Tariq Zaidi fotografou a realidade “distópica” e ultraviolenta de El Salvador

O livro Sin Salida, do fotógrafo Tariq Zaidi, resulta de três anos de imersão na “realidade distópica” de El Salvador, um país envolto nos tentáculos de duas grandes organizações criminosas, MS-13 e Barrio 18. Em El Salvador, contou ao P3, as famílias tocadas pelos assassinatos, desaparecimentos, extorsões, mutilações e ameaças de morte perpetrados pelos gangues “vivem sob o jugo do medo”.

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Membro do gangue MS-13, de 27 anos, no estabelecimento prisional Chalatenango ©Tariq Zaidi

“Correste risco de vida a fotografar Sin Salida, em El Salvador?”, perguntou o P3 ao fotógrafo Tariq Zaidi. “Sim. Quase todo o tempo.” Entre 2018 e 2020, o período que dedicou ao registo do quotidiano do país que vive envolto nos tentáculos de duas grandes organizações criminosas, MS-13 e Barrio 18, Zaidi conheceu uma realidade “distópica”, “onde a extensão, a escala e a ferocidade da violência é diferente de tudo o que a maioria de nós já conheceu”. Zaidi “varreu” todo o território salvadorenho: visitou as zonas controladas pelos gangues, esteve no interior das prisões sobrelotadas, nos locais de crime, no interior de hospitais e morgues, marcou presença nos velórios e funerais das vítimas, no interior das casas salvadorenhas; as fotografias que trouxe consigo, e que preenchem as páginas do fotolivro Sin Salida, editado em Outubro de 2021 pela Gost Books, são tão violentas como o país que retratou.

Em 2015, antes da incursão de Zaidi, morriam em El Salvador quase 20 pessoas por dia vítimas de homicídio — uma taxa de 103 homicídios por 100 mil habitantes, então a mais alta do mundo em zona livre de guerra. Apesar do decréscimo acentuado dessa taxa nos últimos anos — em 2020, por exemplo, foram registados 20 homicídios por 100 mil habitantes —,​ Tariq Zaidi garante que as famílias que foram, até hoje, tocadas pelos assassinatos, desaparecimentos, extorsões, mutilações e ameaças de morte vivem sob o jugo do medo. “As normas sociais foram subvertidas, em El Salvador, e a ubiquidade da violência tornou-se devastadora para a economia, para a sociedade e para o Estado.”

Transeúnte observa enquanto a polícia isola a zona onde jaz uma vitima de homicídio - que foi alvejada oito vezes - na Avenida do Sul, Terminal de Oriente, Lourdes, San Salvador ©Tariq Zaidi
Polícia revista os cidadãos em busca de armas e de tatuagens identificadoras, no município de Apopa ©Tariq Zaidi
Um agente da polícia durante uma patrulha em San Martín, San Salvador ©Tariq Zaidi
Homem prepara caixões na sua oficina, em San Salvador ©Tariq Zaidi
Miguel Ángel (esquerda) e Cesar Barrio (centro), preparam o caixão de um homem de 37 anos que foi morto por alguém que seguia numa mota em Colonia Santa Cristina, Barrio Santa Anita, San Salvador ©Tariq Zaidi
Vista sobre San Salvador a partir do miradouro Boquerón ©Tariq Zaidi
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©Tariq Zaidi

Cultura de gangue: iniciação e práticas

De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Defesa salvadorenho, em 2015, quase 10% da população, composta por 6,4 milhões de pessoas, estaria envolvida, directa ou indirectamente, nas acções levadas a cabo pelos dois grandes grupos criminosos Barrio 19 e MS-13. “Crianças e jovens crescem num ambiente semelhante ao de guerra e são socializadas através dos gangues”, explica o fotógrafo, que vive em Londres. O processo de recrutamento de novos membros, sobretudo entre as camadas mais jovens, é contínuo. “Uma vez iniciado num gangue, é impossível sair dele”, explica Zaidi. “Muitos descobrem isso da pior forma. Qualquer acto que não seja de total lealdade para com o ‘clã’ levanta suspeitas entre os restantes membros, que preferem matar um possível retractor do que correr o risco de esse se tornar num informador.”

