Alimentação intuitiva: pode uma dieta sem regras resultar?

Comer o que quiser e quando bem lhe apetecer? Parece suspeito, mas o conceito de alimentação intuitiva diz-nos que não há propriamente alimentos bons ou maus, nem horários fixos para comer ou que não precisa de ir ao ginásio, se não gostar. Será esta a dieta perfeita ou um mito ilusório?

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Os especialistas parecem unânimes em aconselhar a alimentação intuitiva a quem já tenha uma relação saudável com comida ou que esteja numa fase de manutenção de peso ricardo campos

Dietas. São muitos os livros, as recomendações, as dicas e as modas sobre o que comer. Já nos disseram que devíamos comer como os homens das cavernas, a chamada “dieta paleolítica”; depois que devíamos cortar na carne, com as variantes vegan e vegetarianas; recentemente redescobrimos que a dieta mediterrânica, aquela que herdámos dos nossos pais e avós, em que impera o azeite, os legumes e o peixe, afinal, é a mais saudável. Mas há uma nova tendência no mundo das dietas: a alimentação intuitiva, que na verdade de dieta tem muito pouco. Com uma flexibilidade atractiva para muitos, pode não ser o regime mais apropriado para todos, salvaguardam os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO.

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Dietas. São muitos os livros, as recomendações, as dicas e as modas sobre o que comer. Já nos disseram que devíamos comer como os homens das cavernas, a chamada “dieta paleolítica”; depois que devíamos cortar na carne, com as variantes vegan e vegetarianas; recentemente redescobrimos que a dieta mediterrânica, aquela que herdámos dos nossos pais e avós, em que impera o azeite, os legumes e o peixe, afinal, é a mais saudável. Mas há uma nova tendência no mundo das dietas: a alimentação intuitiva, que na verdade de dieta tem muito pouco. Com uma flexibilidade atractiva para muitos, pode não ser o regime mais apropriado para todos, salvaguardam os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO.

O conceito é simples: devemos saber ouvir o nosso corpo, respeitando as suas necessidades. “A alimentação intuitiva é, no fundo, a pessoa alimentar-se de acordo com aquilo que o corpo pede, comer quando quer e não comer quando não quer”, resume a nutricionista e professora da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa Cláudia Viegas. Porém, o problema que logo se coloca é o de saber distinguir a verdadeira fome do apetite — algo que é um autêntico desafio para muitos, tendo em conta que os sinais biológicos do prazer se sobrepõem aos de saciedade. “Esta ideia de respeitar o apetite seria óptimo se todos nós tivéssemos este mecanismo de auto-regulação bem definido”, aponta a especialista. “Ao longo da vida vamos pervertendo-o ao comer demais ou até, por exemplo, forçando as crianças a comer até ao fim”, acrescenta. 

O professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação do Porto Ruí Poínhos — que prefere olhar para este conceito como uma ferramenta e não tanto como uma dieta — refere que é nos mais novos que encontramos o melhor exemplo da alimentação intuitiva. “As crianças, quando nascem, ainda não sabem o que é bom, o que é mau, e ainda não ganharam estratégias para lidar, como a maioria de nós faz, com as emoções através da comida”, comenta. “O bebé chora quando tem fome, mama e pára quando está saciado. Isto é muito mais difícil para nós, adultos.” Assim, uma das poucas regras definidas por esta forma de alimentação é “não afogar as mágoas” na comida, recorrendo a outras alternativas para responder a emoções mais negativas, como a solidão, a tristeza, o stress ou o tédio. 

Apesar de não ser apologista de distinções entre alimentos bons e maus, Cláudia Viegas acredita que a maior parte das pessoas já sabe o que deve ou não comer. “O problema não está no saber, está no porque é que eu como”, aponta. E é por essa razão que, para a nutricionista, a grande vantagem a reter da alimentação intuitiva é reconhecer o quão importante é ter uma relação de bem-estar com a comida, de forma a não a encarar como um refúgio, nem como um castigo. “Além do apoio nutricional, é fundamental o lado psicológico que nos ajude a desvendar as causas da fome, e isso não deve existir só nesta dieta, mas em todas as abordagens”, reforça. 

Fazer as pazes com a comida foi o lema adoptado por Ágata Roquette, também nutricionista e autora de bestsellers sobre alimentação, depois de ter vencido o excesso de peso e que agora replica com os seus doentes. “Eu geralmente faço uma [proposta de] lancheira para as pessoas gerirem durante o dia, mas não gosto de impor horários fixos.” Contudo, é imperativo haver algumas limitações a nível dos alimentos a serem consumidos, defende. “Não me importo que um paciente coma às 16h e depois volte a comer uma hora mais tarde, porque ficou stressado, mas têm de comer, por norma, alimentos saudáveis. Não pode ser sempre um pacote de batatas fritas, porque é exactamente isso que temos mais tendência para comer quando nos sentimos mal.” 

A flexibilidade deste conceito intuitivo não se limita, porém, à forma como alimentamos o nosso corpo, mas também como o exercitamos. E, de acordo com Ágata Roquette, a prática de desporto é essencial. “Deve ser algo de que a pessoa realmente goste e não uma obrigação que tem de fazer quatro a três vezes por semana”, salvaguarda. 

Por sua vez, Pedro Carvalho, nutricionista que escreve no PÚBLICO desde 2011, relembra que, apesar de a ser uma filosofia “muito bonita e romântica”, com princípios que podem ser postos em prática por todos, a alimentação intuitiva não é para qualquer um, sobretudo quem queira emagrecer ou até ganhar peso. “É preciso perceber que o emagrecimento continua a ser uma questão ‘matemática’ entre o balanço das calorias ingeridas e gastas; e a hipertrofia muscular continua a ter como um dos principais determinantes o volume e a frequência de treino”, explica. 

Os especialistas parecem assim unânimes em considerar que a alimentação intuitiva pode ser benéfica sobretudo para quem está em fase de manutenção de peso, como para aqueles que desejam ter uma melhor relação com a comida, mantendo sempre em mente um “meio-termo” entre dar ao corpo o que ele quer e não perder as estribeiras.


Texto editado por Bárbara Wong