Azorean Hood: Joana reciclou um traje açoriano para proteger os oceanos

Joana Ávila, terceirense, criou a marca Begs & Bags, que procura alertar para a urgência ambiental. Recriou o capote e capelo, um traje açoriano, com plástico marinho reciclado.

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Azorean Hood
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A capa pode ser arrumada num dos bolsos do saco Azorean Hood

O cenário faz parte do imaginário açoriano. Até meados do século XX, as mulheres cobriam-se com um longo traje escuro, criando vultos negros de cada vez que saíam à rua. Vestiam o capote e capelo: o primeiro era uma longa capa que tapava todo o corpo; o segundo, um capuz erguido com osso de baleia. O traje caiu em desuso, mas marcou a tradição açoriana. Se em tempos aquela vestimenta era símbolo da repressão das mulheres, agora, Joana Ávila, uma açoriana a viver em Amesterdão, reciclou a tradição. Literalmente. Inspirada no capote e capelo, criou a Azorean Hood: um conjunto de três peças que pretende afastar a carga negativa em torno daquele traje regional e alertar para a necessidade de proteger os oceanos.

“O conjunto é composto por três peças. Um saco, um capuz e uma capa, que tanto podem ser usados juntos como separadamente”, explica ao P3 Joana Ávila, natural da ilha Terceira, recordando o início do projecto em 2013. Naquele ano, Joana, uma profissional do marketing, criou o “capote-e-caBelo" para elogiar a o “papel da mulher na sociedade açoriana”. Era apenas uma “peça conceptual”, desenvolvida para participar num concurso de ideias.

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Mas a ideia ficou. “Várias pessoas viram a peça e diziam que tinha de fazer aquilo para vender”, lembra Joana. A peça, contudo, era “muito pesada” e feita de “lã” - não tinha sido feita para “ser usada”. O projecto começou a ser estudado, mas existiam outros motivos que faziam a autora hesitar. “Comecei a pensar no assunto, mas também fui percebendo que a poluição associada à indústria têxtil é muito grande e, portanto, também não queria ser mais uma marca e mais um problema.”

Logo, em vez de ser um problema, decidiu ser uma (parte da) solução: utilizou o material seaqual, feito a partir de plástico marinho reciclado, para criar o saco, a capa e o capuz. Nasceu assim o Azorean Hood e a marca Begs & Bags. Criados por Joana Ávila ou por um cachalote ficcional; tudo depende do ponto de vista. Confuso? Já lá vamos.

Primeiro, os produtos. A capa pode ser arrumada num dos bolsos do saco, enquanto o capuz pode estar ligado à capa. São todas peças autónomas, mas que fazem parte de um conjunto. “A mulher põe e tira o capelo quando quer. Isso permite mobilidade. É uma peça pensada para quem tem liberdade. Põe, arruma e tira quando lhe apetecer.” Pormenor importante para quem vive nas ilhas: as peças são todas impermeáveis, sejam as pertencentes à colecção de adulto ou de criança. Sim: existe um modelo feito a pensar nos mais novos.

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Modelo infantil Azorean Hood

Além do tamanho, existem duas diferenças no modelo para as crianças. Uma é a impressão de um cachalote no interior do capuz. Outra é a inclusão de umas molas na capa, que se podem abrir ou fechar conforme a altura da criança. “As crianças crescem muito rápido e as roupas deixam de servir. Assim, a capa acompanha o crescimento da criança” — a sustentabilidade sempre presente. O Azorean Hood para adultos custa 160 euros, o de crianças 80 euros. São feitos à mão na Terceira e estão à venda nas lojas dos museus dos Açores ou na loja Cultura do Governo dos Açores.

Numa realidade paralela, não foi Joana Ávila quem criou tudo isto. Foi um cachalote fêmea que vive em livros de ficção. Com a criação da Azorean Hood, Joana Ávila fundou a Begs & Bags, uma “marca transmedia” que “utiliza vários meios” para alertar para a necessidade de proteger o clima. “O objectivo é consciencializar para a urgência climática e, principalmente, para a protecção dos oceanos. Sou ilhéu. O mar tem uma força muito grande na minha vida.”

O tempo verbal não é inocente. O mar tem uma “força grande” na vida de Joana, que viveu em várias partes do mundo nos últimos anos desde que mudou de vida. Tinha então 30 anos e um cargo alto no marketing de uma multinacional. Fartou-se. “Fiz 30 anos e comecei a pensar se era só aquilo que queria da minha vida. Queria viajar e tinha ambições de ir mais além.”

E viajou: viveu em Bruxelas, Barcelona até ir parar a Amesterdão com o namorado holandês que conheceu em Lisboa. Pelo meio, numa dessas viagens, percebeu a urgência de agir para salvar o planeta. Foi para a Ásia à “procura das praias paradisíacas que via nas revistas”, mas o paraíso estava transformado em pesadelo. “Tive um choque enorme porque muitas dessas praias estavam cheias de plástico.”

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Joana Ávila vive em Amesterdão, nos Países Baixos. DR

Ficou com medo de que acontecesse o mesmo à sua terra. “Cada vez que vou aos Açores, percebo que há cada vez mais plástico e assusta-me muito a ideia de, daqui a uns anos, estarmos iguais a eles”, conta Joana, agora com 44 anos, que continua a ir frequentemente à ilha Terceira. Decidiu contar uma história: escreveu um livro onde a personagem principal é um cachalote fêmea dos Açores chamado Begs, que decide navegar até ao Japão depois de ter ouvido que ainda se caçam baleias em outras zonas do mundo.

“Os Açores são vistos pela Comissão Baleeira Internacional como um caso de sucesso da passagem da caça para observação de cetáceos”, salienta Joana. “A Begs quer ir a esses países porque está convencida de que se eles souberem o que foi feito nos Açores vão querer fazer tal e qual.” Pelo caminho, Begs descobre que existe outra “ameaça” à sua espécie: o plástico.

 O decidido cetáceo açoriano decide apanhar o plástico que vai encontrando e debruça-se sobre o que fazer com o material recolhido: “Ela decide recriar o capote e capelo porque acha estranho usarem-se parte dos corpos da baleia para fazer as peças.” E voilá: assim é a história alternativa da Azorean Hood, “por detrás da peça”.

Agora, cada um é livre de escolher a narrativa que preferir. Crianças ou adultos. É que a Begs tem direito a dois livros. Inicialmente, o livro ganhou o rótulo de ser para crianças, “mesmo quando não o era”. “Como é que combati esta ideia de que o livro não era para adultos? Escrevi outro livro para crianças”, conta Joana, que o fez em conjunto com Teresa Ferreira, uma amiga educadora de infância. “É o meu pequeno contributo” para uma luta que é “global”, diz.

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