Simular a guerra num Afeganistão e Iraque de faz-de-conta

Talatha, Braggistan, Atropia são nomes de réplicas de aldeias do Iraque e do Afeganistão que estão plantadas nas florestas e desertos dos Estados Unidos. São campos de exercícios militares norte-americanos onde iraquianos e afegãos imigrados — mas não só — interpretam o papel de civis em cenários de guerra. Pretend Villages, do fotógrafo Chris Sims, resulta de 15 anos de visitas a estes lugares.

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Nas florestas mais profundas dos estados do Louisiana e da Carolina do Norte e nas areias do deserto junto ao Vale da Morte, na Califórnia, nos Estados Unidos, estão plantadas réplicas de aldeias iraquianas e afegãs que servem de plateau para o treino do exército norte-americano. Nestes campos de treino, aldeias inimigas de faz-de-conta, os soldados interagem com actores amadores que são contratados para vestir a pele de civis dessas paragens. E quem são esses actores? "Em muitos casos, são imigrantes que chegaram recentemente do Iraque e do Afeganistão", refere o fotógrafo Chris Sims, que, ao longo dos últimos 15 anos — entre 2005 e 2018 —, visitou e documentou estes locais. "Alguns já cooperavam com o exército norte-americano antes de chegarem ao país", acrescenta.

Os afegãos e iraquianos com quem o fotógrafo norte-americano contactou não têm uma visão "monolítica" relativamente ao que se passa naqueles campos de exercícios. "Alguns, nomeadamente os iraquianos curdos, sentiam grande entusiasmo relativamente à oportunidade de trabalhar nas aldeias e desejavam, expressamente, contribuir para o esforço de guerra norte-americano", contou ao P3, em entrevista. Mas nem todos se envolvem nesta actividade por convicção política. Há quem considere que este é apenas um bom emprego, mais bem pago e divertido do que outros que encontram. "Conheci numa das aldeias uma jovem secretária que trabalhava no Departamento de Estado dos Estados Unidos, em Washington D.C.. A sua família é natural do Afeganistão, mas ela nunca esteve lá. Para ela, trabalhar ali era uma forma de conhecer outros afegãos e, desse modo, absorver a cultura e raízes dos seus pais."

Os exercícios militares em que estes actores estão envolvidos são simulacros de combate em aldeias afegãs e iraquianas. "Há cenários onde os civis da ficção que ali decorre são 'mortos' ou 'feridos'", refere Sims, sublinhando que tudo ali decorre de forma ficcional. "Isto acontece, sobretudo, quando existe uma batalha numa das aldeias e civis são apanhados no fogo cruzado. Outras vezes, pode explodir uma bomba que foi colocada por 'insurgentes' e haver baixas de ambos os lados." Nem sempre é claro quem mata quem, refere. "Isso é frequente, tal como acontece na vida real." Num dos cenários que visitou, uma escolta americana sofreu uma emboscada ao passar por uma aldeia. "Os aldeãos ficaram feridos em resultado da explosão de um míssil dos 'insurgentes' contra as forças norte-americanas e os soldados tiveram de decidir se deveriam ajudar os civis que ficaram feridos — arriscando as próprias vidas e de outras pessoas da aldeia —, ou abandonar o local rapidamente em direcção à base." Nos dois casos haveria consequências, refere. "Se fossem embora, os aldeãos provavelmente iriam revoltar-se contra o exército por não ter auxiliado os feridos. Se ficasse a ajudar, poderia haver mais mortes, incluindo de civis apanhados no fogo cruzado." Porque dá o fotógrafo este exemplo? "O objectivo do exercício é preparar os soldados para tomar este tipo de decisões em pouco tempo."

Há entre os actores, porém, quem tenha mais experiência de guerra do que os próprios soldados em treino. Alguns deles estiveram nas guerras do Vietname e da Coreia, nos anos 60 e 70. São veteranos e estão na reforma. Dedicam-se ao role-play pela boa remuneração e por sentirem que contribuem activamente para o treino das tropas. "Eles não sentem falta da atmosfera de guerra em si. Sentem-se atraídos pelo espírito de equipa, de missão. Na maior parte dos dias, as tarefas são muito sociais e divertidas, de certo modo." Quando não estão envolvidos em exercícios militares, em turnos de 12 horas, os actores dedicam-se a modificar o que os rodeia, arquitectando espaços com base na visão clássica e ocidental do que é o mundo islâmico", explica. "Eles podem encarnar a sua personagem de uma forma muito livre e colocar em prática, através dela, actividades, competências. E, em alguns casos, também as tradições dos seus países." 

Chris Sims também é actor numa destas aldeias — que albergam, geralmente, cerca de 50 actores. "Na maior parte das vezes, entrei com permissão do exército. Mas uma vez respondi a um anúncio para representar o papel de jornalista para o International News Network numa das bases", explica Sims. "Por haver jornalistas reais no terreno, decidiram que também queriam jornalistas de faz-de-conta nos campos de treino. O meu trabalho era importunar generais com perguntas incómodas durante as conferências de imprensa. Rapidamente me adaptei ao papel. Em troca, pude andar por todas as áreas e fotografar lugares onde nunca me tinham permitido entrar."

O fotógrafo garante que as aldeias são "muito convincentes, muito fidedignas". "Por vezes, comicamente mal-orientadas, mundanas, até mesmo aterradoras." As réplicas de aldeias em contexto militar não são novidade, nos Estados Unidos. São usadas há muito tempo para melhorar a performance dos soldados que combatem além-fronteiras. "Mas estas aldeias representam uma mudança na estratégia para a vitória", adivinha o fotógrafo. "Colocam ênfase na competência social e cultural e não na artilharia pesada."

Nas mais de 30 visitas a muitas destas aldeias, Chris conversou com militares, actores e meros civis. "As histórias dessas guerras, do Iraque e Afeganistão, pareciam sempre pouco claras." Esse "nevoeiro" em torno da história dos conflitos sempre intrigou Sims, que foi, durante dois anos, arquivista fotográfico do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, em Washington, D.C.. Chris deixa, por isso, inscritas, no fotolivro editado recentemente pela Kehrer Verlag, algumas questões: "Como é que as guerras são apresentadas aos cidadãos americanos, no dia-a-dia? Quem cremos ser o nosso 'inimigo' e como imaginamos as suas vidas? Numa democracia, como é que estas guerras e os seus preparativos se mantêm escondidos do olhar público? E, finalmente, quando é que tudo isto irá acabar?"

©Chris Sims
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