A falta de comida na Somália é tanta que os bebés estão a morrer

A Somália enfrenta a pior seca em quatro décadas: as colheitas secaram e o gado está a morrer em zonas vulneráveis às mudanças climáticas. Quinze milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária, mas os donativos diminuíram após a guerra na Ucrânia.

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Galhos cobrem dois montes de terra, sob os quais jazem os corpos minúsculos das netas gémeas de Halima Hassan Abdullahi Reuters/Feisal Omar
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Acampamento de migrantes climáticos em Dollow Reuters/Feisal Omar
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Sadia Ali, de 8 anos, bebe água no acampamento de Kaxareey Reuters/Feisal Omar

Galhos cortados repletos de espinhos cercam dois montes de terra, sob os quais jazem os corpos minúsculos das netas gémeas de Halima Hassan Abdullahi. Os bebés Ebla e Abdia viveram apenas um dia. Enfraquecida pela fome, a mãe deu à luz os gémeos há um mês, oito semanas após a família ter sido acolhida num acampamento para famílias deslocadas na cidade somali de Dollow.

“A mãe está desnutrida e os dois bebés morreram de fome”, disse Abdullahi no acampamento Kaxareey, que foi criado em Janeiro e, agora, já abriga cerca de 13 mil pessoas. Esta família em luto está entre os mais de 6 milhões de somalis que precisam de ajuda para sobreviver. A ausência de chuvas por quatro estações consecutivas abriu caminho para a pior seca hidrológica no país nos últimos 40 anos. As plantações de feijão e milho murcharam e as terras ficaram marcadas com cadáveres de cabras e burros.

Num mundo que parece só ter olhos para a guerra na Ucrânia, as organizações de ajuda humanitária e as Nações Unidas estão desesperadamente a tentar chamar atenção para uma calamidade que está, a cada dia, a aproximar-se da fome que a Somália enfrentou em 2011. Mais de um quarto de milhão de pessoas morreu na época, a maioria crianças com menos de cinco anos.

No acampamento de Kaxareey, só há dinheiro suficiente para ajudar cerca de metade das pessoas. A família de Abdullahi não é uma das sortudas. Abdullahi não via nada parecido com isto desde o início dos anos 90, quando o contexto de fome ajudou a desencadear uma desastrosa intervenção militar dos EUA na Somália, que terminou com o abate de um helicóptero Black Hawk. Até agora, a família de Abdullahi nunca teve que deixar as suas terras para trás.

Nos dias em que as coisas correm bem, Abdullahi consegue sustentar os 13 membros da família lavando roupas na cidade, ganhando cerca de 1,50 euros. Este valor permite que todos tenham pelo menos um pouco de papas de milho. Mas não é suficiente. A nora precisa de remédio para febre tifóide, que custa dez vezes o que Abdullahi consegue ganhar por dia. A rapariga está deitada, apática, sob um cobertor, com um bebé magro e aflito pendurado no peito.

Um sapato vermelho de salto alto, com um fecho de brilhantes, está encostado num canto, sobre o chão de terra. Este objecto é uma das poucas coisas que a nora trouxe da casa ensolarada onde viviam antes. Agora, a rapariga está fraca demais até mesmo para dizer seu nome. “Abdiya”, Abdullahi diz baixinho, tentando despertá-la sem sucesso. Ela não reage.

A intervenção precoce é crucial para evitar a fome que atinge seis regiões da Somália. Estes territórios abrigam cerca de 15 milhões de pessoas em zonas altamente vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas. A distribuição rápida de alimentos permitiu que a seca de 2017, considerada pior do que a que causou a fome de 2011, tenha custado menos de mil vidas. Mas a velocidade requer dinheiro. E este escasseia.

O plano actual das Nações Unidas para fornecer ajuda de emergência está subfinanciado: apenas 15% do valor necessário já foi obtido. Até agora, 2,8 milhões de pessoas receberam ajuda. Outros 3,1 milhões poderiam ser ajudados se mais dinheiro houvesse. Estes grupos desamparados estão fora de alcance, residindo em terras secas onde uma insurgência islâmica domina. “Precisamos de dinheiro para evitar o risco de fome”, disse Rukia Yacoub, vice-diretora do Programa Mundial de Alimentos na África Oriental.

No acampamento, as pessoas constroem abrigos recorrendo a lonas cor de laranja, pedaços de pano ou plástico e pequenos ramos. Ouvem-se marteladas enquanto os trabalhadores humanitários improvisam latrinas com chapas de ferro. Os recém-chegados aglomeram-se à volta de tendas onde estão os enviados das missões humanitárias a explicar que, para já, não é possível amparar quem acaba de chegar.

Sem respostas, muitas famílias acabam implorando um pouco de comida ou pedindo alguns centavos àqueles que estão numa situação ligeiramente menos vulnerável, uma vez que conseguiram chegar a tempo de fazer o registo e tornaram-se elegíveis para o apoio humanitário no acampamento.

A fome muitas vezes enfraquece as crianças e abre caminho para doenças que acabam por se revelar fatais. Asha Ali Osman, de 25 anos, perdeu os filhos de três e quatro anos para o sarampo há um mês. Agora, Asha embala um bebé, ansiosa por garantir uma vacina à filha mais nova em Dollow. “Sinto muita dor porque não posso nem sequer amamentá-la”, afirmou, num tom suave. “Quando meus filhos estão com fome, só posso pedir água com açúcar a um vizinho. Às vezes, o que nos resta é deitarmos todos juntos e choramos”, afirma a mãe.