,
Ana Maria Henriques, Joana Bourgard, Joana Gonçalves, Tiago Bernardo Lopes

