Fénix, o inspirador branco da vinha do “Chico Padre”

Rui Lucas não vai mudar o mundo com o seu Fénix, mas era bom que o seu exemplo ajudasse ao renascimento de uma prática que só com escala industrial será viável.

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Rui Lucas com garrafas do vinho Fenix NELSON GARRIDO

Quem é produtor de uvas e comercializa vinho não se vai esquecer tão cedo de 2022. Além do extremo calor e da seca severa, que irão afectar gravemente a produção, o ano está a ser marcado por subidas exponenciais em toda cadeia do negócio, tanto na vinha como na adega. E, como se não bastasse, há materiais em ruptura, como é o caso das garrafas. Os produtores não só estão a pagar muito mais por tudo como ainda têm que andar a mendigar para poderem comprar algumas garrafas, ou para que lhes produzam num espaço de tempo aceitável a caixa de madeira, o rótulo ou a simples cápsula.

Sobretudo por causa da guerra na Ucrânia, a produção de garrafas brancas, usadas para engarrafar rosé, por exemplo, entrou quase em colapso. Há dois meses, para conseguir uma só palete de garrafas (cerca de mil garrafas), tive que participar com outros produtores na compra de um camião inteiro na Alemanha, pagando antecipadamente. E foi uma sorte. Noutro tipo de garrafas, tem acontecido mais ou menos o mesmo. O abastecimento continua intermitente, apesar de os preços não pararem de subir.

Quando surgem os problemas é também quando nascem boas soluções e se abrem novas oportunidades. No passado mês de Março, Rui Lucas, o criador dos vinhos Prior Lucas, de Souselas, Bairrada, estava a jantar num restaurante quando, ao queixar-se da falta de garrafas, foi iluminado por uma funcionária amiga: “Rui, todos os dias colocamos garrafas no vidrão. Porque não as reutilizas?” O produtor bairradino deitou-se a pensar no assunto e alguns dias depois começou a pedir a alguns restaurantes conhecidos que lhe guardassem todas as garrafas de formato Borgonha que estivessem vazias. Depois lavou-as e higienizou-as. Tudo feito à mão. E foi assim, em garrafas reutilizadas, que nasceu o seu novo vinho, com o nome simbólico de Fénix.

Não estamos perante nenhum achado. Mas é surpreendente que não haja outros produtores a fazer o mesmo. Reutilizar garrafas tem o seu risco, pois a higienização manual não é tão eficaz como a higienização industrial, e dá muito trabalho (na recolha e na limpeza das garrafas). No entanto, atirar tudo para o vidrão também não é a melhor solução.

Antigamente, as garrafas de vidro de sumos, águas e até de alguns vinhos eram reutilizadas a uma escala industrial. Agora, vai tudo para reciclar. Só que reciclar vidro é uma operação cara, como se sabe, por causa dos seus altos custos energéticos. Reutilizar as garrafas de vidro sempre fez e continua a fazer sentido. Rui Lucas é que está certo. E tem igualmente razão quando defende que se devia voltar a utilizar também as caixas retornáveis. É obscena a quantidade de cartão e de madeira que acaba no lixo ou na fogueira.

Há um longo caminho a percorrer na diminuição da pegada ambiental do vinho, que é elevadíssima (o leitor nem queira saber a quantidade de água que se gasta em limpeza por cada litro de vinho). Que sentido faz usar cápsulas (de estanho ou de PVC) ou lacre nos gargalos das garrafas, quando a sua função é apenas estética? E por que razão se continua a apostar em garrafas pesadíssimas para engarrafar o vinho mais caro, quando o que interessa é mesmo o vinho e não o peso das garrafas? O exagero é tal que alguns críticos renomados já se recusam a provar e pontuar vinhos com garrafas pesadas, e fazem bem. Rui Lucas não vai mudar o mundo com o seu Fénix, mas era bom que o seu exemplo ajudasse ao renascimento de uma prática que só com escala industrial será viável.

Tiro-lhe o chapéu pela opção e também pelo vinho, que nasceu da recuperação de uma vinha abandonada que voltou a produzir boas uvas brancas na colheita de 2021. Para experimentar, vinificou uma parte num velho tonel do avô que também tinha recuperado. Encheu 1066 garrafas sob o lema “uma vinha, um tonel, uma garrafa…Tudo isto tem uma nova vida. Aqui tudo foi recuperado”.

O Fénix Prior Lucas 2021 é um vinho de várias castas e de uma só vinha, a vinha do “Chico Padre”, plantada há mais de três décadas num solo de argilo-calcário, em Souselas. Depois de desengaçadas, as uvas fizeram uma curtimenta de 24 horas (contacto das películas das uvas com o líquido). No dia seguinte, o mosto, ainda por prensar, foi transferido para o tal tonel, construído com madeira de macacaúba e mogno (também é melhor não sabermos o percurso desta madeira…), onde o vinho estagiou durante nove meses.

É um vinho novo e, se tivesse que lhe apontar algum defeito, era apenas esse, o de ter sido lançado cedo de mais. Pelo processo e pelo próprio vinho, este Fénix merecia estar mais uns tempos sob cinzas. Mas percebo a pressa. É difícil guardarmos só para nós as coisas boas.

Gostei muito deste vinho. E só li as informações que o produtor me enviou depois de o ter provado, para não me deixar influenciar. O que o distingue é, desde logo, não ser um branco óbvio, quer no aroma, quer no sabor. Tem a madureza e o calor que a argila e o calcário costumam dar e não lhe faltam a secura, a acidez viva e o sabor refinado que esperamos encontrar nos bons vinhos brancos. Possui algo ainda mais importante: o tal factor “X”, esse plus difícil de descrever que faz com que certos vinhos sejam verdadeiramente emocionantes. Cada garrafa custa 20 euros.

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