Não há fusos para a morte

Quem escolhe partir não tem o poder de escolher a hora que os outros também partem para sempre. Resta o chorar silencioso e solitário no meio da noite e as mensagens escritas, estas nunca suficientemente manifestas do sentimento que consome o peito. Velar à distância é imaginar um adeus metafísico.

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Joseph Barrientos/Unsplash

Na madrugada do dia 28 de Julho, a noite parecia não querer ir embora. Na verdade, não amanheceu direito em parte alguma. O sol faltaria ao seu compromisso matinal de nascer, pois inteiramente ocupado estava a organizar a constelação. Em minutos, nela seria cravejada mais uma estrela.

Morar noutro país geralmente é uma escolha um tanto quanto difícil. Assumimos os riscos de todas as ausências junto dos que ficam e, mais que isso, arriscamo-nos também à ausência dos que se vão para sempre. É um viver sempre a meio do caminho, rachado e partido. É como se, ao partir, deixássemos partes nossas em migalhas na origem, em busca de um sonho total no destino.

Quando resolvi voltar, aceitei a sina de uma vida transatlântica. Segurei nas mãos os riscos de perder os momentos felizes, mas também os momentos de despedida eterna. Não poder abraçar, não poder fazer-se presente instantaneamente, não poder chorar junto... Não poder estar em carne e osso, ainda que com a carne abalada e com o osso doído. Quem escolhe partir não tem o poder de escolher a hora que os outros também partem para sempre. Resta o chorar silencioso e solitário no meio da noite e as mensagens escritas, estas nunca suficientemente manifestas do sentimento que consome o peito. Velar à distância é imaginar um adeus metafísico.

Gostaria de poder depositar minhas lágrimas quietas numa garrafa hermética e deixar que o oceano conduzisse meu sentimento ao destino do luto, mas não posso. Quando se está longe, não há garantias de que os que lá ficaram estarão para sempre esperando por nós. Ainda assim, prefiro chorar o luto sentado no cais, para que as lágrimas pendam sobre as ondas e, assim, passem a integrar o grande mar salgado que um dia Pessoa entoou. Afinal o mar é isto, um grande relicário de lágrimas continentais. De algum modo, minha morada é o Atlântico, porque nele moram minhas dores, nele navego ao reencontro de meus amores, nele deposito todos os meus temores. “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de (imigrantes em) Portugal?”

A verdade é que posso estar quatro horas avançado no tempo convencional do homem, mas sendo a morte puro fenómeno da natureza, não há fusos que determinem um último suspiro. Quem morre, morre a mesma hora em todos os lugares. Os relógios param em toda a parte, no exacto horário do território da despedida. Nos ponteiros, quem está à frente, regressa. Quem está atrás, avança. Todos para encontrar os segundos precisos do adeus no solo original. Único fenómeno capaz de vencer o tempo, a morte suspende as convenções horárias, coloca o mundo inteiro de luto à mesma hora. Enquanto unifica o luto, reorganiza os fusos para a vida recomeçar, ainda que confusa, difusa. Se o espaço impede a presença física, o tempo concede o adeus na transcendência.

Depois que para cá vim, dói-me todos os que de lá se vão. E agora, enquanto reajusto o relógio para o fuso horário que rege minha vida, rogo calma ao tempo. Levanto. Sigo de volta para o continente e clamo ao oceano que me deixe seguir, por longo tempo, sem voltar ao cais do adeus.

In memoriam de Eliane Fiorese Grochoski, a mulher que suspendeu os fusos horários do mundo inteiro.

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