E depois da infecção? A “névoa mental” de quem sofre de covid-19 prolongada

A infecção já foi, em alguns casos, há mais de um ano. Mas os sintomas perduram. Quem os sente descreve uma “névoa mental”. Por isso, uma fotógrafa da Reuters captou-os com um plástico azul a cobrir a câmara — para entrarmos na nuvem.

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Alguns médicos descredibilizaram os sintomas de Shalini Arias, 23 anos, que passou a confiar na sua rede de suporte. "Eles não me julgam e ajudaram-me a aprender a viver com isto da melhor forma que posso", disse. Arias pediu a um amigo que lhe fizesse uma tatuagem para a relembrar da importância da família, amigos e colegas. "Significa crescimento e amor, o amor e apoio que eu sinto das pessoas que me estão a ajudar a ultrapassar estes tempos difíceis." Reuters/SUSANA VERA
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Teresa Dominguez, 55 anos, estava a fazer as compras semanais perto de casa, em Collado Villalba, no Norte de Madrid, em Espanha, quando percebeu que estava a vaguear sem rumo, sentindo-se perdida nos corredores, sem ideia do que precisava. Pagou o que já tinha nas mãos e saiu.

A “névoa mental”, como descreve a incapacidade de se concentrar, e a fadiga permanente depois de fazer as tarefas simples do dia-a-dia têm constrangido a sua vida no último ano, desde que em Março de 2020 a infecção por covid-19 evoluiu para o que médicos chamam síndrome pós-covid, ou “covid-19 prolongada”.

“Fisicamente sinto-me como a minha mãe de 91 anos”, diz Dominguez, mãe de dois filhos e assistente social especializada em deficiências, que tem estado de baixa desde Novembro de 2020.

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Alguns médicos descredibilizaram os sintomas de Shalini Arias, 23 anos, que passou a confiar na sua rede de suporte. "Eles não me julgam e ajudaram-me a aprender a viver com isto da melhor forma que posso", disse. Arias pediu a um amigo que lhe fizesse uma tatuagem para a relembrar da importância da família, amigos e colegas. "Significa crescimento e amor, o amor e apoio que eu sinto das pessoas que me estão a ajudar a ultrapassar estes tempos difíceis." Reuters/SUSANA VERA

Um inquérito recente da Sociedade Espanhola de Médicos Gerais e de Família (SEMG) — que entrevistou 2120 pessoas, das quais 1834 tinham sintomas compatíveis com a doença —, descobriu que o perfil típico da síndrome pós-covid era uma mulher de 43 anos que tinha, em média, 36 sintomas.

Ainda que as infecções severas de covid-19 sejam mais frequentes em homens, a covid-19 de “longo curso” parece afectar mais as mulheres — elas perfazem cerca de 80% dos casos no estudo da SEMG.

Oito mulheres e dois homens falaram com a Reuters sobre a sua experiência de “covid-19 prolongada” e sentaram-se com um fotógrafo para fazer retratos através de um “nevoeiro”, feito com plástico azul, para uma melhor percepção de como a condição os faz sentir.

Teresa Dominguez apenas tinha faltado ao trabalho quando foi mãe. A "névoal mental", aquilo que descreve como incapacidade de se concentrar, e a fadiga permanente depois de fazer as tarefas simples do dia-a-dia, começou depois de, em Março de 2020, ter tido covid-19. "Comecei a escrever um diário porque quando os médicos me perguntavam quais os meus sintomas, não me lembrava. No início, não sabiam muito sobre a covid-19, então senti que podia ajudá-los — e a outros na minha situação", diz. Reuters/SUSANA VERA
Susana Matarranz, professora primária de 44 anos, e, ao lado, um quadro limpo. Susana fica emotiva quando fala dos alunos. Ficou infectada em Março de 2020 e, no início, apenas sentiu falta de paladar e olfacto. Depois, passou para severas dores de estômago e nas articulações. "A minha clavícula está inchada, praticamente não consigo levantar o meu braço, sinto que envelheci prematuramente", diz. Susana voltou ao trabalho em Novembro, mas voltou a ficar infectada e, desde então, não voltou. Reuters/SUSANA VERA
Pedro Sanchez-Vicente, organizador de eventos de 56 anos, e o cadeirão onde passa maior parte do tempo. Depois de ter estado entubado durante 100 dias, começou a sentir sintomas de "covid prolongada". "Não sou o caso típico de 'covid prolongada', porque a maioria desses pacientes não esteve hospitalizado — pelo menos por tanto tempo. Mas partilho com eles a 'névoa mental', a parestesia, os problemas de audição, conjuntivite, herpes ocular. Podemos dizer que sou um híbrido." Reuters/SUSANA VERA
Jorge Martin, 44, e, ao lado, um colchão e uma bola. Durante a primeira vaga de covid-19, ficou infectado e desenvolveu pneumonia. Desde então, tem sofrido com dificuldades cognitivas e físicas. "Não imaginava que nesta idade tivesse que usar ferramentas de recuperação, mas recebi-as de bom grado porque ajudam-me com as limitações físicas e a frustração de olhar para o calendário e perceber que, um ano depois, ainda não estou recuperado", diz. Reuters/SUSANA VERA
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Como Dominguez, eles relatam sentir-se frequentemente incapazes de fazer tarefas rotineiras, como ir às compras ou limpar. Para alguns, até assistir a um filme pode ser extenuante.

