“Partimos do princípio de que o mundo em que vivemos é o melhor mundo possível. E isso é um disparate”

Uma das investigadoras mais destacadas a explicar fenómenos climáticos extremos, Friederike Otto, quer falar sobre justiça climática e o outro mundo que é possível sem combustíveis fósseis.

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“Ainda não temos narrativas cool para o que pode ser a alternativa” aos combustíveis fósseis, diz Fredi Otto Stefanie Loos/DR
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Quando uma seca, uma cheia ou outro fenómeno climático extremo acontece, quando é que podemos – e até que ponto – culpar as alterações climáticas? A ciência climática é complexa, mas há uma década que um grupo de cientistas tem trabalhado para que a atribuição de “culpas” não demore anos a chegar. Aos 41 anos, a alemã Friederike Otto é uma das investigadoras climáticas que mais se têm destacado na comunicação sobre estes fenómenos extremos, liderando a colaboração internacional World Weather Attribution (WWA), que criou em 2014 com o neerlandês Geert Jan van Oldenborgh (falecido em 2021).

Investigadora do Instituto Grantham do Imperial College de Londres, depois de passar pela Universidade de Oxford, “Fredi” (como é mais conhecida) insiste que o debate sobre as alterações climáticas já não pode ser feito sem olhar também para a justiça climática e não baixa os braços na procura de narrativas para dar a volta à ideia de que não é possível fugir aos combustíveis fósseis.

Qual era o panorama antes de reunirem este grupo World Weather Attribution? O que acha que mudou nos últimos anos, quando começaram a aplicar esta metodologia mais rápida?
Antes de fazermos o World Weather Attribution já acontecia que, sempre que ocorriam fenómenos meteorológicos extremos, as pessoas faziam a pergunta: qual é o papel das alterações climáticas? E muitas pessoas tinham opiniões sobre isso. A única comunidade que não dizia nada era a comunidade científica; por isso, a informação que havia era apenas orientada por agendas políticas, não por provas concretas.

O nosso objectivo era dizer: “Bem, provavelmente podemos fazer estes estudos rápido o suficiente para fornecer provas no rescaldo destes acontecimentos extremos, quando as pessoas estão a fazer esta pergunta.” E funcionou. As pessoas estão agora muito mais conscientes. Talvez não em todo o lado. Em países como o Reino Unido ou os EUA há uma maior consciencialização, mas ainda há lugares onde esta ligação é muito menos reconhecida. Mas em muitas partes do mundo existe agora um entendimento muito melhor de que, de facto, as alterações climáticas se manifestam na mudança de fenómenos meteorológicos extremos e que é possível demonstrá-lo cientificamente.

A própria comunicação de ciência vai evoluindo. Ainda estamos a aprender como fazer com que o público em geral se preocupe com esta questão. Acha que os factos funcionam e são o mais importante de comunicar? Ou é preciso fazer um trabalho diferente para ser mais eficaz?
Os factos por si só não são suficientes. A razão de termos originalmente começado isto e pela qual ainda acho que eventos climáticos extremos são um bom gancho para falar sobre as alterações climáticas e os seus impactos é porque ali conseguimos ligar a experiência com os números e com os factos. Estes eventos extremos funcionam como uma espécie de lente para a sociedade e é possível perceber o que funciona e o que não funciona, quem são os diferentes tipos de pessoas nesta cidade ou nesta região... É o tipo de informação que, em termos de comunicação, poderíamos usar muito melhor, porque é algo que também interessa aos jornais locais – se conseguíssemos chegar a eles. Seria importante se conseguíssemos mostrar, por exemplo, que as alterações climáticas são, de facto, a razão pela qual acabou de se perder uma colheita ou algo do género. Penso que isso funciona, mas não é assim tão fácil chegar a esses meios.

