Refugiados

O retrato vívido e cru de uma operação de resgate de migrantes no Mediterrâneo

Em Janeiro de 2023, a bordo de um bote salva-vidas em pleno mar Mediterrâneo, Mikkel Hørlyck fotografou e auxiliou os Médicos Sem Fronteiras no resgate de mais de 100 migrantes. Em 2022, mais de 1200 pessoas perderam a vida a tentar chegar à Europa.

Sobreviventes a bordo do bote salva-vidas da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras, no Mar Mediterrâneo ©Mikkel Hørlyck
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Sobreviventes a bordo do bote salva-vidas da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras, no Mar Mediterrâneo ©Mikkel Hørlyck

Em Outubro de 2022, Loujin, uma menina síria de quatro anos, morreu após passar vários dias à deriva num barco, no mar Mediterrâneo. Poucos dias depois, as vidas de três crianças de um, dois e três anos e de três mulheres tiveram o mesmo trágico desfecho, tendo sucumbido à sede, à fome e a queimaduras severas.

Os seus casos não são casos isolados. Longe disso. Mais de 1.200 pessoas morreram, em 2022, a cruzar o Mediterrâneo numa tentativa de chegar à Europa. "É importante continuar a falar sobre isto porque continua a acontecer", sublinha o fotógrafo dinamarquês Mikkel Hørlyck que, durante as duas primeiras semanas de 2023, acompanhou as operações de resgate de migrantes no Mediterrâneo levadas a cabo pela organização de ajuda humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF).

O ano de Mikkel começou de forma inusitada, a bordo de um bote salva-vidas na extensão de água que separa a Líbia de Itália. Não esquecerá tão cedo a noite do dia 1 de Janeiro. "Foi quando a experiência mais dramática aconteceu", conta em entrevista ao P3. "Aproximámo-nos de uma embarcação que vinha da Líbia, com 41 pessoas a bordo. Subitamente, após a equipa de resgate ter distribuído coletes salva-vidas pelos migrantes, o barco virou-se. As 41 pessoas caíram na água."

O medo e o pânico assumiram o controlo dos náufragos. "As suas roupas molhadas dificultavam os seus movimentos", explica. Os técnicos a bordo de Mike e Orca, os dois botes salva-vidas dos MSF, resgataram, um a um, com grande esforço físico, todos os migrantes que flutuavam. Nas imagens, o medo está patente nos olhares de quem ainda aguarda ser içado para os botes e a sensação de alívio e mesmo de alegria é evidente nos olhares de quem já foi salvo. Os migrantes foram encaminhados para o barco Geo Barents e encaminhados para o porto de Taranto, em Itália, onde "tiveram de escolher entre pedir asilo, ser repatriados ou tentar escapar em direcção a outro país europeu". 

A segunda operação de resgate que Mikkel acompanhou ocorreu durante o dia de 7 de Janeiro e envolveu o resgate de 73 pessoas, 57 homens e 16 rapazes adolescentes que provinham da Líbia. Todos foram salvos. Desde 2015, a organização humanitária resgatou cerca de 87 mil pessoas do Mediterrâneo; de Maio de 2021 até ao presente, 5.900 pessoas foram salvas.

"Não tive oportunidade de fazer entrevistas", explica o dinamarquês. Para além da barreira linguística, "aquilo que lhes tinha acontecido, antes e durante o resgate, era demasiado intenso para ser abordado naquele contexto". "Sei que muitos tiveram experiências terríveis antes e durante a travessia." 

Para o fotógrafo de 32 anos, acompanhar as operações dos MSF "foi intenso e especial" porque, para além de fotografar, pôde também auxiliar os técnicos durante os salvamentos. "Fiquei muito impressionado com o seu grau de profissionalismo. Aquilo que os MSF fazem no mar Mediterrâneo é muito importante." Mikkel espera, com o projecto The Mercilessness of the Sea, que integra outro de âmbito mais largo sobre migrações, No Man's Land, que desenvolve desde 2016, "que as pessoas sejam informadas" sobre o que se passa no Mediterrâneo e que possam sentir, através das imagens, "como é vir de tão longe e realizar esta travessia".

