Nova Zelândia tem pela primeira vez uma mulher maori como ministra dos Negócios Estrangeiros

Jacinda Ardern apresentou um dos governos mais diversos do planeta, onde há espaço para homens, mulheres, gays, indígenas, cientistas e até adversários políticos.

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Nanaia Mahuta será a nova ministra dos Negócios Estrangeiros da Nova Zelândia EPA/BEN MCKAY

Depois de ter merecido um enorme voto de confiança do eleitorado, a primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, aproveitou a formação do novo Governo para reforçar as suas credenciais como uma das líderes mundiais mais progressistas do planeta. O Executivo tem pela primeira vez uma mulher indígena como ministra dos Negócios Estrangeiros, três ministros homossexuais e outras minorias. “Reflectem a Nova Zelândia que os elegeu”, afirma Ardern.

Uma das maiores novidades é a nomeação de Nanaia Mahuta como ministra dos Negócios Estrangeiros, que é a primeira mulher maori a exercer o cargo. Há quatro anos, Mahuta já tinha sido a primeira deputada a usar o moko kauae, uma tatuagem tradicional do povo maori, e agora é a primeira mulher indígena a chefiar a diplomacia neozelandesa.

Mahuta, que sucede a Winston Peters, que também é maori, disse sentir-se “privilegiada” pela nomeação. A sua escolha é vista como um facto histórico.

“O rosto da Nova Zelândia é indígena”, afirmou a jornalista Rukuwai Tipene-Allen, que trabalha num canal maori, citada pela CNN. “A primeira cara que as pessoas vêem a nível internacional é a de alguém que fala, parece e soa como uma maori”, disse. O uso do moko kauae é extremamente simbólico e representa um forte sinal identitário do povo maori, explica a imprensa local.

Mensagem de diversidade

A nomeação de Mahuta é apenas um dos traços de um Governo construído para enviar uma mensagem de diversidade, condizente com aquela que tem sido a governação de Ardern, desde que chegou a primeira-ministra em 2017.

A sua carreira tem sido medida pela quebra de tabus na política neozelandesa e mundial. Aos 37 anos, foi a mulher mais jovem a chegar à chefia de um governo e apenas a segunda a dar à luz enquanto estava no cargo – antes de Ardern, tinha havido o caso da antiga primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto.

Mas a governação de Ardern não se faz apenas de símbolos. A 15 de Março de 2019, o seu Governo foi confrontado com o pior atentado terrorista na História da Nova Zelândia, quando um supremacista branco matou 51 pessoas em duas mesquitas em Christchurch.

Na altura, Ardern foi firme ao promover um regime mais rígido na venda e posse de armas de fogo, ao mesmo tempo que conseguiu manter o país unido na condenação do terrorismo. Um dos momentos fundamentais foi a visita de Ardern a uma mesquita durante a qual usou hijab (o lenço islâmico), onde se encontrou com familiares das vítimas.

Um ano depois, o país viu-se a braços com a pandemia da covid-19, mas tornou-se num dos principais casos de sucesso no controlo das infecções. Ardern adoptou rapidamente medidas de confinamento que permitiram, até ao momento, controlar os contágios.

O Governo decidiu fechar as fronteiras e montou um eficiente sistema de rastreamento, trabalhando constantemente de perto com as autoridades sanitárias e científicas e resistindo aos apelos que ignoram as evidências científicas, ouvidos noutras partes do mundo.

Vitória histórica

A postura de Ardern pôs a Nova Zelândia a seus pés. No mês passado, o Partido Trabalhista alcançou o melhor resultado de sempre em meio século nas eleições legislativas, ao recolher perto de 50% dos votos, que lhe garantiram uma maioria absoluta no Parlamento algo inédito desde a reforma eleitoral de 1994.

Este resultado permite que os trabalhistas governem sem necessidade de recorrer a uma coligação, dando-lhes um poder sem precedentes na política recente neozelandesa.

No entanto, Ardern não deixou de fechar um acordo de cooperação com os Verdes, com quem estava coligado até agora (para além dos populistas do Nova Zelândia Primeiro, que agora obtiveram um mau resultado eleitoral). Apesar de não necessitar dos seus votos no Parlamento, o Governo irá incluir três elementos dos Verdes, que ficam com áreas como as alterações climáticas e a violência familiar.

O combate à covid-19 representa o grande desafio do Executivo apresentado esta segunda-feira por Ardern. Foi criado um cargo exclusivo para a resposta à pandemia, que será desempenhado pelo até agora ministro da Saúde, Chris Hipkins, que tinha sido nomeado em Julho em plena crise. Também foi integrada no Governo a deputada Ayesha Verrall, uma médica epidemiologista que foi uma das principais conselheiras de Ardern durante a pandemia.

Foram destinados 50 mil milhões de dólares neozelandeses (28 mil milhões de euros) para financiar medidas mais imediatas e outras de longo prazo com o objectivo de iniciar a recuperação económica, diz o Guardian.

Ardern também nomeou como primeiro-ministro-adjunto, Grant Robertson, que é um dos três homossexuais assumidos no Executivo. “Este é um Governo baseado no mérito mas também é incrivelmente diversificado e estou orgulhosa disso”, afirmou Ardern quando anunciou a composição do Executivo.