Exposição

Doença bipolar: “O diagnóstico permitiu-me compreender e perdoar o meu pai”

O pai da fotógrafa Lea Thijs foi diagnosticado, em 2017, com doença bipolar. O convívio de ambos com os sintomas da doença, no entanto, ultrapassa os 20 anos. “O seu diagnóstico permitiu-me revisitar as minhas memórias de infância e compreender, perdoar e nutrir empatia por ele.” A exposição Safe House inaugura na Narrativa a 14 de Janeiro 

A exposição Safe House pode ser visitada na Narrativa até 18 de Fevereiro ©Lea Thijs
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A exposição Safe House pode ser visitada na Narrativa até 18 de Fevereiro ©Lea Thijs

A 2 de Dezembro de 2016, Alain Thijs escrevia no seu diário: “Esta nova tempestade estava a formar-se há semanas. Como quem sente o odor a chuva em tempo de seca antes da torrente começar. Conseguia cheirá-la. Antes, não parecia que fosse muito pesada, mas quando chegou percebi que era pior do que esperava.” O seu pensamento “rodopiava, mais e mais depressa”, “fora de controlo”. “Fecho os olhos e vejo cores a explodir, como fogo-de-artifício. Abro os olhos e não melhora. Fecha-os. Fecha-os bem. Tudo é vívido e nada faz sentido.” A palavra suicídio surge no texto, em maiúsculas. “Desaparece”, diz a si próprio, “acaba com este absurdo, com este sofrimento”. O nome das filhas surge logo antes das palavras “acalma-te”. “Elas precisam de ti. Vai melhorar.”

Alain Thijs, pai da fotógrafa Lea Thijs, foi diagnosticado com doença bipolar em 2017, embora conviva com os seus sintomas há mais de 20 anos. “Quando dei início ao projecto, o meu pai tinha sido diagnosticado há apenas dois anos”, conta, em entrevista ao P3, a fotógrafa de nacionalidade belga e sul-africana, aludindo ao projecto Safe House, que se encontra em exposição no espaço Narrativa, em Lisboa – cidade onde Thijs reside actualmente – a partir de 14 de Janeiro.

“Antes do diagnóstico, ele era acompanhado por um psicólogo, com quem discutia a sua infância traumática. Sempre assumimos que ele era uma pessoa depressiva e ansiosa, com problemas de gestão da ira e um passado pesado. Muitas pessoas têm esses sintomas.” Mas nem todas as pessoas que têm as características enumeradas por Lea sofrem de doença bipolar. Tradicionalmente chamada de doença maníaco-depressiva, a doença bipolar é crónica e caracteriza-se por alterações drásticas de humor, que alternam entre estados de euforia e de depressão com uma duração prolongada. Estima-se que cerca de 1% da população mundial já tenha sido diagnosticada com doença bipolar; em Portugal, existem cerca de 200 mil pessoas diagnosticadas.

“Quando descobrimos que ele tinha doença bipolar, o meu pai ficou aliviado porque podia ser medicado, compreendia-se melhor e encontrou muita informação online com a qual se podia relacionar”, recorda a fotógrafa. “A mim, o seu diagnóstico permitiu-me revisitar as minhas memórias de infância e compreender, perdoar e nutrir empatia por ele.”

A doença bipolar não afecta somente quem dela padece; afecta todos os que rodeiam o paciente. Neste caso, Lea teve de lidar com as oscilações de humor do pai desde a infância. “Recordo-me de alturas em que ele estava profundamente deprimido. Nessas alturas, ele ficava muito tempo no seu quarto, deixava de cozinhar e começávamos todos a comer comida pré-