Quase quatro milhões de portugueses saíram à rua este sábado

Foi o sábado em que as ruas estiveram mais cheias desde que 2021 começou.

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Na última sexta-feira foram à rua quase seis milhões Rui Gaudêncio

Quase quatro milhões de portugueses saíram à rua este sábado, número que deverá também ter-se repetido ontem, contabiliza a consultora PSE, que tem vindo a medir a mobilidade dos portugueses. Trata-se do sábado mais movimentado até agora desde que o ano de 2021 começou, e corresponde a uma tendência crescente de desconfinamento ad-hoc à medida que o tempo passa. O tempo primaveril que se fez sentir no fim-de-semana, por contraponto com o temporal do sábado anterior, poderá ajudar também a explicar o fenómeno, que atinge mais homens que mulheres – elas ficam mais em casa – e que se revela mais frequente nas classes baixas que nas altas. Isso e também a crescente sensação de que o perigo já foi maior, por via do decréscimo do número de mortes e de internamentos causados pela pandemia.

“O aumento da mobilidade é uma tendência crescente que se tem vindo a verificar desde o encerramento das escolas”, a 21 de Janeiro, observa o especialista em análise de dados da PSE Nuno Santos. A consultora contabiliza todo o tipo de deslocações, sejam a pé ou em transportes. E depois de um período inicial em que as saídas de casa sofreram um decréscimo significativo, precisamente por causa do fecho dos estabelecimentos de ensino, os portugueses estão não só a voltar à rua como a fazê-lo mais vezes e por períodos de tempo mais prolongados, porque começaram a arriscar ir para mais longe.

No primeiro sábado após o fecho das escolas houve três milhões de portugueses na rua. É o dia da semana que as pessoas aproveitam para fazer compras, e que por isso sempre registou, mesmo antes da pandemia, mais movimento que os domingos, muito embora fique muito aquém do perfil dos dias de semana.

Na última sexta-feira foram à rua quase seis milhões, o que equivale a 75% das que circulavam habitualmente neste dia da semana antes de surgir a covid-19. Ou seja, só se registou uma redução de 25% relativamente aos tempos de normalidade, quando os estudos internacionais apontam para uma necessidade de baixar pelo menos 40% das deslocações para causar algum impacto na pandemia, assinala o mesmo responsável.

O aumento paulatino de deslocações registado ao longo das últimas semanas – a que a PSE chama erosão do confinamento – não discriminou regiões nem idades. É verdade que os idosos continuam a ficar mais tempo em casa, tal como as mulheres, independentemente da idade, mas todos os escalões etários registaram aumento das saídas de casa. “Há em média mais um milhão de pessoas por dia na rua, quer aos fins-de-semana quer aos dias de semana, por comparação com a altura em que as escolas encerraram”, refere ainda Nuno Santos, para quem os números da semana que vem serão cruciais para os decisores políticos fazerem opções.

Há duas hipóteses, explica: ou este desconfinamento estabiliza ou aumenta. E será com base nisso que terão de ser tomadas decisões, num cenário em que o recolhimento doméstico teve bastante menos adesão que em 2020. “O desafio vai ser desenhar regras que permitam controlar a quantidade de pessoas que queremos a circular, gerindo ao mesmo tempo as expectativas das pessoas”, considera o mesmo especialista.

Do ponto de vista do género, os homens têm sido os primeiros a saltar para a rua assim que podem. Já a diferença de comportamentos consoante os estratos sociais tem algumas explicações óbvias: por um lado, há profissões onde o teletrabalho não é possível; por outro, condições de habitabilidade mais precárias tornam a vida fora de portas mais apelativa.

O analista de dados mostra-se, seja como for, optimista: “Apesar desta erosão do confinamento, os portugueses têm mostrado um comportamento exemplar desde o início da pandemia, respeitando aquilo que lhes é pedido ou imposto.” 

O PÚBLICO tentou saber junto da PSP se o aumento do número de pessoas a passear durante o fim-de-semana fez subir as violações das normas do estado de emergência, como a proibição da mudança de concelho ao sábado e domingo ou o uso obrigatório de máscara na rua quando o distanciamento social se revele insuficiente. Mas esses números ainda não estavam disponíveis.