O caso das fardas de Causa Própria

Esta sexta-feira, o jornal Expresso noticiou que a PSP tinha cancelado o aluguer de fardas que eram necessárias para a rodagem da série da RTP, por a produção não ter aceitado sugestões de alterações do guião.

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Margarida Vila-Nova e Nuno Lopes na rodagem de Causa Própria Ana Brígida

Esta sexta-feira, o jornal Expresso noticiou que a PSP tinha cancelado o aluguer de fardas que eram necessárias para a rodagem da série Causa Própria, que está agora na sua terceira semana. Isto depois de ter condicionado tal aluguer à aceitação de sugestões aos guiões da série por eles sugeridos. Causa Própria é uma série de ficção da RTP da autoria de Rui Cardoso Martins e Edgar Medina, que parte dos casos reais de tribunal narrados pelo primeiro na crónica Levante-se o Réu, que começou no PÚBLICO e hoje continua na Notícias Magazine.

É normal, numa produção nacional, ter “o apoio das mais diversas forças de segurança”, explica ao PÚBLICO Edgar Medina, que é também produtor da série. “Com a PSP é particularmente importante, porque nos assegura parte da logística. A par disso, quando temos alguma cena com a polícia, para adicionar realismo, solicitamos que aluguem fardas e acessórios. É importante, não podemos reproduzir ou alugar noutro lado, porque é proibido”, continua o co-autor.

“Temos de ir à fonte pedir esses equipamentos. Isso é geralmente feito sem qualquer tipo de problema”, mantém. Desta vez, diz, fizeram “um pedido normalíssimo para a série e pediram-nos algo que é completamente normal: a descrição do projecto e o argumento, que costumamos ceder. Referiram depois, e essa foi a novidade, que não alugavam as fardas e as viaturas se não fizéssemos alterações aos argumentos, que resolvi não aceitar”, afirma.

As alterações, diz, até são “relativamente pequenas”, mas algumas “interferem verdadeiramente com as cenas”. “Por uma questão de princípio achei que não devia compactuar de alguma forma com isto. Não se devia estabelecer este precedente que é a PSP influenciar uma criação artística ou cultural”, sublinha. Dá exemplos de dois casos: um em que “um polícia trata de forma coloquial uma juíza” e outro sobre “uns polícias que identificaram mal um réu”. “Por que é que não podemos fazer uma obra de ficção em torno de um erro da polícia? Como é que isto menoriza a instituição?”, pergunta.

Já Rui Cardoso Martins, que diz tudo isto ser “ridículo” e “triste”, realça que, mesmo não sendo toda a série baseada na realidade, os casos aos quais foram pedidas alterações serem baseados em casos a que ele próprio assistiu. “De repente, tentam precisamente alterar aquilo que eu ouvi”, comenta. “Tivemos o cuidado de passar a série por vários crivos, de juízes e procuradores, para não haver falhas de argumento. Foi com a melhor das boas fés que entregámos o texto final e foi com a melhor das boas fés que dissemos nem pensar em alterar uma coisa que já foi muito pensada ao longo dos anos. Escrever e reescrever todos fazemos, mas não com imposições patéticas”, adiciona.

Nuno Lopes, um dos actores principais da série, foi peremptório a condenar este caso nas redes sociais, comparando-o com a censura que acabou em 1974. “Acho isto inadmissível. É muito triste porque a boa relação entre a ficção e a PSP é fundamental para se filmar em Portugal, ainda para mais numa série criminal. O mais ridículo disto é que os pedidos são absurdos e a série nem é uma série de ataque à polícia. Não se percebe donde isto vem a não ser do que me parece um claro abuso de poder.” Decidiu falar porque sente que “estamos num momento em que não dá para aceitar mínimas intrusões à liberdade”. “Se estas coisas passarem a ser normais, é fácil isto escalar para coisas bem piores e prefiro atacar já o problema, sobretudo com o crescimento da extrema-direita e o crescimento de um apoiante dos fascistas”, remata.

O PÚBLICO tentou obter esclarecimentos da PSP. Nuno Carocha, porta-voz da força policial, disse que a PSP não comentava o caso, mas que a instituição não censura nada.