Fotografia

Um retratista, uma Zundapp e uma ilha: assim se vivia em São Miguel, nos anos 60 e 70

O fotógrafo Laudalino da Ponte Pacheco documentou, ao longo de décadas, o quotidiano da ilha de São Miguel, nos Açores. O fotolivro homónimo, editado pela Auracária, contém imagens que datam de 1963 a 1975 e que​ "constituem documentos riquíssimos para a compreensão do território antropológico, sociológico e histórico da ilha de São Miguel".

© Herdeiros de Laudalino da Ponte Pacheco
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© Herdeiros de Laudalino da Ponte Pacheco

“Lá vem o retratista”, anunciavam os habitantes das aldeias da costa norte da ilha de São Miguel quando viam Laudalino da Ponte Pacheco aproximar-se montado na sua Zundapp, de câmara fotográfica a tiracolo. Baptizados, aniversários, casamentos, funerais: entre 1963 e 1975, poucos acontecimentos dignos de registo escaparam à lente do fotógrafo natural do concelho da Ribeira Grande, descrito por quem dele se recorda como um “homem de talentos múltiplos” e de “uma história de vida invulgar”.

O livro lançado recentemente pela editora independente micaelense Auracária, que partilha o seu nome com o do fotógrafo, reúne 150 fotografias de Laudalino, “uma pequeníssima parte” do seu vasto espólio, que é composto por mais de 155 mil fotografias. “As imagens que deixou documentam, de forma exaustiva e quase diária, os gestos, os rituais de grupo, as expressões individuais, as atitudes e compromissos de toda uma população”, pode ler-se nas páginas do livro. A espanhola Blanca Martín-Calero, residente em São Miguel e fundadora da Auracária, revelou ao P3 que a selecção de imagens “foi muito difícil” devido à elevada qualidade fotográfica e etnográfica do espólio do micaelense.

Mas quem foi o prolífico e desconhecido fotógrafo Laudalino da Ponte Pacheco? Que olhar se esconde por detrás das imagens que realizou, entre 1954 e 1995? Laudalino nasceu em 1921 no seio da pequena aldeia rural da Maia, no norte da ilha de São Miguel, nos Açores. Ainda criança, por andar descalço, “teve um problema num pé, uma infecção causada por ter pisado silvas”, relata o filho do fotógrafo no livro. Essa ligeira deficiência manteve-o a salvo de realizar trabalho manual agrícola – que era o destino da maioria dos meninos e meninas da ilha que partilhavam da sua condição social e económica. Assim, terminou a quarta classe e logo integrou os quadros da Fábrica de Tabaco da Maia, onde trabalhou, durante 51 anos, como escriturário e vigilante.

Durante a Segunda Guerra Mundial, nos seus tempos livres, Laudalino apoiou os militares do aquartelamento que foi montado na Maia. “Com uma lanterna, enviava-lhes sinais”, recorda a filha nos textos do livro. “E também foi socorrista.” Foram anos difíceis na região. João Bulhões, antigo gerente da Fábrica de Tabaco e amigo de Laudalino, descreve que a Maia como “uma terra de fome terrível”. “As pessoas ou eram ricas ou eram pobres. Havia uma separação no território: da ponte para baixo eram os mais pobres.” Uma ex-funcionária da fábrica, que encerrou em 1988, corrobora: “As pessoas, muito jovens, iam trabalhar nos milheiros, que eram pedaços de terra para cultivo de milho, tabaco, batata, feijão.” Lembra-se de os mais pobres apanharem laranjas do chão para comerem, “pois a fome era muita”. No início dos anos 1950, em pleno Estado Novo, surgem as primeiras ondas de emigração açoriana em direcção ao Canadá e aos Estados Unidos da América – vaga que viria a mudar a vida de muitos habitantes da ilha. Para melhor.

Em 1953, o irmão mais novo de Laudalino emigra para Montreal e, no ano seguinte, chega à Maia pelo correio a câmara fotográfica que viria a mudar para sempre a vida do irmão – e, até certo ponto, a vida dos habitantes da Maia. Num esforço empreendedor que lhe era característico, Laudalino inicia-se no negócio da fotografia aos fins-de-semana realizando retratos para passaportes e bilhetes de identidade. Lentamente, expande o negócio e começa a documentar, na Maia e noutras freguesias vizinhas, as procissões, as romarias, as matanças do porco, as partidas de emigrantes, o quotidiano nas ruas, nos campos, nos locais de trabalho, no interior das casas, dos transportes. Com a ajuda da esposa e dos filhos, passa a vender retratos, porta a porta; consta que montava banca diante da igreja em dias de missa e que angariava novos clientes em dias de chegada de emigrantes, a quem interessava exibir as roupas novas diante de família e amigos.

O negócio continuou a crescer e, em 1958, comprou a sua mota Zundapp, “que lhe custou sete contos e quinhentos”. O norte da ilha de São Miguel tornou-se pequeno e Laudalino passou a visitar e fotografar outras paragens, chegando, mesmo, a viajar até ao Canadá duas vezes. Numa dessas viagens adquiriu uma máquina de filmar Super 8 e um projector. “Filmou as casas dos familiares e dos amigos emigrantes, os edifícios, as ruas, os carros, as praças, os monumentos, as paisagens” do país, lê-se no livro. “Regressado à Maia, passou os filmes em sua casa para os amigos visionarem, com grande sucesso.” Não tardou a instalar uma sala de cinema na sua garagem, onde passou a organizar sessões (que incluíam filmes de Charlie Chaplin) com bilhetes a custar dois escudos e cinquenta centavos cada. Montou, também, um cinema ao ar livre com recurso a dois paus e um lençol.

O fotógrafo maiato é descrito como um homem “muito imaginativo”, um “fura-vidas”. “Foi um homem muito ligado às tecnologias, tinha habilidade, gostava, e era muito curioso”, relata João Bulhões. “Tinha um objectivo muito bem definido; como não tinha herança, queria dar uma boa educação aos filhos. Como era muito ‘engenhocas’ fazia reparações de rádios e de outros electrodomésticos", afirma. Nos anos 60, antes da chegada da electricidade à sua aldeia, Laudalino já tinha a sua casa preparada a para a receber. “Era a casa mais avançada da freguesia, quando a electricidade chegou foi só ligar”, recorda. “Na altura das festas da freguesia, a igreja era iluminada através de um gerador. Laudalino puxava a corrente e a sua casa ficava também iluminada, passando a ser uma atracç&at