No vosso estudo recente sobre a Amazónia, por exemplo, há uma secção sobre as populações vulneráveis e de como esta vulnerabilidade exacerbou o impacto da seca nas populações. E mostra também quais são as medidas que ajudaram. Mostrar as soluções faz parte daquilo em que devemos apostar a seguir?
Sim, acho que sim. Quando se escreve sobre fenómenos meteorológicos extremos e se dizem coisas como “as alterações climáticas foram um grande motor desta seca na Amazónia e só está a piorar”, isso é uma mensagem desempoderadora, de certa forma, porque a maioria das pessoas sente que não pode fazer nada ou que não tem muito poder para mudar o mundo a esta escala. Mas quando se acrescenta que muitos dos impactos poderiam ter sido evitados, se tivéssemos melhores sistemas de alerta precoce ou um melhor planeamento para chegar às comunidades vulneráveis, é algo que devolve alguma acção às pessoas. Isso é muito importante, e seria importante incluir mais vezes. Mas também do nosso lado estamos a ter dificuldades. Temos um protocolo e uma estrutura muito clara de como trabalhar os números e a ciência, mas com a vulnerabilidade é sempre muito diferente. Temos de ser criativos na forma de o expressar, de o formular, e isso é algo com que ainda nos debatemos.

Numa entrevista à revista New Statesman disse: “Estamos a contar a história errada sobre as políticas climáticas.” Qual seria a história correcta?
A história que normalmente contamos sobre as políticas climáticas é que temos de mudar o nosso modo de vida, temos de fazer cortes, por aí em diante. Não falamos sobre o que ganhamos quando mitigamos as alterações climáticas. Ao mudarmos dos combustíveis fósseis para energias renováveis, por exemplo, não mudamos apenas a forma como obtemos a nossa energia, como também há menos poluição. A forma como precisamos de redesenhar as nossas cidades significa que serão lugares muito mais agradáveis para viver. Fala-se sempre do facto de estarmos a tirar alguma coisa, não se fala tanto sobre o que de facto ganhamos. Partimos sempre do princípio, talvez não explicitamente, mas implicitamente, de que o mundo em que vivemos actualmente é o melhor mundo possível, e que cada mudança que fazemos está a retirar algo. E isso é, obviamente, um disparate.

Uma narrativa de privação.
Isso. Seria importante mudar isso e falar mais sobre o que ganharíamos. Quando falamos de alterações climáticas, muitas vezes só falamos de coisas físicas e de soluções técnicas. Mas o que as alterações climáticas acabam por fazer, em última análise, e este estudo sobre a Amazónia mostra isso, é afectar as pessoas que menos contribuíram, e está realmente a aumentar a desigualdade. Quando se negoceiam grandes compromissos nas conferências sobre o clima, por exemplo, por vezes são feitas algumas concessões para talvez chegarmos aos dois graus ou assim. Mas, na realidade, essa concessão que se está a fazer é pelo lucro de muito poucas pessoas com a venda de combustíveis fósseis em detrimento de direitos humanos muito básicos da grande maioria da população, como o direito à vida, o direito a uma casa, o direito à água. É essa concessão que se está a fazer, e que estranho equilíbrio é esse. Isso não é dito muitas vezes.

Muitas vezes tenta-se puxar o discurso para a questão da economia, de que a transição energética vai trazer crescimento, criar emprego. Como é que conciliamos este tipo de narrativa com o facto de a nossa ideia de crescimento económico ser precisamente um dos obstáculos para uma acção climática mais firme?
O erro, digamos assim, que é frequentemente cometido é dizermos que “não podemos ter crescimento económico” e as pessoas interpretarem isso erradamente, como se o que se estivesse a propor fosse voltar para as cavernas ou algo do género. O que precisamos de falar é sobre que tipo de crescimento económico queremos. Neste momento, só se mede o PIB, e por isso não importa quem é que está a gerar lucro. Se for apenas uma grande empresa a vender combustíveis fósseis, isso é tão bom quanto se forem muitas empresas diferentes, mais pequenas, o que significaria que a riqueza da população em geral e o nível de vida da população estariam a aumentar. Se falarmos de crescimento sem falarmos de igualdade e de qualidade de vida, é isso que está errado. Não acho que o crescimento em si seja errado.