O baptismo, ou iniciação, no gangue MS-13, por exemplo, decorre de duas formas: os homens sujeitam-se a um espancamento de 13 segundos e as mulheres podem optar ou por essa solução ou pela da violação de grupo. “O tipo de violência que ambos os grupos praticam é brutal e intencionalmente aterrorizante. Por exemplo, nos seus crimes, costumam usar machetes em vez de armas; é comum o corte de membros do corpo, a retirada de órgãos, assim como a partilha das imagens desses crimes através das redes sociais — clipes que se disseminam amplamente.” As redes sociais são também usadas como plataformas de recrutamento de novos membros.

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Capa do fotolivro Sin Salida, do fotógrafo multipremiado Tariq Zaidi, editado pela Gost Books ©Gost Books

“Apesar da insanidade dos seus actos, estes gangues podem ser meticulosos: nunca filmam o momento em que retiram a vida e raro é o cadáver encontrado inteiro.” Dessa forma, por se tornar difícil a identificação das vítimas, essas são dadas como “desaparecidas” e não como “mortas”, o que reduz o lastro de crime das organizações em causa — e intensifica, ao mesmo tempo, a dor das famílias dos desaparecidos.

Dentro de cada organização, existem diversos subgrupos que cultivam as suas próprias crenças e rituais. “Alguns com referências ao oculto e ao satanismo”, revela o fotógrafo. “Alguns encaram os homicídios como ‘sacrifícios' e iniciam os seus membros como se de um culto religioso se tratasse. A imagética distópica e a ideologia contribuem para normalização da violência que é necessário levar a cabo [pelos membros do gangue].” Zaidi recorda um dos vídeos que circulavam nas redes sociais que revelava “membros de um gangue a decepar as mãos de uma vítima e a brincar com os dedos, rindo histericamente”. As regras internas de alguns dos subgrupos, refere, proíbem o uso de drogas. “O conhecimento de que os perpetradores estão, muito provavelmente, sóbrios torna essas acções ainda mais aterrorizantes.”

À semelhança do que acontece noutros países do mundo, os gangues de El Salvador assumem controlo de partes de território. Em muitas cidades do país, por vezes apenas uma estrada ou rua separa duas zonas controladas por gangues rivais, o que dificulta a livre circulação de civis e mesmo de forças de segurança. Zaidi recorda um dos episódios mais marcantes das suas várias estadias no país que diz respeito ao controlo territorial por parte do gangue MS-13. “Um dia, numa visita a uma morgue, contaram-me que tinha ocorrido um terrível incidente a um jovem rapaz que tinha sido trazido até lá, decapitado”, narra o fotógrafo. “O rapaz vivia numa área controlada pelo MS-13 e tinha por hábito cruzar, com os amigos, a linha de fronteira com a jurisdição de outro gangue. Os rapazes foram avisados: ‘Se continuarem a atravessar para a nossa área, iremos matar-vos.’ Num dia, após as aulas, três rapazes do grupo foram capturados. Dois conseguiram escapar, mas o Jonny (nome fictício) foi espancado, esfaqueado, decapitado e atirado para uma vala. O corpo só foi encontrado três dias depois.”

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O enterro de um jovem de 22 anos de idade que, alegadamente, pertencia a um gangue, no Cemitério Municipal de Chapeltique, em San Miguel. Ele foi uma das quatro pessoas assassinadas durante um confronto com agentes da polícia da unidade de operações especiais numa zona de habitação precária ©Tariq Zaidi

80% dos ataques são encomenda de líderes encarcerados

Os gangues fazem parte da vida quotidiana dos cidadãos “de formas diferentes das organizações terroristas”, explica o fotógrafo ao P3. “Escondem-se em plena vista, extorquem [famílias e comerciantes] e controlam bairros. É muito difícil perceber quem faz, ou não, parte de um gangue, o que dificulta a sua extinção.”

