Reino Unido consegue comprar importantes manuscritos de Jane Austen, de Walter Scott e das irmãs Brontë

Biblioteca que esteve inacessível ao público durante 80 anos ia ser vendida em leilão pela Sotheby’s. Uma campanha de angariação de fundos reuniu 17,7 milhões de euros para a comprar.

Foto
Assinaturas das irmãs Brontë quando ainda assinaram as suas primeiras obras como Bell, que mantinham as iniciais das autoras wiki commons

Nos países anglo-saxónicos, onde o mecenato cultural está há muito enraizado nas grandes empresas e na sociedade civil em geral, não é pouco comum chegarem a bom porto operações como a que acaba de resultar na compra de uma biblioteca com manuscritos raros, mas ainda assim é sempre algo que merece ser assinalado. E celebrado.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Nos países anglo-saxónicos, onde o mecenato cultural está há muito enraizado nas grandes empresas e na sociedade civil em geral, não é pouco comum chegarem a bom porto operações como a que acaba de resultar na compra de uma biblioteca com manuscritos raros, mas ainda assim é sempre algo que merece ser assinalado. E celebrado.

A chamada Biblioteca Honresfield, que inclui documentos saídos do punho de escritores tão celebrados como as irmãs Brontë, Jane Austen e Walter Scott, foi recentemente adquirida por 15 milhões de libras (17,7 milhões de euros), uma soma reunida em cinco meses junto de privados e de instituições ligadas ao património cultural, graças a um apelo lançado em meados de Junho pela organização sem fins lucrativos Friends of The National Libraries (FNL).

De acordo com os diários The Guardian e The New York Times, metade deste valor foi assegurado por um só mecenas, Leonard Blavatnik, e quatro milhões de libras (4,7 milhões de euros) saíram dos cofres do National Heritage Memorial Fund. O restante chegou via doações de entidades como as fundações Foyle e TS Eliot, de museus e outras bibliotecas (2,9 milhões de euros), e de pessoas em nome individual.

Todas estas contribuições, das mais avultadas às mais modestas, ajudaram a manter o espólio coeso, evitando que se dispersasse numa venda em leilão que estava já agendada.

"Obras de arte"

Este acervo que agora passa a fazer parte do património público britânico inclui uma carta cheia de humor que a autora de Orgulho e Preconceito escreve à irmã Cassandra antecipando-lhe o fim de uma relação amorosa e uma colectânea de 31 poemas de Emily Brontë que os académicos julgavam perdida, com correcções a lápis da sua irmã Charlotte, entre muitos outros tesouros, como um primeiro volume manuscrito de poemas de Robert Burns, o romance Rob Roy, pelo próprio punho do autor, Walter Scott, e sete dos famosos “pequenos livros” de Charlotte Brontë, “cada um deles uma obra de arte”, pode ler-se na descrição do acervo feita pela FNL.

Reunida por William Law no século XIX, este conjunto de livros e manuscritos em que está também representado o poeta escocês Robert Burns manteve-se sempre nas mãos da família original e esteve praticamente inacessível à consulta pública nos últimos 80 anos. Quando no início de 2021 se soube que a Sotheby’s se preparava para o levar à praça – estamos a falar de uma colecção que tem mais de 500 manuscritos, cartas e primeiras edições – várias bibliotecas britânicas, incluindo a Bodleian, a Britânica e a Nacional da Escócia, juntaram-se para tentar arranjar o dinheiro e a leiloeira aceitou adiar a venda até que este consórcio de instituições, também ele caso raro, conseguisse reunir a soma necessária.

“Tem havido um interesse público sem precedentes por esta colecção de manuscritos e livros que permaneceu escondida quase um século”, disse ao Guardian Geordie Greig, presidente da FNL. “Resgatá-la foi um pouco como abrir um túmulo egípcio para ver pela primeira vez textos e tesouros antigos que agora são salvos para sempre por estudantes, académicos e amantes de livros.”

Os manuscritos agora integrados no património britânico serão doados pela FNL a oito instituições espalhadas pelo Reino Unido, de acordo com o New York Times: às bibliotecas Bodleian (Universidade de Oxford), Britânica; Nacional da Escócia; e Brotherton (Universidade de Leeds); e às casas-museu de Jane Austen, Walter Scott, Robert Burns e das irmãs Brontë.

Os livros impressos, cerca de 1400, serão confiados a outras entidades.