Director da PJM falava com chefe da casa militar do Presidente sobre Tancos, garante major

Roberto Pinto da Costa diz ter acreditado que Marcelo e o ministro da Defesa estavam a par da investigação da Judiciária Militar e admite ter mentido a procuradores: “Um militar não põe em causa uma ordem.”

Foto
Luís Vieira, ex-director da PJ Militar Nuno Ferreira Santos

Um major da Polícia Judiciária Militar (PJM) que é arguido no caso de Tancos garante ter visto o então director-geral deste órgão de polícia criminal, Luís Vieira, telefonar ao chefe da casa militar do Presidente da República, João Cordeiro, para falarem sobre o roubo do material bélico ocorrido em finais de Junho de 2017. 

Quanto ao conteúdo dessa conversa, o major Roberto Pinto da Costa afirma que o ignora, uma vez que saiu da sala da PJM onde se encontrava com o outro oficial no momento em que o telefonema teve início. E muito menos sabe que informações transmitia o tenente-general João Cordeiro ao chefe de Estado sobre o caso. Certo é que as autoridades suspeitaram do que o hoje ex-chefe da casa militar lhes mentiu sobre o que sabia de todo o processo relacionado com o roubo e reaparecimento do armamento, razão pela qual ainda em 2019 foi extraída uma certidão para investigar este general, por falsas declarações.

O PÚBLICO tentou saber junto da Procuradoria-Geral da República o estado deste inquérito, mas sem sucesso. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa sempre negou ter sido posto a par das negociações que alegadamente tiveram lugar entre os militares e os ladrões do material bélico para que o produto do roubo fosse entregue sem estes últimos serem alvo de qualquer tipo de punição.

“A minha convicção era que o Presidente da República e o ministro da Defesa estavam a par de todo o processo” relacionado com a investigação desenvolvida pela PJM, declarou em tribunal esta quinta-feira o major Pinto da Costa, muito embora negando qualquer intenção de deixar escapar os ladrões em troca da devolução do armamento.  

As diligências da Judiciária Militar junto do chefe da casa militar do Presidente, diz o Ministério Público que tinham como objectivo tentar reverter a decisão da procuradora-geral da República de entregar a direcção da investigação sobre Tancos à Judiciária Civil, retirando assim protagonismo aos militares. Cerca de quatro meses depois do assalto João Cordeiro recebe uma mensagem de correio electrónico do director-geral da PJM: “Meu General, não sei bem como colocar a questão. Não será possível o nosso Presidente, junto da procuradora-geral da República, obter, sensibilizar, para que este inquérito deixe de estar delegado na Polícia Judiciária [civil] e sim, como seria correcto desde início, na PJM?”. 

Pinto da Costa, que responde por associação criminosa, tráfico e mediação de armas, falsificação de documento, denegação de justiça e prevaricação, entre outros crimes, aponta baterias a dois superiores hierárquicos que não foram constituídos arguidos: o coronel da Força Aérea Manuel Estalagem e o capitão João Bengalinha. 

Na sua versão dos factos, foram estes dois oficiais a dar-lhe ordens para prosseguir a investigação ao roubo do material de Tancos, mesmo após a procuradora-geral da República ter delegado as diligências na Judiciária civil, retirando assim competências à Judiciária Militar. “Cumpri ordens do coronel Estalagem, que não é arguido neste processo”, declarou Pinto da Costa, acabando por admitir ter mentido aos procuradores titulares do inquérito ao desaparecimento do material bélico, ao não lhes mencionar as circunstâncias em que o armamento reapareceu, por indicação dos seus superiores hierárquicos. “Foi por dever de obediência”, justificou-se. “Um militar não põe em causa uma ordem.”