Depressão e ansiedade: o outro barco

Não há receitas milagrosas ou infalíveis, porque cada caso é um caso, mas, para aqueles que sentem o grito preso na garganta, esbarrando contra as suas paredes, o caminho é pedir ajuda.

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A pachorra é nula para entrar numa de “a minha doença é pior do que a tua”. Deixo isso para quem tem amor e apego ao processo hipocondríaco.

É verdade que quem sofre de doenças mentais poderá experienciar o agravamento dos seus sintomas neste contexto de confinamento, assim como poderá ver os seus sintomas agravados por um sem fim de situações e, tendo em conta os julgamentos apressados e sumários dos tempos que correm, disso posso falar e escrever à vontade, porque eu vivi e vivo com depressão. Todos os dias.

Há uns anos, tinha dificuldade em realizar tarefas tão corriqueiras como sair da cama de manhã ou vestir-me. Pensava, ou a grande nuvem negra fazia-me pensar, muitas muitas vezes, “para quê?”. Acordava cansado, seguia o dia cansado, deitava-me cansado, adormecia cansado, acho que dormia cansado e assim acordava, voltando tudo a acontecer, num rolo compressor para a mente.

A minha habituação ao contexto da depressão, em 2014, depois de anos de resistência em ser ajudado, foi de tal forma violenta que me rebentou a boca toda. Não estou a brincar. Para além dos naturais efeitos de assimilação da medicação, houve essa contra-indicação fortíssima: os dentes começaram a partir (incluindo os da frente). Era mesmo o que eu precisava, tendo em conta o quadro anímico e de auto-estima. Uma coisa aprendi, nestes últimos sete anos: ninguém derrota a depressão - ela doma-se, ou combate-se.

Tal como a ansiedade. São também vírus invisíveis (e muito perigosos). Nem sempre levamos a melhor, porque as suas faces estão sempre à espreita: na verdade, fazem parte, como um acrescento negativo.

Como é que um depressivo e ansioso, que sofre de stress pós-traumático, enfrenta uma situação de confinamento? No meu caso, e só escrevo por mim, como sempre, passou-se desta forma: não fui atingido por qualquer medo associado ao vírus SARs-CoV-2 em si, as minhas preocupações eram as que já exibia, como sempre, mas juntando-lhe, por inerência, o isolamento social e, sobretudo, a incerteza quanto ao futuro, no que tocava ao trabalho (com o sofrer por antecipação tudo o que me esperava). A haver trabalho.

O dia é muito grande, é preciso preencher os espaços, caso contrário a grande nuvem negra absorve-nos por completo. Agora é só multiplicar por não sei quantos.

Junto a este quadro, veio um acidente, o que piorou, e de que maneira, o panorama. A ansiedade descontrolou-se e muito rapidamente escalou para um sentimento de incapacidade e falta de esperança no futuro. Nada me valeu. Eu, que sou, apesar de tudo, um fulano optimista e, sobretudo, resiliente, caí com estrondo. E, sim, porque é preciso escrever estas coisas quando se justifica, sem que se pense que é comiseração, porque admitir fraquezas também é, em si, uma força, os pensamentos suicidas, algo que nunca experimentara, olharam-me ao retrovisor. É terrível sentirmo-nos um peso no mundo ou, pelo menos, podermos sequer pensar na possibilidade de o virmos a ser.

Agora, quero que imaginem, os que quiserem e os que conseguirem, quantas pessoas estarão nas mesmas condições ou, pelo menos, em quadros semelhantes nos tempos que correm. A bomba-relógio está para rebentar e, acreditai, é a verdadeira pandemia.

Quanto a mim, tive sorte. Houve quem insistisse e me chamasse à razão e houve, também, quem me diagnosticasse e tratasse. Salvaram-me. Quanto ao que se seguiu, fui-me (e vou-me) salvando (veremos até quando). Não há receitas milagrosas ou infalíveis, porque cada caso é um caso, mas, para aqueles que sentem o grito preso na garganta, esbarrando contra as suas paredes, o caminho é pedir ajuda: se não se sentem preparados para ir, para já, mais longe, falem com amigos, com família, enfim, com pessoas próximas: exponham, sem reservas ou com o menor grau de reserva possível o que sentem, perguntem a quem vos rodeia se sentem diferenças comportamentais ou de disposição. Aceitem, estejam receptivos, igualmente, para que haja alguma antecipação, sem se deixarem vencer pela vergonha. Por fim, procurem ajuda profissional. A depressão e a ansiedade são problemas muito sérios. Não facilitem, nem se deixem emparedar/isolar pelo tabu.

É preciso acabar com o preconceito que envolve as doenças mentais.