A Organização Mundial da Saúde disse, em Fevereiro, que entender as condições pós-covid-19 era uma “clara prioridade”, apontando que, “infelizmente, alguns (pacientes) foram tratados com descrença ou falta de compreensão”.

Muitas mulheres que falaram com a Reuters, incluindo a antropologista de 23 anos Shalini Arias, disseram que os médicos inicialmente não valorizaram os sintomas, enquanto os chefes ou colegas pensavam que estavam a exagerar.

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Maria Eugenia Diez, enfermeira de 43 anos, e a piscina de casa. "A primeira vez que tentei dar um mergulho na piscina, achando que a água me ia ajudar a melhorar os sintomas, foi muito angustiante. Comecei a sentir-me sem ar, quanto mais fundo mergulhava. Tive que me sentar nas escadas para recuperar o fôlego." Reuters/SUSANA VERA

“Senti-me duplamente incompreendida, como se fosse hipocondríaca ou uma mulher muito exigente que ia ao médico porque não tinha mais nada para fazer”, disse Arias.

A OMS diz que aproximadamente um em cada dez pacientes de covid-19 continua debilitado depois de 12 semanas, e muitos por mais tempo.

Outros dois estudos, da Britain Leicester University e International Severe Acute Respiratory and Emerging Infections Consortium, sugeriram que mulheres na casa dos 40 e 50 anos têm mais risco de ter problemas de longo prazo depois de infecções por covid-19.

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Anna Kemp, tradutora britânica a viver em Espanha, diz que a covid-19 piorou a sua capacidade de comunicar em espanhol. Diz que lhe falta agilidade mental. Teve de desistir da dança, natação e das longas caminhadas que fazia, devido à fadiga. "A primeira vez que consegui chegar da minha casa ao parque, senti que estava a voar. São apenas alguns metros, e tive que me sentar para descansar, mas senti que o mundo se estava a abrir para mim." Reuters/SUSANA VERA

Sintomas de um ano fizeram Maria Eugenia Diez, uma enfermeira de 43 anos, abdicar de exercício e dispensar conferências médicas, onde sentia dificuldade em concentrar-se.

Por vezes, sentia-se como uma novata no trabalho, apesar dos 20 anos de experiência, e inventou rotinas para se lembrar de tarefas que, normalmente, desempenhava automaticamente. “Acontece-me quando conduzo. Sou muito mais desajeitada. Tenho de me lembrar todos os dias de quantas mudanças o carro tem, onde estão os retrovisores, as escovas, a água, os pedais”, disse.

Anna Kemp, uma britânica de 51 anos a viver em Espanha há quase 30, diz que a condição afectou a sua capacidade de comunicar em castelhano, e que deixou de acompanhar programas de televisão complexos porque não conseguia seguir o enredo.

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Amaia Artica, 42, e um termómetro. Fadiga permanente, febre diária, dores nos músculos e articulações, insónia e lapsos mentais constantes têm-na impedido de fazer o trabalho que adora numa creche. "O meu médico de família tem sido muito compreensivo, mas nem todos são assim. Um especialista disse-me para parar de medir a temperatura, que se não prestasse atenção deixaria de ter febre porque era tudo da minha cabeça." Reuters/SUSANA VERA

Pilar Rodriguez, vice-presidente da SEMG, disse que a sua equipa de investigação estava na fase inicial de um estudo sobre se as hormonas podem ou não ser um factor na “covid-19 prolongada”, uma vez que mulheres grávidas parecem ser menos susceptíveis, ou se a resposta é específica do sistema imunitário de cada género.

Beatriz Perez, uma engenheira informática de 51 anos, costumava fazer caminhadas aos fins-de-semana; agora, raramente consegue completar o desafio pessoal de descer as escadas do prédio onde vive, de oito andares. Subir, nem se fala.

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Nuria Sepulveda, 44, e um pneu da sua bicicleta. Nuria ficou infectada em Março de 2020 e acabou por ser diagnosticada com pneumonia, hemorragia no intestino, infecção urinária, entre outros. Tentou voltar ao trabalho em Novembro, mas a fadiga era tanta que "três horas pareciam 12". Ávida praticante de desporto, lembra-se de ficar aliviada quando voltou a andar de bicicleta: "Foi a 28 de Setembro, o primeiro dia em que consegui treinar outra vez. Não conseguia parar de chorar." Reuters/SUSANA VERA

Fadiga permanente e esquecimento têm-na afastado do trabalho, e Perez diz que “a pior coisa é viver com a incerteza” de não saber quando ou se vai recuperar.

Esses medos atormentam muitos, mas a enfermeira Diez tenta manter-se positiva. “Estou a adaptar-me ao que tenho, vou desfrutar do que tenho agora e não consigo parar de pensar no que tinha antes”, disse. “É difícil, porque sinto muito a falta disso.”