Num ano desolador, Canas de Senhorim recordou os seus mortos a conta-gotas

Com a circulação entre concelhos limitada, o dia de Todos os Santos foi preparado com antecedência nesta vila do concelho de Nelas, em Viseu.

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ADRIANO MIRANDA/PUBLICO
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Canas de Senhorim ADRIANO MIRANDA/PUBLICO
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Maria Helena ADRIANO MIRANDA/PUBLICO
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Bicicleta
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Canas de Senhorim ADRIANO MIRANDA/PUBLICO
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Carro
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,Planta com flor
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Por cima dos muros brancos que servem de perímetro ao cemitério de Canas de Senhorim, concelho de Nelas, erguem-se vários holofotes. Hoje estão desligados e assim vão continuar, mas, em anos anteriores, iluminariam a noite do cemitério durante dois ou três dias por esta altura, explica Ricardina Ferreira, depois de descer os degraus cimentados da entrada principal, onde se encontra um painel que estabelece todas as regras de acesso, permanência e saída. “Costuma ficar tudo ligado. Eu gosto de ver e venho cá à noite, andamos lá dentro como numa cidade”, conta. E este ano? “É lógico que este ano nem se compara”, diz, como se só houvesse uma resposta à pergunta. Com o espaço a encerrar às 19h por conta das restrições pandémicas, Ricardina, que tem no cemitério “a sua melhor vizinhança”, foi ali durante o dia.

Ao início da manhã de domingo de finados, contava-se pelos dedos de uma mão o número de pessoas no interior do cemitério. Por isso, o ambiente é silencioso, excepção feita aos pássaros que encontraram refúgio num cipreste de grande porte que se instalou entre campas. A maior parte da afluência verificou-se na véspera, nota o trabalhador da Junta de Freguesia de Canas, Rogério Santos, que hoje tem a função de controlar o fluxo de pessoas. “Na quinta-feira já estava tudo preparado, vieram durante a semana”, diz.

Isso explica o mar de arranjos florais e velas acesas que cobre as superfícies de mármore, mesmo que ainda não tenham entrado sequer 50 pessoas à vez, quanto mais em simultâneo (o tecto máximo estabelecido por lei). Alzira Barata sente a diferença. “As pessoas começaram a vir logo no início da semana”, conta. Logo aí, começaram a esgotar as flores que, num ano normal, seriam vendidas à porta.

A florista não montou a banca nas redondezas, nem os antigos bombeiros voluntário de Canas de Senhorim, que se costumam deslocar em comitiva para homenagear os seus mortos, se reuniram em grande número. Neste dia de finados são apenas dois: Teresa Lourenço e João Henriques que, em nome da Velha Guarda dos bombeiros de Canas, percorrem vários cemitérios para depositar ramos de flores para assinalar a memória. “Está mesmo muito pouca gente”, comenta Teresa. “As pessoas têm medo”, justifica. “E é bom que tenham”, tinha acrescentado Alzira Barata, de 70 anos, em quem a mãe, de 90, tinha delegado a tarefa de cuidar dos mortos da família. Talvez assim as pessoas tenham mais cuidado, acredita.

Todo o cuidado é pouco e Rogério Santos observa quem chega e quem vai. Além do cartaz com avisos e procedimentos, na entrada está instalado um dispensador com gel desinfectante e um carreiro de baias que divide circuitos. Quem passa pergunta ao funcionário da junta, com a familiaridade de um conterrâneo, se está a servir de porteiro. “Sim, mas não é preciso, as pessoas vêm compassadas”, vai respondendo.

A estranheza nota-se tanto no que se passa, como no que não se passa nesta margem do distrito de Viseu. Quando falou com o PÚBLICO, Maria Helena Santos ainda não tinha decidido se ia à missa da tarde, que seria na igreja matriz. Noutros anos, 1 de Novembro era dia de fazer uma celebração “muito bonita, ao ar livre”, no cemitério, “à qual as pessoas dão muita importância”, com direito a uma pequena procissão. Este ano não haverá nada disso, nem Maria Helena, assídua em cerimónias religiosas, foi ao cemitério rezar pelos seus. Não quer contribuir para uma enchente nem, sendo a lotação limitada, tirar lugar a outros, refere. “Vou lá todo o ano. Se faço uma caminhada passo por lá e estive lá ontem”, afirma. “Para mim, o dia de Todos os Santos é uma festa, é o dia mais alegre do ano”, diz Maria Helena, para quem as composições de gerberas, crisântemos, rosas e orquídeas são uma mistura de “beleza e luxo exagerado”. Entende que mais importante que os ramos é a presença, mesmo que seja noutro dia, mesmo num ano “com muitas limitações, muito desolador e muito triste”.