Covid-19: medidas de reforço do SNS são positivas mas chegam “demasiado tarde”

Reforço do rastreio de contactos e e dos cuidados intensivos devia ter avançado há meses. A situação agora “é caótica”, diz bastonário da Ordem dos Médicos.

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LUSA/TIAGO PETINGA

As medidas de reforço do Serviço Nacional de Saúde (SNS) anunciadas pelo Governo são elogiadas por representantes de médicos e enfermeiros mas todos defendem que chegam demasiado tarde, numa altura em que o número de novos casos de infecção pelo novo coronavírus disparou. No domingo, este número diminuiu (3062 novos casos) após três dias consecutivos em que foi superior a quatro mil por dia, mas os internamentos hospitalares ultrapassaram pela primeira vez a barreira dos dois mil (2122) e registaram-se 37 mortes. Nas unidades de cuidados intensivos (UCI) estavam internados 284 pacientes, menos dois do que no dia anterior.

Para aquela que é a primeira frente do combate à pandemia de covid-19, o Governo anunciou no sábado que vai contratar enfermeiros reformados para rastreio de contactos, com a missão de apoiarem as depauperadas equipas de saúde pública. Também a linha SNS 24 passará a emitir directamente as declarações para isolamento profiláctico de forma a evitar que as pessoas tenham que recorrer aos médicos de saúde pública da área de residência para poderem justificar as faltas ao trabalho, explicou o primeiro-ministro. 

“Esta é uma medida muito importante”, aplaude o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Rui Nogueira, lembrando que os centros de saúde estão muito pressionados e que os médicos de família estão “exaustos”. O presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, também compreende a relevância desta medida numa altura em que as autoridades de saúde pública não têm mãos a medir, mas defende que é necessário garantir que os profissionais que trabalham na linha SNS 24 (enfermeiros) têm competência para desempenhar esta tarefa. Um problema que Rui Nogueira reconhece mas desvaloriza face à “situação tão excepcional e aflitiva como é a actual”. Os dois concordam num ponto: estas medidas já deviam ter avançado há muito tempo. “Os casos começaram a aumentar no final de Agosto”, recorda Mexia.

A jusante, e para reforçar as unidades de cuidados intensivos (UCI), cuja capacidade é limitada não só pelas camas disponíveis mas sobretudo pelo número de profissionais de saúde especializados no tratamento de doentes em estado crítico, o Governo anunciou a abertura de um regime excepcional para contratação de 350 enfermeiros que decorre em paralelo com um concurso para contratar 48 médicos especialistas em medicina intensiva, a que se segue, no início de 2021, outro concurso para mais 46. Também vão aumentar as camas de cuidados intensivos, serão mais 202 mas num horizonte temporal que se prolonga até ao final do primeiro trimestre do próximo ano.

Sublinhando que as estas medidas são positivas, o bastonário da Ordem dos Médicos nota igualmente que chegam “demasiado tarde”, numa altura em que os hospitais estão numa situação muito complicada. “Já quase não há camas vagas. Desafio a ministra a visitar os hospitais de surpresa”, propõe Miguel Guimarães, que defende que não se pode chamar reforço à contratação de médicos especialistas em medicina intensiva, uma vez que estes já estavam a trabalhar nestas unidades como internos.

Quanto à contratação de enfermeiros para as UCI, esta faz todo o sentido e representaria um reforço, mas onde se vão buscar tantos profissionais especializados nesta área, pergunta. O anúncio de todas estas medidas evidencia “o desespero do Governo” perante uma situação que “é caótica”, remata.

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros considera igualmente que estas medidas “vêm tarde” e tem dúvidas sobre a viabilidade de contratação de um tão elevado número de profissionais para as UCI. Ana Rita Cavaco recordou, aliás, à Lusa, que a ordem fez um estudo para perceber quantos são os enfermeiros com experiência nesta área que estão noutras funções e podem ser transferidos.

“Não haverá muitos mais com experiência em cuidados intensivos. Resta-nos contratar aqueles que existem no mercado, sabendo que um enfermeiro com experiência [nesta área] não a adquire em cursos de 16 horas, como alguns hospitais quiseram fazer, porque trabalhar com um ventilador é muito complicado. As pessoas têm de se convencer que um ventilador não é uma ‘Bimby’, que se carrega num botão e que o doente fica estável e está bem cuidado”.