Zaidi sentiu, desde o início, que era difícil estabelecer contacto directo com membros dos grupos criminosos, conversar com eles, “devido às suas regras internas de funcionamento”. E esse foi um dos motivos pelos quais decidiu debruçar-se sobre a realidade no interior das prisões salvadorenhas. “É o único lugar onde é possível conversar e fotografar membros de gangues”, explica. “É importante reconhecer o papel que as prisões desempenham na violência de gangues. De acordo com o ministro da Justiça e Segurança, Rogelio Rivas, os líderes dos grupos que estão encarcerados são responsáveis pela encomenda de 80% dos ataques que decorrem no país.”

Assim, Tariq Zaidi pôde contactar com qualquer membro de gangue que aceitasse ir ao seu encontro. “A maioria não recebia visitas há meses”, o que facilitou o seu acesso. “Quis perceber há quanto tempo estavam presos, o motivo pelo qual estavam ali, crimes e sentenças, há quanto tempo pertenciam a determinado gangue e porquê e como se tornaram membros, assim como o seu contexto familiar, etc.” Quase todos responderam às suas questões sem hesitação. “Alguns falavam inglês perfeitamente porque tinham vivido nos Estados Unidos e foram deportados para El Salvador.”

Reclusos olham para fora da sua cela numa secção onde "medidas extraordinárias" foram introduzidas, no Estabelecimento Prisional de Quezaltepeque ©Tariq Zaidi
Reclusos praticam desporto no Estabelecimento Prisional de Chalatenango ©Tariq Zaidi
Reclusos apresentam as criações de moda que foram elaboradas ao abrigo do programa Yo Cambio (Eu Mudo), que reabilita os prisioneiros, no Estabelecimento Prisional de Quezaltepeque ©Tariq Zaidi
Membro do gangue MS-13, de 27 anos, no estabelecimento prisional Chalatenango ©Tariq Zaidi
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©Tariq Zaidi

A origem dos gangues salvadorenhos

O facto de muitos membros de gangue falarem bem inglês é relevante, uma vez que a génese dos grupos MS-13 e Barrio 18 remonta ao exílio de meio milhão de salvadorenhos nos Estados Unidos, em resultado da guerra civil que decorreu entre 1979 e 1992. “Ambos os gangues foram formados em Los Angeles por adolescentes salvadorenhos que procuravam proteger-se contra outros gangues existentes na cidade.” Até ao final da guerra civil de El Salvador, em 1992, tanto MS-13 como Barrio 18 actuavam estritamente em Los Angeles. “Isto mudou quando as políticas de imigração norte-americanas endureceram, em 1997. Nessa altura, muitos salvadorenhos foram deportados e estabeleceram novos ramos das suas organizações em El Salvador. Foram, gradualmente, ganhando controlo sobre o país, colocando em prática os métodos brutais de extorsão e homicídio que utilizavam nos Estados Unidos.”

O combate político à acção dos gangues em El Salvador, com um conjunto de medidas conhecidas como La Mano Dura (A Mão Dura, em tradução livre), teve início em 2003 e continua a ser colocada em prática. “As medidas incluem a transferência dos líderes de gangues para prisões de máxima segurança, a realização de julgamentos dentro das prisões (para inibir os transportes entre os estabelecimentos e os tribunais), a restrição de visitas e direitos de uso de telecomunicações dos reclusos e a participação obrigatória em programas de reabilitação e de formação profissional.”

Desde a tomada de posse do Presidente Bukele, em 2019, a violência decresceu significativamente. “A taxa de homicídios caiu em cerca de 50% no seu primeiro ano de mandato”, conta Zaidi. “Embora Bukele se apoie nas suas políticas prisionais duras e aumento do policiamento para explicar esse decréscimo, alguns observadores alegam que é possível a existência de um pacto informal entre o Governo e os líderes dos gangues [no sentido da diminuição da actividade criminosa].”

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