Arte românica em Portugal reunida em enciclopédia de três volumes

Projecto que associa universidades do Porto e fundações espanholas apresenta uma “visão integral” da presença do românico no território nacional. São duas mil páginas, com 294 entradas de 24 autores.

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O Mosteiro de Sao Martinho de Mancelos é um dos muitos exemplares de arquitectura religiosa românica no Norte do país Ana Marques Maia
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A arte românica em Portugal foi documentada e sistematizada na Enciclopédia do Românico em Portugal, que resultou de um trabalho de cinco anos e envolveu mais de vinte investigadores nacionais.

A Enciclopédia do Românico em Portugal, recentemente apresentada em Madrid, está integrada na Enciclopédia do Românico na Península Ibérica, um projecto da Fundação Santa Maria La Real.

O projecto desta fundação espanhola nasceu em 2002, conta já com 65 volumes publicados (o do românico em Portugal tem três volumes, com mais de duas mil páginas) e ganhou um prémio Europa Nostra em 2003, um galardão de organizações europeias relacionado com o património cultural.

Segundo as informações divulgadas na apresentação pública em Madrid, os volumes da Enciclopédia do Românico em Portugal (publicados em português) foram financiados integralmente (num valor de 200 mil euros) por outra entidade espanhola, a Fundação Rámon Areces, e resultam de um protocolo das duas entidades com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, assinado em 2018.

A coordenação científica é de quatro investigadores desta faculdade: Maria Leonor Botelho, Mário Jorge Barroca, Lúcia Maria Cardoso Rosas e César Guedes.

O projecto contou ainda com uma equipa de arquitectos, também portugueses, que teve a coordenação científica de Teresa Cunha Ferreira, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, e que elaborou levantamentos e trabalhos de desenho de plantas, alçados e cortes dos mais significativos monumentos.

Segundo disse à Lusa uma das coordenadoras científicas, Maria Leonor Botelho, "a concretização deste ambicioso projecto" contou ainda com protocolos com entidades portuguesas, como a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), a Direcção Regional da Cultura do Norte (DRC-N) e a Rota do Românico.

"Em termos do que é o conhecimento do românico em Portugal, penso que criámos um novo patamar", disse Maria Leonor Botelho, que explicou que a arte românica é estudada "há largos anos", com a primeira publicação em português a datar de 1870, mas sem que houvesse ainda "esta visão integral".

"Falamos de um conjunto de muitas publicações dispersas, que não tinham esta visão integral, que acaba por estabelecer um ponto de situação sobre aquilo que se conhece, aquilo que não se conhecia (...), a possibilidade de escrever sobre testemunhos que nunca tinham sido estudados nos seus contextos territoriais", afirmou a investigadora.

Para Maria Leonor Botelho, esta enciclopédia "coloca também o românico português não só no mapa nacional, valorizando o conhecimento, mas também no mapa internacional, integrando-o nesta grande linguagem artística europeia".

A investigadora defendeu que a obra abre também a possibilidade de criar uma "plataforma de discussão muito interessante" entre a academia portuguesa e outros parceiros e de chegar a "novos caminhos de investigação e de contributo para a exploração e desenvolvimento do território local", onde a arte românica está presente.

Maria Leonor Botelho afirmou ainda que uma obra desta dimensão e com estas exigências só foi possível com o financiamento que a Fundação Ramon Areces disponibilizou, realçando que o trabalho desenvolvido pela equipa de investigadores não se resumiu a escrever e envolveu nova pesquisa em fontes escritas e deslocações ao terreno.

"Foi um trabalho muito demorado, muito exigente, para chegarmos a esta versão final", afirmou, acrescentando que o processo sofreu o impacto da pandemia de covid-19, que impôs diversas limitações.

A Enciclopédia do Românico em Portugal tem 294 entradas de 24 autores sobre os testemunhos da época românica que subsistem em Portugal.

A maioria (172 entradas) são monumentos de arquitectura românica religiosa (seis catedrais, oito capelas, 38 mosteiros e 120 igrejas).

Há também arquitectura militar (31 castelos que mantiveram preservadas as principais características de um reduto militar românico"), arquitectura civil (pontes e paços), vestígios de cariz funerário ou elementos de escultura e ourivesaria, entre outros.

A arquitectura românica tem testemunhos em Portugal que remontam às duas últimas décadas do século XI e ao princípio do século XII, mas há "uma cultura arquitectónica que se mantém além do tempo próprio do românico" e que "teve uma forte influência" nos séculos XII, XIV ou mesmo no século XV, explicam os coordenadores da enciclopédia num texto de apresentação da obra.

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