Francisco Rodrigues dos Santos: “Não se convocam eleições no CDS por dá cá aquela palha”

No rescaldo de um artigo muito crítico de Adolfo Mesquita Nunes, o líder do CDS assume ter vontade pessoal para cumprir o seu mandato.

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Francisco Rodrigues dos Santos (CDS) LUSA/MIGUEL A. LOPES

Adolfo Mesquita Nunes desafiou Francisco Rodrigues dos Santos, num artigo publicado na terça-feira à noite, a marcar um conselho nacional para convocar eleições antecipadas no CDS porque a actual direcção “não conseguirá” resolver “a crise de sobrevivência” do partido. Nesta quarta-feira de manhã, o líder centrista respondeu, em entrevista à rádio Observador, com uma contraproposta: “Reúna as assinaturas necessárias para convocar um conselho nacional. Com todo o respeito, publicar artigos no Observador não é uma forma de convocar conselhos nacionais.” 

Francisco Rodrigues disse que tomou boa nota da posição de Adolfo Mesquita Nunes de pedir eleições internas, ao arrepio do que tinha dito na última reunião do órgão máximo entre congressos, e anunciou que já havia marcado várias reuniões com a comissão política e executiva do partido para analisar a situação política. E sem abrir a porta a eleições, afirmou: “Este lugar não é meu, pertence aos militantes. Eu não fui eleito por padrinhos ou barões, fui pelos militantes.”

Referindo-se a Mesquita Nunes como “um ex-dirigente que de repente volta a interessar-se pelo partido", o líder dos centristas criticou os que agora trazem instabilidade, assegurando que “não têm noção do dano que estão a causar ao partido, numa altura em que precisa de se financiar na banca para levar a cabo uma campanha [autárquica] que cumpra os objectivos do CDS”.​

Ao longo da entrevista, Francisco Rodrigues dos Santos insistiu várias vezes que as direcções dos partidos são avaliadas pelos resultados eleitorais e que está contente com aqueles por que pode ser responsabilizado: regionais dos Açores (onde faz parte da solução de governo) e presidenciais (em que o candidato apoiado pelo partido saiu vencedor). “Eu não era líder quando o CDS foi conduzido a um dos piores resultados da sua história: 4%”, comentou, sem esquecer que Adolfo Mesquita Nunes contribuiu para o programa que o partido levou a essas eleições.

“Tenho vontade pessoal para cumprir o meu mandato e não provoco incidentes internos para interromper as lideranças”, disse o líder do CDS, que, a seguir, confessou não ter tido “ocasião de ler o artigo” do seu crítico publicado no Observador.

Sem dizer nomes, deixando-os para os órgãos internos, Francisco Rodrigues dos Santos criticou os “protagonistas empenhados em depauperar a credibilidade do próprio líder” e disse que não pretende contribuir “para a lavagem de roupa suja” na praça pública. 

Na entrevista à rádio Observador perceberam-se os argumentos que Francisco Rodrigues dos Santos usará para calar as críticas: os dois testes à sua liderança — Açores e presidenciais — foram bem-sucedidos. “Nos Açores, pela primeira vez, enfrentámos a nova direita, conseguimos ser terceira força política, tivemos mais votos do que Bloco e PCP juntos, ganhámos mais 1700 votos e estamos no governo”, disse. “O CDS resistiu, influencia as políticas e sem o CDS não haveria solução governativa.” Quanto às presidenciais, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa foi também a vitória do candidato apoiado pelo CDS e por isso merecedora de celebração.

“Não acho que o partido esteja a morrer”, defendeu. Recusou-se também a fazer o que alguns sugerem. “Dizem que o partido devia aproximar-se de franjas mais radicais e reproduzir esse discurso. Não estou disponível para isso. Estou disponível para lutar pelos valores do CDS sem ter de os mudar”, garantiu.