Dizia há pouco que os factos e a ciência não serão suficientes para construir a narrativa que precisamos sobre a transição climática. Na Europa há uma reacção contra as políticas climáticas, está a tornar-se uma luta cultural. Como é que poderíamos travar este retrocesso? Qual seria a narrativa que poderíamos trazer?
Gostava de ter uma boa resposta para isso. O que nos está a faltar nesta guerra cultural, e o sistema actual usa e abusa, é que o mundo dos combustíveis fósseis tem narrativas e símbolos bastante poderosos. Por exemplo, conduzir um carro na Route 66, de uma costa à outra dos Estados Unidos, é um símbolo poderoso de liberdade com que qualquer pessoa pode identificar-se. Está ligado a um mundo que nós já não queremos, mas o tipo de simbolismo que está ali é bastante poderoso. Ainda não temos narrativas cool, ou ícones e histórias poderosas e fortes para o que pode ser a alternativa. Esse é um grande problema. As pessoas que querem um mundo livre de combustíveis fósseis e um mundo mais igualitário falam das coisas que já não podemos fazer, e o que fazem é apenas acenar com os sinais e os números, o que não é a mesma coisa. Isso é algo que nos está realmente a faltar para chegar a uma maioria.

O humor pode ser uma boa ferramenta para comunicar este tipo de coisas? Será que isto pode fazer parte da receita?
O humor é muito importante. Fazer coisas disparatadas, fazer coisas exageradas. Sermos responsáveis, mas usar todos os outros canais que não estamos a usar neste momento.

No World Weather Attribution estão sempre a estudar catástrofes, a olhar precisamente para as coisas que fazem com que as pessoas por vezes evitem as notícias sobre o clima. O humor ajuda-vos?
Para mim, sim, o humor com certeza ajuda. O colega com quem fundei a World Weather Attribution, que faleceu há alguns anos, dizia sempre que “fazemos isto porque é importante e porque é divertido”. Para o ambiente da equipa, foi sempre importante tentar fazer piadas e fazer com que não seja tão sombrio.

O que também ajuda, quando olhamos para estas catástrofes, é olhar para as coisas que correram bem, e não apenas as que correram mal. Nas vagas de calor na Índia, que temos analisado ao longo dos anos, actualmente o governo está muito mais bem preparado e o número de mortes é muito inferior. É possível ver que as coisas estão a mudar. A situação é, na realidade, menos sombria do que as pessoas pensam. É claro que há muitas catástrofes e muitas coisas realmente más, mas nas notícias só se vêem as coisas más, e quando olhamos para tudo isso e cruzamos as coisas, também vemos algumas das coisas que estão realmente melhores.

Nos fenómenos extremos que analisaram nos últimos anos, quais foram os resultados mais surpreendentes ou difíceis? Enquanto cientista, quando começa a analisar um fenómeno, talvez parta com algumas expectativas.
Um estudo que teve um resultado realmente surpreendente para mim, de uma forma menos boa, foi um estudo que fizemos sobre inundações na Nigéria e nos Camarões. Na maioria dos estudos de atribuição sobre fenómenos de cheias, descobrimos que as alterações climáticas duplicaram a probabilidade do acontecimento, ou talvez se tenham tornado três vezes mais prováveis. Mas, naquele caso, descobrimos que as alterações climáticas tornaram o acontecimento 80 vezes mais provável, uma ordem de grandeza muito diferente. E isso chamou-me mesmo a atenção. O facto de as médias globais poderem não ser assim tão informativas a nível local. (pausa) Este foi um dos exemplos recentes em que fiquei surpreendida.

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Quanto mais se faz isto, mais rapidamente percebemos qual será o resultado, mas, por exemplo, o facto de haver um sinal tão forte na precipitação para esta seca na Amazónia também era algo que eu não esperava ver tão claramente. E já participei em estudos sobre a seca na Amazónia que mostraram que as emissões nos últimos anos, e as emissões continuam a aumentar, fizeram uma grande diferença. Não se trata de uma frase vazia, dizer que cada décimo de grau de aquecimento faz uma grande diferença. É algo que fica muito claro.

