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As condições "ideais" que levaram ao maior surto de dengue no Bangladesh

As alterações climáticas estão a proporcionar as condições ideais para a reprodução do mosquito transmissor da dengue. 

Os pais alimentam o seu filho infectado com dengue enquanto recebem tratamento no Mugda Medical College and Hospital em Daca REUTERS/Fatima Tuj Johora
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Os pais alimentam o seu filho infectado com dengue enquanto recebem tratamento no Mugda Medical College and Hospital em Daca REUTERS/Fatima Tuj Johora

O número de mortos no surto de dengue no Bangladesh em 2023 era de 1476 a 12 de Novembro, com 291.832 infectados, segundo dados oficiais. Os hospitais têm tido dificuldade em lidar com o número crescente de doentes no país sul-asiático densamente povoado. O número de mortos este ano foi mais de cinco vezes superior ao de 2022, ano em que o Bangladesh registou 281 mortes relacionadas com a dengue, e foi o mais mortífero desde que as autoridades começaram a registá-las em 2000.

Kabirul Bashar, entomologista e professor de zoologia na Universidade de Jahangirnagar, no Bangladesh, passou grande parte da sua carreira a estudar os mosquitos e disse que nunca tinha visto um surto tão grave nos seus 25 anos de investigação.

"A temperatura, a precipitação e outros componentes estão a mudar de padrão devido às alterações climáticas. Estamos a assistir a chuvas do tipo monção em meados de Outubro, o que é invulgar", disse à Reuters. "Estas mudanças de padrão sazonal estão a criar a situação ideal para a reprodução do mosquito Aedes. O Aedes está a adaptar-se a estas mudanças".

A dengue é comum no Sul da Ásia durante a estação das monções, de Junho a Setembro, uma vez que o mosquito Aedes aegypti, que propaga a doença, se desenvolve em águas estagnadas. Este tipo de mosquito reproduz-se normalmente em água limpa e alimenta-se durante o dia, transmitindo a doença, também conhecida como "febre dos ossos quebrados" devido às fortes dores musculares e articulares que provoca.

"Após três anos de experiências, chegámos finalmente à conclusão de que o Aedes pica durante todo o dia", disse Bashar, o único especialista científico do comité nacional anti-dengue do país. "Além disso, consegue reproduzir-se com sucesso, mesmo em esgotos sujos e em água salgada do mar, [para] completar o seu ciclo de vida."

Este foi o primeiro ano em que foram registados casos de dengue em todos os 64 distritos do país, cuja população total é de cerca de 170 milhões de habitantes.

Bashar afirmou que a vigilância dos vectores – um exame minucioso da forma como a doença se está a propagar é agora necessária durante todo o ano no Bangladesh.

A maioria das pessoas que contrai dengue não apresenta sintomas, pelo que o número de casos pode ser muito superior aos números registados.

"Este ano, temos visto sintomas diferentes de dengue", disse à Reuters o médico Janesar Rahat Faysal. "Alguns pacientes que vieram apenas com sintomas de tosse foram diagnosticados com dengue. Isso é alarmante".

Não existe uma vacina ou um medicamento que trate especificamente a dengue, mas a detecção precoce e os cuidados médicos adequados podem reduzir as mortes para menos de 1% das pessoas infectadas, segundo os especialistas.

Os hospitais do Bangladesh têm estado a transbordar de doentes, ao mesmo tempo que enfrentam uma escassez de fármacos cruciais para o tratamento de casos graves.

"Tive de tratar de dois doentes com dengue, a minha irmã e a minha sobrinha. Não encontrei camas adequadas para elas no hospital. Por isso, tive de as tratar em casa", disse Sirazus Salekin Chowdhury, que vive na capital, Daca. "Estava a lutar para encontrar soro intravenoso".

Uma fêmea de mosquito alimenta-se de sangue para fins reprodutivos no laboratório de entomologia da Universidade de Jahangirnagar
Uma fêmea de mosquito alimenta-se de sangue para fins reprodutivos no laboratório de entomologia da Universidade de Jahangirnagar REUTERS/Fatima Tuj Johora