Dias de treino dos Médicos Sem Fronteiras antes da operação de busca e salvamento junto à costa da Líbia. Recebem formação em primeiros socorros, manobras práticas e tácticas sobre como salvar vidas de migrantes e refugiados em perigo no alto mar.
Dias de treino dos Médicos Sem Fronteiras antes da operação de busca e salvamento junto à costa da Líbia. Recebem formação em primeiros socorros, manobras práticas e tácticas sobre como salvar vidas de migrantes e refugiados em perigo no alto mar. ©Mikkel Hørlyck
O líder do barco "Orca" dá instruções aos sobreviventes
O líder do barco "Orca" dá instruções aos sobreviventes ©Mikkel Hørlyck
A condutora do barco "Mike" observa as águas do Mediterrâneo em busca de embarcações em necessidade de intervenção
A condutora do barco "Mike" observa as águas do Mediterrâneo em busca de embarcações em necessidade de intervenção ©Mikkel Hørlyck
Subitamente, o barco líbio vira-se e todos os que estão a bordo, 41 pessoas, são projectadas para as águas do Mediterrâneo
Subitamente, o barco líbio vira-se e todos os que estão a bordo, 41 pessoas, são projectadas para as águas do Mediterrâneo ©Mikkel Hørlyck
As 41 pessoas do barco em perigo estão na água, em pânico, mas os líderes dos barcos "Orca" e "Mike" decidem rapidamente fornecer coletes salva-vidas à embarcação em apuros. As 41 pessoas conseguiram agarrar  os coletes antes de caírem na água em resultado do naufrágio do barco onde seguiam.
As 41 pessoas do barco em perigo estão na água, em pânico, mas os líderes dos barcos "Orca" e "Mike" decidem rapidamente fornecer coletes salva-vidas à embarcação em apuros. As 41 pessoas conseguiram agarrar os coletes antes de caírem na água em resultado do naufrágio do barco onde seguiam. ©Mikkel Hørlyck
O líder do barco "Mike" utiliza uma vara de salvamento para chegar até às pessoas que se encontram nas águas. Na imagem, o técnico assiste um homem na tarefa de se aproximar do bote de salvamento. Quando estiver junto à embarcação, o náufrafo será içado para dentro do barco por membros da equipa dos MSF.
O líder do barco "Mike" utiliza uma vara de salvamento para chegar até às pessoas que se encontram nas águas. Na imagem, o técnico assiste um homem na tarefa de se aproximar do bote de salvamento. Quando estiver junto à embarcação, o náufrafo será içado para dentro do barco por membros da equipa dos MSF. ©Mikkel Hørlyck
Técnico do barco "Mike" agarra o braço de uma mulher, esperando conseguir resgatá-la para o interior do bote salva-vidas
Técnico do barco "Mike" agarra o braço de uma mulher, esperando conseguir resgatá-la para o interior do bote salva-vidas ©Mikkel Hørlyck
Técnico do barco "Mike" agarra o braço de um homem, esperando conseguir resgatá-lo para o interior do bote salva-vidas
Técnico do barco "Mike" agarra o braço de um homem, esperando conseguir resgatá-lo para o interior do bote salva-vidas ©Mikkel Hørlyck
A tripulação do barco "Mike" garante a passagem em segurança das pessoas dos sobreviventes para o barco dos MSF
A tripulação do barco "Mike" garante a passagem em segurança das pessoas dos sobreviventes para o barco dos MSF ©Mikkel Hørlyck
Sobreviventes descansam após terem sido resgatadas das águas do Mediterrâneo
Sobreviventes descansam após terem sido resgatadas das águas do Mediterrâneo ©Mikkel Hørlyck
Os 41 sobreviventes do primeiro resgate - 39 homens e duas mulheres - dormem no chão da embarcação dos MSF que os levará até à costa italiana
Os 41 sobreviventes do primeiro resgate - 39 homens e duas mulheres - dormem no chão da embarcação dos MSF que os levará até à costa italiana ©Mikkel Hørlyck
Sobreviventes olham para o Mar que quase as engoliu
Sobreviventes olham para o Mar que quase as engoliu ©Mikkel Hørlyck
Sobreviventes aguardam, dentro de um barco, num navio atracado no porto italiano
Sobreviventes aguardam, dentro de um barco, num navio atracado no porto italiano ©Mikkel Hørlyck
Sobreviventes preparam-se para receber instruções dos MSF antes do desembarque em Itália, em Taranto. Terão de escolher entre pedir asilo, regressar ao país de origem ou tentar escapar em direcção a outro país europeu.
Sobreviventes preparam-se para receber instruções dos MSF antes do desembarque em Itália, em Taranto. Terão de escolher entre pedir asilo, regressar ao país de origem ou tentar escapar em direcção a outro país europeu. ©Mikkel Hørlyck