Hoje em dia fala-se mais sobre incluir cientistas do Sul global, em particular nos estudos sobre os seus territórios. Como é que este debate sobre desigualdades e estas “invisibilidades” tem sido abordado no vosso grupo de trabalho?
Estamos a tentar incluir as pessoas e isso nem sempre é fácil. É complexo, é difícil. Por exemplo, quando fizemos o estudo com a Nigéria, havia muitos cientistas da Nigéria que queriam participar, mas tivemos muita dificuldade em comunicar porque eles tinham a sua ideia de como fazer o estudo científico, e nós tínhamos os nossos métodos. Não conseguimos [comunicar tão bem], sobretudo, porque fizemos o estudo muito rapidamente. Quando se tem mais tempo, é possível evoluir nesse sentido. É por isso que, por exemplo, desta vez, com os colegas brasileiros, funcionou muito bem, porque não foi a primeira vez que trabalhámos com eles, foi o terceiro estudo que realizámos juntos, entendemo-nos muito melhor agora. A verdadeira luta é: como é que podemos fazer com que isto funcione? Como podemos aprender rápido o suficiente para compreendermos o que eles têm para contribuir de forma a podermos incluí-lo num estudo rápido? Esse é realmente o maior desafio.

Qual é a importância destes estudos de atribuição, que relacionam fenómenos concretos directamente às alterações climáticas, em termos de litigância climática?
A atribuição é um elo importante na cadeia causal. Há muito tempo que sabemos quem está a emitir e que essas emissões aumentam os gases com efeito de estufa na atmosfera, algo que provoca o aquecimento. Podemos medi-lo. E este aquecimento da atmosfera é efectivamente mau e tem consequências desastrosas, e é essa a ligação que estes estudos de atribuição proporcionam. Mesmo que não se utilize um estudo individual sobre um fenómeno específico como prova num caso em tribunal, é o facto de se poder fazer isto e de termos agora muitas provas e muitos casos diferentes que torna possível esta litigância.

Na Europa, já tiveram casos específicos em que as vossas análises contribuíram para alguma decisão judicial?
Há casos em curso em que os nossos estudos fazem parte das provas. Sei de um na Austrália em que o nosso trabalho foi usado. Fizemos um estudo sobre os incêndios florestais em 2019/2020, e esse estudo foi utilizado como prova num processo movido por uma ONG chamada Bushfire Survivors contra a agência ambiental australiana. Nesse caso, fazia explicitamente parte das provas e foi bem-sucedido. Mas esse é o único que conheço que tenha tido um resultado. Há outro caso em curso, mas que acabou de começar no estado de Oregon (EUA), sobre a onda de calor em 2021, que usa o nosso estudo como parte das provas. Provavelmente, levará anos até que algo aconteça.

O que se segue na sua carreira? Fez parte de um dos grupos de trabalho do IPCC no ciclo anterior, vai continuar?
Ainda não sei, as nomeações ainda não saíram. É um trabalho importante e que também é muito importante para a questão sobre os cientistas do Sul global, porque é aí que têm muito mais tempo para trabalhar em conjunto e podem construir melhores relações e redes.

E o WWA, vai continuar? Quanto do seu tempo dedica ao projecto?
Ocupa muito do meu tempo. Não quero fazer isto para o resto da minha vida, mas ainda não tenho grandes planos para fazer algo muito diferente. Tenho um novo livro que acaba de ser publicado em alemão [Injustiça climática: O que a catástrofe climática tem a ver com o capitalismo, o racismo e o sexismo, em tradução livre], foi um grande projecto que concluí no final do ano passado. Estou agora a trabalhar na tradução para inglês, vai ser traduzido também para italiano. Gosto de escrever livros porque nos permite juntar tudo o que aprendemos ao longo dos anos numa coisa só, e podemos usar uma linguagem mais simples, não é preciso aquela forma científica muito rígida de o fazer.

E sobre o que seria esse livro? Ainda algo sobre "Angry weathers"? É muito inspiradora a forma como fala sobre narrativas.
Isso é algo que sinto que é necessário. Ainda não sei como, mas penso que é disso que precisamos realmente. Talvez precise de encontrar um artista fixe, ou talvez deva ser um romance. Veremos.