Hidden: 40 fotógrafos entram “em alguns dos sítios mais sombrios do mundo” para um livro sobre abuso animal

O mais recente livro criado pela fotógrafa e activista Jo-Anne McArthur quer mostrar os “animais invisíveis” escondidos por várias indústrias. Nem sempre foram imagens fáceis de capturar. “A razão é simples: quando há câmaras, há provas de crueldade a que muitos consumidores se opõem.”

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México Aitor Garmendia

Os editores de Hidden não hesitam em igualar o fotojornalismo sobre exploração animal à fotografia de guerra. “É muito comparável em termos do assunto em questão, porque há vítimas e opressores, atrocidades e massacres”, defende Keith Wilson, convidado por Jo-Anne McArthur para co-editar o livro “sobre o conflito dos humanos com animais não-humanos”. 

Nele, 40 fotógrafos de 16 países infiltram-se em fábricas de criação intensiva e em matadouros para mostrar “os animais invisíveis”, escondidos atrás de “paredes e eufemismos” bem guardados pelas indústrias. “Estes fotógrafos entraram nalguns dos lugares mais sombrios, mais perturbadores, em todo o mundo”, descreve o actor e activista Joaquin Phoenix, no prefácio. Não pedem desculpa pelo que revelam. Mas, ao longo de 300 páginas, quiseram ir muito além do “choque”. 

Uma vaca numa vacaria industrial Andrew Skowron
Aitor Garmendia
Aitor Garmendia
Aitor Garmendia
Aaron Gekoski
Jo-Anne McArthur
Jo-Anne McArthur
Carteiras feitas de sapos Britta Jaschinski
A indústria das peles, na Polónia Andrew Skowron
Jose Valle
Timo Stammberger
Fotogaleria
Andrew Skowron

“A pecuária industrial e outras indústrias que usam animais não querem câmaras por perto. A razão é simples: quando há câmaras, há provas de crueldade sistemática a que muitos consumidores se opõem”, escreve McArthur, que já publicou no P3 um trabalho num matadouro na Tailândia onde se matam porcos à paulada e um outro livro, Captive, sobre as vidas dos animais cativos em zoos e aquários

Há décadas que a fotógrafa e activista pelos direitos de animais se dedica a construir um arquivo fotográfico que funciona como “memória” das curtas vidas dos animais usados para roupa, comida, investigação científica e entretenimento. “O fotojornalismo animal é revolucionário por duas razões. Primeiro, as imagens neste género exigem uma auto-consciencialização e uma empatia radical. Quem as vê tem de se descentrar e examinar o mundo através dos olhos de uma espécie diferente, ao mesmo tempo que retém o papel inegável da humanidade na história”, acredita. “Depois, é uma ameaça fundamental a sistemas que continuam, em grande parte, incontestados. Procurar estas histórias visuais é em si um acto de resistência.”

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Uma das páginas do livro

Hidden foi lançado em Novembro e publicado pela We Animals Media, a organização e arquivo online aberto criados por Jo-Anne McArthur, depois de uma campanha de crowdfunding que reuniu 130 mil euros, muito acima do valor pretendido. 

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Hidden reune o trabalho de 40 fotógrafos em 16 países

Para que mais pessoas se juntem à discussão sobre bem-estar animal, que muitas vezes é fechada mal se fala no consumo de carne, McArthur vai enviar cópias do livro a políticos, lobistas, grupos de agricultura e chefs. “Desde crises de saúde pública e ambiental a zoonoses, os animais estão ligados a muitas áreas que causam uma preocupação global. A nossa existência está interligada, e a forma como tratamos outros seres sencientes com quem partilhamos o planeta está a começar a ser questionada”, espera a fotojornalista. 

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Na Dinamarca Selene Magnolia

“É irónico que a pandemia de covid-19 tenha coincidido com a produção do livro. Trabalhar nele mostrou-me como o nosso tratamento terrível dos outros animais, quer na pecuária quer no mundo selvagem, está no centro do nosso próprio mal-estar”, reflecte Keith Wilson, que recentemente trabalhou numa colecção de fotografias sobre o tráfico ilegal de animais selvagens. “É impossível esquecer que todos os animais nas fotografias, e em todas as páginas de Hidden, estão agora mortos.”