A música dos afectos

A obra poética de Ana Luísa Amaral (1956-2022) sempre revelou uma enorme atracção pelas representações do mundo banal e quotidiano, sem no entanto deixar de supor um horizonte de sentido muito mais vasto.

Para o volume de mais de 1300 páginas que reúne os seus dezassete livros de poesia, publicados ao longo de trinta anos, de Minha Senhora de Quê (1990) a Mundo (2021), escolheu Ana Luísa Amaral um título que retoma um verso de um poema de Epopeias, um livro de 1994: “O olhar diagonal das coisas”. Esse verso surge num poema onde se fala de amendoins e de cerveja (“À minha frente agora, por exemplo, um grupo com cerveja e amendoins/ Se fosse um tempo antes, conseguia/ fazer de amendoins um qualquer tema,/ descascar um poema devagar/ feito de amendoins, cerveja e gente”). Um olhar diagonal, enviesado, é este que penetra no mundo profano das pequenas coisas e se eleva a partir daí, transcende a objectualidade e a circunstância que foram o ponto de partida. É assim a poesia de Ana Luísa Amaral: feita de referências ao mundo material, quotidiano e muito doméstico (pelo menos, nos seus primeiros livros), permitindo equivalências entre os gestos funcionais mais prosaicos e a poesia (“E descascar ervilhas ao ritmo de um verso: a prosódia da mão, a ervilha dançando/ em redondilha”), mas no entanto abrindo horizontes mais elevados. Essa dimensão que transcende o material e o quotidiano irá tornar-se muito mais presente e definido nos livros mais recentes.

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