Covid-19: um mês de solidão à espera de um negativo

Rita Bolieiro esteve mais de um mês infectada pelo SARS-Cov-2 e, por isso, em isolamento. "As pessoas assintomáticas podem sofrer psicologicamente. Eu estava bem de saúde, mas sentia desespero e solidão. Estava sem sintomas, mas não podia ver ninguém. Parecia um contra-senso."

Rita Bolieiro chegou a duvidar do diagnóstico. Tinha olfacto, paladar, não tinha tosse ou dores de qualquer ordem. Nem um único sintoma de covid-19. "Foi com surpresa que recebi o resultado do teste: positivo", contou ao P3, em entrevista. A artista visual de 24 anos, natural da ilha de São Miguel, reside desde 2018 em Amesterdão, nos Países Baixos, e, aquando do episódio que partilhou com o P3, decorrido em meados de Agosto, preparava-se para passar duas semanas de férias na ilha. "Queria visitar a minha família, rever os meus amigos", explica. Mas o SARS-Cov-2 trocou-lhe os planos. "A partir do momento em que recebi o resultado do teste, fiquei fechada em casa." Os pais e a irmã, que a receberam, foram testados, mas o resultado de ambos saiu negativo.

"Na altura, não permitiam que ninguém saísse de casa com um positivo; então, periodicamente, fui realizando o teste. Só quando o resultado fosse negativo é que poderia sair." Completamente isolada numa ilha, em pleno Verão e sem sintomas, Rita sentiu-se enclausurada. "Era difícil acreditar que estava infectada", explica. "Só o teste confirmava a presença do vírus. Além disso, nenhuma das pessoas com quem tinha contactado estava infectada. Era estranho."

As semanas passaram. Teste após teste, positivo após positivo, o tempo dilatava, a ansiedade acumulava-se. "Não conseguia concentrar-me a ver filmes ou séries e precisava de sentir que estava a fazer alguma coisa. Então decidi fotografar o que estava a acontecer comigo." Assim nasce a matéria-prima que dá corpo ao vídeo Oranges and Elixir, agora exibido no P3. "Passar tantas semanas em isolamento sem um objectivo é dificil. Nessas alturas é quase impossível imaginar o futuro. Ficaria ali presa para sempre?" Rita sentia estar de castigo. "Sempre gostei de estar rodeada de amigos, de estar ocupada. Agora não podia fazer nada."

"E o que é que podia fazer para curar-me? Nada." Apesar de saber disso, a açoriana não conseguiu, simplesmente, cruzar os braços. "Tentei fortalecer o meu sistema imunitário. Procurava uma poção mágica. E comecei a experimentar, como quem compra um bilhete para a liberdade. Passei a beber sumo de laranja todas as manhãs, a tomar determinados chás e infusões e a usar elixir bucal. Alguns estudos diziam que o elixir podia ajudar a matar as bactérias." Quando o resultado do quarto teste chegou negativo, Rita "quase conseguia sentir o sabor a liberdade". O teste de confirmação, que realizou dois dias depois, denunciou um falso negativo e Rita voltou à estaca zero. "Sem ter chegado a sair de casa, estava presa outra vez."

Em meados de Setembro, chegou novo teste negativo. E desta foi de vez. "Havia parte de mim que sentia que tinha sido tudo um engano, que nunca tinha estado infectada. Acabei por fazer um teste serológico, só para confirmar. E confirmava-se: tinha anti-corpos." Rita conclui que, no seu caso, assintomática, o vírus teve um impacto preponderante ao nível da saúde mental. "É mau para quem tem problemas de ansiedade. As pessoas assintomáticas podem sofrer psicologicamente porque toda a experiência é chata, é difícil. Quando tentava explicar às pessoas o que estava a sentir, parecia que não conseguia. Afinal, eu estava bem de saúde, mas sentia desespero e solidão. Estava sem sintomas, mas não podia ver ninguém. Parecia um contra-senso." O vídeo, que realizou em conjunto com o músico e amigo Miguel Garcia, ajudou-a a transmitir o que sentiu na perfeição. 

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