Trump

Como se explica que o Presidente americano mais controverso de que há memória tenha conseguido angariar mais votos do que há quatro anos? Algo se está a passar na América.

Trump 2016: 62,984,828 votos.

Trump 2020: 69,655,617 votos (números provisórios, com muitas urnas por abrir).

Como se explica que o Presidente americano mais controverso de que há memória tenha conseguido angariar mais votos do que há quatro anos?

Para começar, há que perceber duas ou três coisas sobre a América.

Em primeiro lugar, os Estados Unidos da América não são um país. Os EUA são uma federação de estados. Uma federação do tamanho de um continente. Quem vive neste imenso continente, que vai do Atlântico ao outro lado do Pacífico, com desertos, florestas tropicais e regiões polares, vive num mundo cultural próprio: uma espécie de civilização transplantada, vinda dos quatro cantos do mundo e reestabelecida, em novos termos, nesse enorme território.

Em segundo lugar, ao contrário do que muitas vezes se pensa, este país de dimensão continental é extremamente diverso e complexo. É tão complexo como, por exemplo, a Europa. Na realidade, um bairro em Nova Iorque pode ser mais diverso do que muitos países europeus. Cada um destes bairros é um microcosmo. Um pequeno universo onde convivem pessoas provenientes dos mais variados países, com diferentes religiões, cuja polifonia de sotaques nos reenvia de imediato a distantes pontos de origem.

Em terceiro lugar, isto significa que reduzir os EUA a um mapa com estados azuis e vermelhos pode ser tão mistificador quanto apresentar um mapa da Europa a duas cores: o que significaria representar Portugal a uma só cor? O que tal representação diria sobre quem somos, a nossa economia, ou como se vota entre nós? Quase nada. Ora, o mesmo é verdade para cada estado americano, alguns dos quais várias vezes maiores e complexos do que o nosso país.

Na realidade, por detrás de cada um dos mais de 69 milhões de votos em Trump em 2020, está uma pessoa. Uma pessoa que tem uma variedade de razões para ter votado como votou. É sobre estas 69 milhões de histórias pessoais, espalhadas por dezenas de estados, em grandes metrópoles como em pequenas vilas e aldeias, que devemos refletir se quisermos perceber porque é que, uma vez mais, as sondagens não se mostraram capazes de prever o resultado desta eleição. É certo que só agregando estes 67 milhões de votos poderemos dizer alguma coisa sobre o “voto Trump”. Mas não devemos confundir isto com explicações simplistas. A verdade é que a explicação para Trump ter sido eleito em 2016 Presidente dos Estados Unidos e, apesar de um mandato caótico, com uma sucessão interminável de escândalos, um processo de destituição, e mais de 200 mil vítimas da covid-19, ter visto o voto popular aumentar em 2020, é tudo menos simples. Não se reduz a um ou dois fatores. Pelo contrário, a explicação para o fenómeno Trump é complexa.

Desde logo, tem de ver com as razões profundas de descontentamento que o levaram à Presidência dos EUA há quatro anos. Estas razões são tão económicas quanto culturais. Tem tanto que ver com a criação de emprego e melhoria das condições de vida, como com a afirmação de identidades culturais, orientações sexuais ou estilos de vida. Enquanto não percebermos o que se passou em 2016, não vamos entender o que se passou a seguir.

Por outro lado, o que se passou entre 2016 e 2020 foi vivido de forma muito diferente dentro e fora dos EUA. É fundamental não perder de vista que a imagem que o mundo tem da América e do seu Presidente é filtrada pelos meios de comunicação social que usamos. Ora, este não é o prisma através do qual os americanos veem o seu Presidente. Não só usam mass media locais, como vivem nos EUA, um duplo filtro que torna muito difícil para alguém a viver na Europa compreender o que se passa do outro lado do Atlântico. Ou seja, a familiaridade que temos de Trump é um efeito mediático; parece que o conhecemos porque seguimos todos os seus escândalos, tweets, etc. Mas não nos podemos esquecer que cada um dos mais de 69 milhões de eleitores que votou Trump em 2020 olha para ele através de um filtro mediático diferente do nosso. Muitos destes eleitores vê canais de televisão que apoiam Trump e passam horas em redes sociais cujos algoritmos os protegem de opiniões diferentes das suas. O fosso que os separa dos outros milhões que votaram Democrata em 2016 e 2020 só aumentou neste período. Assim se explica que aquilo que para muitos de nós é surpreendente, para muitos dos 69 milhões que votou Trump não foi surpresa nenhuma que ele tenha tido mais votos em 2020.

Estas e muitas outras razões estão por detrás do fenómeno Trump. Pode ser que, apesar do aumento absoluto do número de votos, não seja reeleito. Mas o mero facto de que este aumento sucedeu é revelador. Algo se está a passar na América. Não só na América. Um pouco por todo o mundo, há sinais de que algo está mal. Mesmo que seja Biden o próximo Presidente, este mal-estar não vai desaparecer facilmente. O descontentamento e as tensões que têm vindo a acumular-se não vão desaparecer de um dia para o outro. Pelo contrário. Ou são atendidas, ou vão piorar.

No fundo, este é o desafio do próximo Presidente americano, seja ele quem for. O que fazer perante uma América tão dividida, polarizada e desencantada como a América dos dias que correm?

Se reeleito, Trump será igual a si próprio: mais divisão, mais polarização, mais desencantamento.

Se o eleito for Biden, o desafio é outro. Desde logo, mudar de rumo em relação a Trump. Mas, fundamentalmente, Biden tem de responder aos problemas desta América dividida de forma diferente de Clinton e Obama. 2016, não nos esqueçamos, acontece depois de oito anos de Obama na presidência.

Sobretudo, Biden não se pode esquecer deste simples facto. Trump teve mais votos em 2020 do que em 2016, o que já havia sido um choque de proporções monumentais. Compreender as razões profundas deste facto tão inesperado quanto inquietante é condição para Biden poder começar a responder aos problemas da América.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico